Teatro & Pensata

O primeiro solo da atriz Rafaela Azevedo se debruça no fracasso e propõe ótica sob a arte de ser uma mulher palhaça

Depois de Bologna, Berlim e Lisboa, o espetáculo "Fran World Tour - Eu só preciso ser amada", volta ao Brasil com três apresentações já confirmadas

Publicado em 01/07/2019 | Por Heloisa Tolipan

Imagens do espetáculo Fran World Tour, de Rafaela Azevedo (Foto: Igor Keller)

*Por Erica Magni

Foi durante um ensaio aberto, antes da estreia, que a atriz italiana Lina Della Rocca, fundadora do Teatro Ridotto em Bologna, assistiu ao espetáculo solo da atriz Rafaela Azevedo: ‘Fran World Tour – Eu só preciso ser amada’. Naquele mesmo dia, Lina fez um convite para uma viagem inesquecível: Fran, a palhaça, teria de se apresentar para uma plateia de italianos em poucos meses. Sem falar a língua, Rafaela estava de frente com o maior desafio até então. As palavras precisariam dar lugar aos gestos e estes gestos precisariam transcender o regionalismo, visto que o humor é basicamente feito com referências locais. Caberia à atriz conseguir êxito ao elevar a expressão do seu trabalho sem poder usar basicamente um texto decorado em português. E ela não falhou. Agora sente que está no caminho certo.

“O riso é a menor distância entre duas pessoas. A fragilidade de não falar a língua fez com que este pequeno “fracasso” se tornasse o ponto principal para Fran ser acolhida pelo público. A atriz se esforçava tanto e dava tudo de si numa situação que já era inevitável não compactuar o riso. Foi impossível não ser tocado por aquele ser sem filtro numa aventura que estava fora de controle”, conta Rafaela que pensou até em desistir, minutos antes, nos bastidores, natural, dado o tamanho do desafio de representar a arte de interpretar uma palhaça na Itália, o berço mundial da palhaçaria, inclusive a palavra palhaço tem origem do italiano “paglia“.

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Rafaela conta que foram os fracassos da sua vida pessoal que deram corpo para a dramaturgia do espetáculo, e junto com a diretora Natascha Falcão, desenvolveram este solo constantemente atualizado e improvisado, baseando-se sempre nas vivências cotidianas da atriz. O projeto tem sido a grande porta de entrada da atriz para um mundo absurdo, cheio de delírios oníricos, exageros e sensualidade. Sim, o espetáculo não é recomendado para crianças, visto que Fran é uma palhaça de 27 anos que sonha em ser amada por todos e dentro desse universo intenso ela vai atravessando questões como sexualidade, medos, ansiedade, e outros dramas.

“Parei de fazer terapia depois que comecei a fazer a Fran. Com ela, eu posso transgredir meu fracasso diário e adentrar questões que antes estavam sob uma ótica obscura. Esse desejo que eu sempre tive de agradar para ser querida, me levava, às vezes, a ter atitudes que eu nem queria, só para se aceita. É um trabalho muito rico de autoconhecimento, tudo que se mostra conflituoso ou problemático. Trago para a dramaturgia e juntas (eu e Fran), vamos configurando uma lente de aumento para o drama que logo terá proposta para depois virar riso”, diverte-se a atriz, que está inclusive recusando outros trabalhos para se dedicar inteiramente à vida de palhaça.

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A estética do espetáculo está ligada à pesquisa desenvolvida por Rafaela nos últimos cinco anos que celebra a liberdade criativa da mulher e o corpo cômico da palhaça. Esta arte que começou no Brasil, já nos anos 80, pois até então só homens se apresentavam como palhaços, e mulheres se vestiam de homens para fazer o trabalho, está sendo cada dia mais estudada pela nova geração de artistas.

Além da linguagem da palhaçaria e toda a liberdade que esta compreende, o solo proposto pela atriz utiliza ainda elementos de dança, comédia física, música e do burlesco, que aparece no espetáculo para dar vazão ao sonho da palhaça Fran de tornar-se um ícone mundial, fazendo rir sem perder o rebolado, nem a exuberância dos brilhos, das plumas e paetês. “A Fran quer sempre o melhor. Se fosse por ela, todas as apresentações seriam em teatros famosos. No Rio, ela sonha em se apresentar no Theatro Municipal, e alguns sonhos megalomaníacos hilários. Vamos ver como ela vai se sair com o desafio de se apresentar em lugares menores e tendo ela mesma que produzir suas próprias aparições”, ressalta Natasha Falcão, que faz a direção e o figurino do espetáculo e também esteve acompanhando a turnê europeia que passou por Bologna, Berlim e Lisboa.

Fran World Tour – Eu só preciso ser amada‘ é o espetáculo solo da palhaça Fran, Rafaela Azevedo, com direção e figurino de Natasha Falcão. Teve sua temporada de estreia em novembro e dezembro de 2018, no Teatro Candido Mendes, em Ipanema. Logo após percorreu, no Rio de Janeiro, pelos bairros de Madureira, Vila da Penha, Lapa, Santa Teresa e foi também a São Gonçalo, para em seguida embarcar para sua primeiro turnê internacional, em que passou pela Itália, Alemanha e Portugal. O espetáculo está de volta ao Brasil com data marcada na Ocupação Nariz Vermelho, em Saquarema, dia 6, e na Mostra de Solos, Sesc Londrina, dia 13, e no espaço MOVA, no Rio de Janeiro, dia 27.

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