Teatro & Pensata

‘Precisamos nos respeitar, nos unir. O ódio não nos ajudará’, dispara Preta Gil

A cantora está de volta aos palcos cariocas com seu monólogo biográfico e musical “Mais Preta que nunca” e frisa: "Eu sempre me achei normal e amava meu corpo até o dia que comecei a ser atacada por não ter corpo de modelo da passarela quando lancei meu primeiro disco. Aprendi que o único caminho seria ser verdadeira comigo mesma com meus princípios e o “sou como sou” virou meu mantra"

Publicado em 15/11/2019 | Por Heloisa Tolipan

Preta Gil no palco e um flashback em forma de monólogo com performances (Foto: Agnews)

Preta Gil está de volta aos palcos cariocas com seu monólogo biográfico e musical “Mais Preta que nunca” depois de um preview no dia do seu aniversário, em 8 de  agosto, ao completar 45 anos. Desta vez, Preta faz sua primeira mini temporada no Teatro XP Investimentos no Jockey Club da Gávea por três finais de semana. Ontem, na primeira sessão recebeu Regina Casé na platéia o que levou ambas as lágrimas. Regina foi a verdadeira  “culpada”por incentivar Preta a cantar quando ela arrasava nas sessões de Karaokê que Regina fazia em casa há 20 anos atrás. Preta disse ao público  “Essa é minha madrinha e eu devo a ela tudo que estou fazendo hoje e quando eu crescer quero ser igual a ela”.  Regina foi as lágrimas diversas vezes e registrou em suas redes sociais: “Ela é a coisa mais linda, todo mundo tem que ver”. Hoje, Preta comemora os 4 anos da neta, Sol de Maria, antes de retornar ao palco.

O afeto da grande incentivadora Regina Casé (Foto: Agnews)

Heloisa Tolipan – Mais uma empreitada com a sua garra. Conseguiu levar para o palco do teatro uma história de vida contada de maneira tal qual um happening ou uma performance. Como foi o processo para você conseguir levantar esse projeto?

Preta Gil – Foi uma mistura de fatores que parecem aleatórios mas que no fundo estavam há algum tempo sendo cultivados na minha listinha de “desejos” para fazer um dia. Fui convidada para escrever um livro no ano passado, depois de gravar horas de lembranças e vê-las escritas achei que não seria o momento de lançar, mas pessoas me diziam que eu devia compartilhar histórias que ninguém sabia. Há 13 anos eu vivi uma experiência no teatro com o mesmo formato de monólogo musical com banda em “Um homem chamado Lee”. Então misturei partes do livro com a vontade de viajar pelo Brasil em teatros e partimos para a execução. Tem sido maravilhoso está perto de um público que não tinha como ir no bloco ou nos shows.

Chamei o Otávio Muller para dirigir e nosso filho, Francisco Gil, para cuidar da parte musical . Se era para ser pessoal procurei a direção de quem me conhecia de corpo e alma. Esse espetáculo é muito pessoal mas também traz questões  e temas com as quais muita gente se conecta.

HT – Em ‘Preta Gil, Mais Preta que Nunca!‘ viajamos no tempo e música e narrativa tornam-se uma simbiose repleta de contextualização. Músicas eternas e momentos históricos permeando sua vida. Acompanhei a vida inteira o que está no palco. Me diga: quais as delícias e as dores que ficaram em sua alma e sintetizam o que o espectador pode conferir?

Preta Gil – Ai Helô, são tantas emoções!!  As delícias foram as oportunidades que a vida me deu, de nascer e crescer no meio de muitas ideias de gente criativa e de conviver com ícones da nossa música, das artes em geral. De estar no Chacrinha, de ir pro Baixo Leblon ainda novinha ao lado de Cazuza e toda aquela turma, de trabalhar com publicidade, produzir clipes, enfim …Eu vi muita coisa boa, aprendi com muita gente incrível e tive a bênção de nascer nos anos 70 e ser adolescente nos 80. As dores sempre vieram de fora dessa “bolha”  do maravilhoso mundo de uma filha da Tropicália .

Aprendi  logo cedo que a liberdade de ideias e de transitar num ambiente “fora do padrão” e tinha um preço. Mas a coisa se intensificou depois que comecei a cantar profissionalmente. O julgamento,o patrulhamento, os preconceitos sempre estavam por perto e até hoje rondam. O espetáculo mostra isso, essa montanha russa de dores e delícias, mas “se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi”.

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HT – O que você acha do lançamento de singles em plataformas digitais?

Preta Gil – É o “prato do dia” e devemos acompanhar e usar todas as formas possíveis de contato com o público. Frequento o ambiente digital desde os tempos do Orkut eu gosto de chegar onde o povo está e aprendo todo dia novas formas de conexão.

HT – Essa velocidade de artistas lançando singles em plataformas faz com que a música se torne algo fluido? Facilmente alcançado o sucesso e esquecido com rapidez?

Preta Gil – Cada caso é um caso, mas, sem dúvida, tudo fica mais volátil e tende a ser mais consumido em quantidade o que faz com que coisas boas se percam na “tsunami”, mas o público não é bobo. Eu quis lançar meu álbum “Todas as cores” inteiro, mas também faço singles como é o caso de “Só o amor” que lançamos recentemente. O público sabe o que quer e elege o que permanece em suas “playlists”.

HT – Acredita que hoje teremos movimentos musicais e canções que serão eternas?

