Teatro & Pensata

“A Outra Casa”: memória e vulnerabilidade humana compõem enredo da peça, que estreia amanhã no Rio, do autor norte-americano Sharr White

No papel principal, Helena Varvaki interpreta uma mulher que sofre com lapsos de memória. Entre tantas outras questões que a peça traz para o público, a atriz destacou que a personagem acrescentou novas experiências a sua vida pessoal. "Eu percebi que situações que antes tínhamos como certeza podem se perder no tempo e pessoas que não considerávamos tanto antes podem se mostrar extremamente acolhedoras nos piores momentos", apontou

Publicado em 03/03/2017 | Por Julia Pimentel

Memória. A palavra, que traz em seu significado a lembrança de consciências passadas, também pode ser traduzida como uma colcha da personalidade. Através das informações que colecionamos a cada hora e a cada dia, moldamos opiniões, argumentos e o nosso próprio ser. Porém, e quando tudo se perde e nos esvaziamos dessas lembranças? Esse é o enredo da peça “A Outra Casa” que estreia nesta sexta-feira, no Teatro Café Pequeno, no Leblon. Com texto do norte-americano Sharr White e tradução por Diego Teza, Helena Varvaki interpreta Juliana, uma mulher casada e mãe que sofre lapsos de memória e se torna vulnerável às suas próprias lembranças.

Em entrevista, a atriz e protagonista do espetáculo contou o que despertou sua atenção no texto de Sharr White que foi entregue a ela por sua amiga, Marjorie Estiano. “O principal destaque desta obra é a qualidade dramatúrgia do autor. É incrível a forma com que ele tece os acontecimentos e aborda a questão da memória. Afinal, as lembranças de uma pessoa estão altamente relacionadas à construção do próprio ser humano”, explicou.

Helena Varvaki em cena como Juliana, em “A Outra Coisa” (Foto: Guido Argel)

Com um tema complexo e que, nas entrelinhas, faz uma reflexão sobre o caráter do homem moderno, Helena Varvaki destacou a importância da tradução de Diego Teza para o resultado da peça. Para garantir que todas as ideias de Sharr White fossem entendidas e absorvidas, a atriz contou que trabalhou em cima do original e da obra traduzida. “O Diego fez um trabalho brilhante e que foi fundamental para que a gente entendesse a ideia do autor. Além de traduzir, ele também acompanhou os nossos ensaios de perto e esteve sempre à disposição para esclarecer algumas passagens que por ventura nós não tivéssemos entendido”, apontou a atriz que, embora já trabalhe esse texto há algum tempo, não abre mão de seguir à risca a proposta original de Sharr White.

Na peça, Helena Varvaki interpreta Juliana, que sofre de lapsos de memória e se torna vulnerável a seus próprios princípios. Sobre a condição da personagem, a atriz destacou que nem sempre essa experiência é só ruim. Segundo Helena, seu papel em “A Outra Casa” lhe mostrou pontos positivos sobre uma possível tragédia pessoal. “A Juliana me ensinou muito e acrescentou diversas novas experiências a minha vida. Com ela, eu aprendi como é importante conseguir entender as perdas quando tomamos como panorama o futuro. Eu percebi que situações que antes tínhamos como certeza podem se perder no tempo e pessoas que não considerávamos tanto antes podem se mostrar extremamente acolhedoras nos piores momentos. Fora que, na peça, a personagem é casada e tem no marido como um grande porto seguro, que está ali o tempo inteiro. Isso me mostra a importância do companheirismo nas relações de hoje em dia”, analisou.

Gabriela Munhoz e Helena Varvaki em cena (Foto: Guido Argel)

Por falar no companheirismo, em cena, a personagem de Helena é casada com o de Sávio Moll. Estreante na peça nesta montagem que estará em cartaz no Teatro Café Pequeno, o ator proporcionou uma nova experiência à protagonista. Embora seja a mesma peça que já tenha tido diferentes temporadas, Helena Varvaki ressaltou que as experiências nunca são as mesmas. “O que mais me fascina no trabalho de um ator é a existência de uma troca em cena. E isso é muito interessante porque a Juliana desta temporada possui novas questões e trejeitos em uma peça que eu já faço há algum tempo. O Sávio me trouxe esse novo olhar”, contou a atriz que também falou da importância do teatro como um local de encontro da sociedade moderna. “Hoje em dia, em tempos digitais, muita gente vive só o mundo online e se esquece dos prazeres reais. Só que no teatro não pode ser assim, nós precisamos que haja essa troca física e emocional entre a plateia e o palco. Nós estamos precisando desses encontros e desse calor no nosso cotidiano”, completou.

Além de ser endereço de encontros contemporâneos, o teatro também se posiciona como uma resistência de artistas que querem continuar promovendo arte e cultura em nosso país. Pela terceira vez, Helena Varvaki e seus companheiros do espetáculo “A Outra Casa” estreiam a peça no Rio de Janeiro sem qualquer tipo de patrocínio ou incentivo. “Nós não tivemos nenhum tipo de investimento para essa peça. Mesmo assim, decidimos que queríamos trazer esse texto para o palco agora e nos juntamos para conseguir por a peça em cartaz. Eu acredito que as políticas de incentivo e de patrocínio são muito importantes e que precisam continuar existindo sempre. Mas não será a falta de edital para elas, por exemplo, que vai frear a nossa produção cultural”, disse.

“A Outra Coisa” reestreia nesta sexta-feira, 3, no Rio (Foto: Ana Paula Abreu)

Para o sucesso de mais uma temporada no Rio de Janeiro, Helena Varvaki acredita no conjunto de fatores que a peça traz para o palco do Teatro Café Pequeno. Entre esses elementos, estão as sete indicações a prêmios culturais que envolvem o espetáculo. Dona de quatro dessas chances de troféus, a atriz acredita que este não seja o fator principal para atrair o espectador à sala de teatro. “Os prêmios e indicações são um conforto, um amparo e uma legitimação pelo trabalho que fazemos. É importante que haja esse tipo de reconhecimento. No entanto, eu acredito que esta seja só mais uma informação entre tantas outras. No teatro, eu acredito que exista uma questão muito mais forte e de sucesso: o boca a boca. Hoje em dia, esta pratica ainda é a maior garantia de público em uma peça”, apontou Helena Varvaki.

Serviço:

Horário: De sexta-feira a domingo, às 20h
Temporada: De 3 de março a 2 de abril de 2017
Teatro: Teatro Municipal Café Pequeno
Endereço: Av. Ataulfo de Paiva, 269, Leblon – tel: 2294-4480
Bilheteria: de terça a domingo, das 16h às 20h
Preço: R$ 40,00 (inteira) / R$20,00 (meia)
Classificação indicativa: 16 anos

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