Odete Roitman e Aldeíde: faces femininas que, no remake de ‘Vale Tudo’, enfrentam machismo e feridas do preconceito


As personagens, cada uma em seu universo, têm em comum o poder de revelar como preconceitos de gênero e idade ainda atravessam as mulheres em diferentes contextos. A trama coloca em pauta temas como autonomia, poder feminino e os desafios que persistem em 2025. Mas como afirmou Débora Bloch, aos 62 anos, a liberdade de existir, como se quer, só se potencializa com o passar dos anos: “A maturidade é uma bênção porque nos dá a possibilidade de assumir quem somos, sem precisar nos encaixar em moldes alheios”. Ou como disse Odete Roitman, sua personagem, em capítulo recente da trama: “A sociedade ainda não está preparada para mulheres que comandam o mundo. Mas o patriarcado vai ter que se acostumar”

*Por Brunna Condini

O remake de ‘Vale Tudo’, exibido no horário nobre da Globo, reacende não apenas a memória de um dos maiores clássicos da teledramaturgia brasileira, mas também o debate sobre a representação das mulheres em contextos sociais e históricos distintos. De um lado, Aldeíde (Karine Teles) se apresenta como a mulher popular e trabalhadora, agora rica, desde que ficou viúva, que encara o preconceito com algum humor, força e dignidade. Do outro, Odete Roitman (Débora Bloch) surge como a empresária implacável, cuja frieza e poder escancaram as tensões de gênero em um mundo corporativo ainda dominado por homens.

Em cena que foi ao ar quarta-feira, Odete Roitman mostrou habilidade em inverter narrativas e ofuscar os escândalos que a cercam. Durante a coletiva de imprensa da sua empresa na trama, cercada por profissionais mulheres, a empresária lançou mão de um discurso com tom feminista, exaltando os feitos da companhia e provocando diretamente o machismo estrutural. “Hoje a TCA opera em 80 países e representa o país como líder em transição energética”. E completou: “A sociedade ainda não está preparada para mulheres que comandam o mundo. Mas o patriarcado vai ter que se acostumar”.

Odete Roitman, vivida por Débora Bloch em 'Vale Tudo', desafia padrões e provoca incômodo em um mundo ainda machista (Foto: Divulgação/Globo)

Odete Roitman, vivida por Débora Bloch em ‘Vale Tudo’, desafia padrões e provoca incômodo em um mundo ainda machista (Foto: Divulgação/Globo)

Ainda que se questione o tipo de feminismo de Odete, mais voltado às mulheres da sua própria ‘bolha’, o fato é, que a novela coloca lado a lado duas personagens de universos opostos, Aldeíde e Odete, que não passam incólumes pelo preconceito de gênero e de idade.

Carismática, Aldeíde sempre teve a simpatia dos vizinhos, mas enfrenta resistência por seu relacionamento com André (Breno Ferreira), um homem bem mais jovem. A diferença de cerca de 20 anos entre os dois desperta julgamentos da sociedade, e sobretudo, da família dele. A mãe, Consuelo (Belize Pombal), chega a tentar impedir a relação. As reações negativas ao romance levantam discussões sobre autonomia, escolhas pessoais e o estigma que ainda recai sobre mulheres mais velhas em relacionamentos com homens mais jovens.

Breno Ferreira e Karine Teles vivem André e Aldeíde no remake de 'Vale Tudo' (Foto: Divulgação/Globo)

Breno Ferreira e Karine Teles vivem André e Aldeíde no remake de ‘Vale Tudo’ (Foto: Divulgação/Globo)

Já Odete, mesmo no papel de vilã, expõe outro lado da questão. Rica e poderosa, também é alvo de críticas por se envolver com parceiros mais jovens, revelando a hipocrisia social que relativiza preconceitos conforme a origem de classe, mas nunca deixa de perseguir a mulher. Sua posição de poder não a blinda do julgamento moral, apenas o transforma em combustível para reforçar o incômodo que causa: uma mulher madura que se recusa a se enquadrar, vive com liberdade seus desejos e ocupa espaços com a segurança de quem sabe o que quer.

