Teatro & Pensata

O espetáculo Pessoas Brutas passa pelo Rio e coloca em evidência a realidade de dependentes químicos na cidade de São Paulo

A peça faz parte da trilogia Pessoas da companhia teatral Satyros, A ideia por trás destas narrativas é mostrar a solidão, o ego, a falta de compaixão e muitas outras características que fazem parte da sociedade metropolitana

Publicado em 02/10/2017 | Por Ana Clara Xavier

A peça Pessoas Brutas estreia hoje em Copacabana (Foto: ANDRE STEFANO)

A capital paulistana é a maior metrópole do Brasil. Como toda cidade grande, o ir e vir de pessoas é constante, homens preocupados com o tempo, mulheres apressadas para resolver pendências do trabalho e várias outras situações que obrigam a população a viver concentrada em seus afazeres. A individualidade e falta de compaixão são um dos muitos assuntos abordados na premiada trilogia da companhia teatral Os Satyros. Nas peças Pessoas Perfeitas, Pessoas Sublimes e Pessoas Brutas, os holofotes se viram para pessoas comuns. Apesar de se passar em São Paulo, a ideia é que o público de qualquer outro lugar do mundo se veja identificado no palco. “Acho que os dilemas humanos são iguais em qualquer parte do mundo. Embora o nosso objeto de pesquisa tenha sido São Paulo, por morarmos aqui, todos possuem as mesmas questões para resolver. Nos sentimos sozinhos, queremos poder nos apoiar em alguém. Isto acaba nos aproximando das pessoas”, explicou o dramaturgo, ator e fundador da companhia, Ivam Cabral. Além de ter escrito o roteiro, em conjunto com seu sócio Rodolfo Vázquez, ele também atua nesta produção.

Ivam Cabral é o ator que está no primeiro plano (Foto: ANDRE STEFANO)

O ponto de partida para a criação destes espetáculos foi compreender o que os paulistas faziam, pensavam e como viviam na capital. Os sócios Ivam e Rodolfo entrevistaram muita gente de locais distintos e conseguiram depoimentos tão ricos que resolveram transformar estas histórias em três espetáculos. “Esse material de pesquisa foi para a peça Hipóteses Para o Amor e a Verdade que fizemos em 2009. O espetáculo acabou virando um longa-metragem, foi a nossa primeira produção no cinema. Estávamos muito empolgados pela estreia e repercussão do filme, que conseguiu ter uma carreira muito bacana pelo mundo, e resolvemos fazer um roteiro de outra montagem que se chamou Pessoas Perfeitas. Recontamos, para isso, algumas das histórias que tínhamos apurado e fizemos o roteiro. O longa deve ser rodado no ano que vem, mas como sabíamos que arrecadar fundos para um filme é muito mais complicado resolvemos transformar aquele script em teatro, em 2014”, contou Ivam.

Pessoas Brutas conta a história de dependentes químicos (Foto: ANDRE STEFANO)

Cada trama traz conflitos pessoais específicos que precisam ser colocados em pauta. O Pessoas Perfeitas, por exemplo, tem como pano de fundo a família. Já no Pessoas Sublimes, a morte é a grande protagonista da história contrastando com Pessoas Brutas onde a narrativa gira em torno da dependência química. Como a trilogia já havia sido pensada antes mesmo de sua execução, Ivam acredita que conseguiu englobar todas as questões que existem em uma grande cidade, por isso, garante que não haverá uma quarta produção com este tema. No entanto, existem algumas características teatrais que ele pretende manter na Cia Satyros a partir de agora. “Acho que este tema se esgota com a trilogia, mas o processo foi tão bacana que a linguagem vai continuar na nossa linha de produção daqui para frente. O desenvolvimento da dramaturgia deve continuar, ou seja, é um roteiro em caracol onde na primeira cena mostro um personagem na seguinte, outro e depois vou juntando esses núcleos em outras cenas. Histórias que pareciam ser muito diferentes acabam se completando”, explicou o dramaturgo. Ao longo de toda a trilogia, houve este encontro dos núcleos de dramaturgia. “Em Pessoas Perfeitas acontece depois da morte de dois irmãos, em Pessoas Sublimes a partir de um condomínio e em Pessoas Brutas através de um grupo de auto-ajuda”, relembrou.

Ao expor temas tão delicados, Ivam Cabral não negou o fato de existir diversas mensagens por trás da peça. No entanto, garantiu que não houve a intenção de levantar bandeiras. A ideia é apenas expor situações que todos passamos na nossa rotina. “Quando se concebe uma ideia é óbvio que existe alguma causa que queremos endereçar aquela crítica. Damos muitos recados nesta construção como da alteridade, do ego, da falta de compaixão, de problemas imaginários criados pelos próprios indivíduos e outros temas que achamos interessantes abordar. Estamos falando do homem contemporâneo, das suas solidões e falta de amor que parecem fazer com que ele não caiba neste mundo”, exemplificou.

A trilogia não tem uma ordem cronológica (Foto: ANDRE STEFANO)

Na semana passada, Pessoas Brutas foi exibida pela primeira vez no Rio de Janeiro. Apesar de fazer parte de uma cronologia, as peças são totalmente independentes. No entanto, ao longo do mês de setembro foram exibidas as duas primeiras montagens para que o público carioca se familiarizasse com o tema. “A primeira peça foi lançada em 2014, a segunda em 2016 e a terceira em 2017. Nos pareceu lógico juntar todas estas esferas para que o público pudesse rever de perto. Mas isto não significa que elas tenha ficado paradas depois de seus lançamentos, fizemos com Pessoas Perfeitas mais de trezentas apresentações, por exemplo. Fomos para fora do Brasil e nos apresentamos em Cuba”, explicou Ivam.

A montagem do primeiro espetáculo, Pessoas Perfeitas, recebeu inúmeros troféus. Segundo Ivam Cabral, todos os circuitos teatrais por onde a peça passou acabou acumulando títulos. O espetáculo ganhou como Melhor Espetáculo pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), venceu o prêmio Shell de melhor texto e recebeu o troféu Aplauso Brasil para melhor dramaturgia. Apesar do prestigio que a companhia recebe nestas premiações, o dramaturgo não deixou de destacar a importância de auxilio governamental para as companhias teatrais. “O prêmio nos coloca em um pedestal de uma história e de um movimento e a falta de incentivo nos coloca à deriva, longe da possibilidade de poder produzir. É muito contraditório. Enxergo estas duas coisas de forma bastante separada até mesmo porque elas vêm de lugares diferentes. Estas premiações vieram de críticos e pessoas que amam o teatro. A ajuda fiscal é do governo e sentimos cada vez mais que o poder público está fracassando em todos os níveis, embora que em São Paulo temos um quadro muito diferente de todo o Brasil. Aqui ainda temos uma lei de fomento, a qual nós ganhamos a última edição, portanto ainda conseguimos respirar. Mas o resto do país não é assim e sabemos que o teatro está sendo degolado”, lamentou.

A temporada encerrou neste domingo (Foto: ANDRE STEFANO)

 

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