Preta Gil – Um “ samba bom nunca morre”. O que chega ao coração do público perdura. Todos os movimentos são genuínos e merecem meu respeito, há espaço para todos e a permanência das canções dependerá do público, como sempre foi.

HT – O que hoje significa empoderamento feminino e o levantar bandeiras por direitos de expressão de pensamento e luta contra gordofobia, homofobia….? Lá atrás Preta Gil já expressava tais pontos de vista. E você deixa claro na narrativa do seu monólogo o quanto hoje palavras não devem ser usadas por questões de respeito. Mas, o caminho foi duro pra você e, por vezes, solitário. Como avalia este percurso e o que tem a dizer para essas meninas do agora?

Preta Gil – Significa: “seja você mesma”. Eu sempre me achei normal e amava meu corpo até o dia que comecei a ser atacada por não ter corpo de modelo da passarela quando lancei meu primeiro disco. Aprendi que o único caminho seria ser verdadeira comigo mesma com meus princípios e o “sou como sou” virou meu mantra, segui com a bandeira de que a felicidade é um direito de qualquer um e ninguém é melhor que ninguém. Gosto de ver hoje que era “empoderada” sem saber. Eu estava sendo eu mesma. Digo apenas, seja você!

A emoção, sempre, ao relembrar pessoas e fases de uma vida inteira (Foto: Agnews)

HT – Por mais que seja filha de Gilberto Gil, afilhada de Gal Costa, você lutou muito para imprimir sua chancela na música. Quando pensou em desistir e o que atravessou para estar onde chegou?

Preta Gil – Fiz meu caminho com muito trabalho, não me submeti às regras impostas pelo mercado, reduzi expectativas e procurei conectar com o ser humano, coloquei meu bloco na rua literalmente e procurei encontrar minha turma como um dia meu pai me aconselhou. Eu não era um ícone da MPB, mas fiz o meu espaço ao poucos, de forma independente com muita paciência e trabalho. Hoje tenho meu selo e agência, representamos artistas de diversos segmentos e sigo meu coração.

HT – Como é sobreviver de música hoje para você?

Preta Gil – É viver e como para todo mundo. É luta, é suor, é saber cair e levantar. Não seria diferente se eu tivesse um comércio, se eu trabalhasse em uma empresa ou tivesse uma barraca na feira. É trabalho, paixão e resiliência. É assim para todo artista, todos os dias.

HT – O que teremos de novidade no Bazar da Preta e o que viu de concreto ser realizado com o dinheiro arrecadado ano passado? Qual foi o destino?

Preta Gil – Eu tento variar o número e as instituições que apoiamos, mas há muitos anos ajudamos ao Natal do Complexo do Alemão através do Voz da comunidade. Em 2018, também o IKMR dos refugiados. Esse ano, em São Paulo, foi a Casa do Zezinho. Às vezes é dinheiro e alimento ou compramos coisas que precisam. O importante é fazer nossa parte. Este ano, no aniversário da minha neta resolvemos pedir brinquedos e alimentos não perecíveis ao invés de presentes, a gente junta tudo e tenta ajudar.

Não estou só, é uma corrente de quem doa suas roupas, quem compra, quem divulga, quem etiqueta, quem embala…somos formiginhas mas felizes por estarmos fazendo algo, seja muito ou pouco. O importante é fazer.

HT – O  que você está preparando para o carnaval 2020? No Rio e em Salvador?

Preta Gil – Preparando a massa pra ficar crocante e deliciosa. Tem São Paulo também, a gente só quer espalhar amor e alegria . Onde e por quanto tempo minhas forças permitirem estarei lá.

HT – Preta, como inovar sempre, e conseguir falar para um público tão plural?

Preta Gil – Ser verdadeiro, olhar no olho do povo, tocar o que querem ouvir e aproximar as diferenças com amor e respeito. Não tenho muito como explicar e só quem vai ao nosso bloco pode sentir a energia que só Deus sabe como fazer rolar. Uma massa tão heterogênea e gigante se respeitando é algo muito forte e bonito de ver.

HT – Até onde permite que uma pessoa dê seu ponto de vista na internet? Onde começa a ofensa?

Preta Gil – Até o ponto de ofender alguém ou muitos. Estamos em 2020 quase, o mundo está uma loucura e se não evoluirmos nessa vida, quando será? Precisamos nos respeitar, nos unir, o ódio não nos ajudará. A ofensa começa na falta de amor de quem ofende. Eu rezo para que enxerguem o básico, somos um.

HT – Quem são seus eternos ídolos e quem da nova geração a atrai muito?

Preta Gil – Nossa essa lista não vai sair pra hoje, amo tanta tanta gente que seria até injusto lembrar de uns e não ter outros, eu passo. Na peça cito alguns mas meu maior ídolo é sem dúvidas Gilberto Gil.

No telão, o pai, Gilberto Gil, e o filho, Francisco (Foto: Agnews)

HT – Qual o balanço hoje sobre a mulher brasileira 2019?

Preta Gil – Ela está mais consciente, está mais unida e engajada, mas precisa estar atenta para saber criar as próximas gerações. É um momento muito especial.

HT – Quais os sonhos de vida que permeiam sua mente e coração?

Preta Gil – Ter saúde para ver minha neta crescer, meu filho florescer e conseguir ter paz e amor ao meu lado mesmo enfrentando as turbulências comuns a todos nós.

Com a neta Sol de Maria (Foto: Agnews)

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