O Brasil de hoje no espelho de Aldeíde e Odete

Aldeíde e Odete, apesar de viverem em mundos distintos, refletem dilemas ainda presentes no Brasil de 2025. Aldeíde expõe, na ficção, o mesmo julgamento moral que recai sobre tantas brasileiras que ousam viver amores fora do padrão, seja pela diferença de idade, de classe ou simplesmente por colocarem seus quereres acima das convenções sociais.

Odete, por sua vez, representa o incômodo diante da mulher poderosa. Mesmo rica e influente, não escapa da vigilância moral quando decide se relacionar com homens mais jovens. É um reflexo de um país em que o avanço feminino em cargos de liderança ainda convive com discursos que questionam sua autoridade ou tentam reduzir sua autonomia à vida íntima. A personagem encontra equivalentes contemporâneas em executivas, políticas e líderes que seguem precisando provar constantemente sua competência em ambientes onde o ‘teto de vidro’ ainda não foi rompido.

Deborah Bloch, a Odete: "A maturidade é uma bênção porque nos dá a possibilidade de assumir quem somos, sem precisar se encaixar em moldes alheios" (Foto: Divulgação/Globo)

Deborah Bloch, a Odete: “A maturidade é uma bênção porque nos dá a possibilidade de assumir quem somos, sem precisar se encaixar em moldes alheios” (Foto: Divulgação/Globo)

Nesse contexto, uma fala recente de Débora Bloch dá peso extra ao debate. Aos 62 anos, a atriz afirmou: “A mulher de 60 não quer ser a nova mulher de 40. Ela quer ser a nova mulher de 60.” E em outra declaração, destacou: “Aos 60, estou mais livre. A maturidade é uma bênção porque nos dá a possibilidade de assumir quem somos, sem precisar nos encaixar em moldes alheios”. Ou seja: não é apenas a personagem que desafia estruturas, mas também a própria presença da atriz que ajuda a romper o etarismo ainda tão presente e a dar visibilidade à potência das mulheres maduras. O remake, ao trazer essas duas figuras para o centro da narrativa, dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre etarismo, autonomia feminina, desigualdade de gênero e a persistência dos padrões patriarcais. O cenário muda; a urgência da discussão, não.

A persistência do machismo estrutural

O remake revela como, mais de três décadas depois da primeira versão, o discurso machista permanece vivo, ora disfarçado de piada, ora legitimado nas redes sociais sob o pretexto de ‘opinião’. O Brasil que assiste à nova ‘Vale Tudo’ é o mesmo em que movimentos feministas continuam a pautar igualdade salarial, representatividade política e o direito de existir em liberdade. Nesse contexto, Aldeíde e Odete não são apenas personagens: são metáforas. Se Aldeíde representa a mulher na faixa dos 40, independente, mas ainda vulnerável ao preconceito etário, Odete soma a isso, a exposição do desconforto que causa ver uma mulher no topo, sobretudo quando ela tem mais de 60 anos e se recusa a ser silenciada.

Karine Teles dá vida a Aldeíde em Vale Tudo, personagem que enfrenta preconceitos com ousadia e liberdade (Foto: Divulgação/Globo)

Karine Teles dá vida a Aldeíde em Vale Tudo, personagem que enfrenta preconceitos com ousadia e liberdade (Foto: Divulgação/Globo)

Para além da nostalgia

O remake vai muito além da memória afetiva. Atualiza o espelho da sociedade e mostra que, seja no subúrbio ou na alta cúpula empresarial, o desafio de ser mulher em um país ainda regido por padrões patriarcais continua, salvo as devidas proporções e realidades. ‘Vale Tudo’ volta à tela para lembrar que a luta feminina é transversal, permanente, e mesmo em 2025, tão urgente quanto em 1988.