No monólogo ‘Visitando Camille Claudel’, Adriana Rabelo propõe uma reflexão da vida da escultora do século 19 e o hoje


Para a atriz, “a história de Camille la é também um alerta. Seu maior legado não é apenas sua obra, mas sua trajetória como espelho de um sistema que ainda oprime mulheres de diversas formas. A luta não é só por espaço no mercado de trabalho, é também pelo direito de não se perder no outro. Por isso, revisitar Camille hoje é mais do que contar sua biografia. É levantar um espelho e perguntar: ainda estamos esperando um Rodin? E, se estamos, qual o preço dessa espera?” O espetáculo estreia dia 4, no Teatro Laura Alvim

No monólogo 'Visitando Camille Claudel', Adriana Rabelo propõe uma reflexão da vida da escultora do século 19 e o hoje

“Trazer a peça ‘Visitando Camille Claudel‘ de volta aos palcos depois de 20 anos da primeira montagem é reafirmar sua relevância. Embora a história da escultora Camille Claudel (1864-1943) tenha se passado no final do século 19 e início do 20, os temas que atravessam o tempo seguem urgentes: equidade de gênero, saúde mental e os desafios da mulher para se firmar no mercado de trabalho”. A análise é a atriz Adriana Rabelo que volta a encenar um drama que conta a história da escultora francesa. No palco do Teatro Laura Alvim, no Rio, a atriz proporcionará ao público uma reflexão do hoje e do ontem. A internação da artista plástica por 30 anos em hospitais psiquiátricos e asilo, mesmo sem diagnóstico psiquiátrico claro, não foi apenas um destino cruel, mas um reflexo desse sistema que prefere calar as mulheres a permitir que ocupem o espaço que merecem”, frisa Adriana Rabelo.

Camille não é apenas uma personagem histórica, é um espelho de muitas mulheres que ainda lutam por reconhecimento e espaço. Hoje, em 2025, com mais maturidade tenho um olhar mais consciente dessa mulher que foi vítima de uma sociedade machista porque ousou questionar os padrões impostos na época e foi punida com o isolamento e o esquecimento – Adriana Rabelo

“Visitando Camille Claudel” é uma dessas histórias que preciso contar, porque, no fim, não estamos falando apenas de Camille, estamos falando de todas as mulheres que ainda lutam para serem ouvidas, reconhecidas e livres (Foto: Humberto Ribeiro)

“Visitando Camille Claudel” é uma dessas histórias que preciso contar, porque, no fim, não estamos falando apenas de Camille, mas de todas as mulheres que ainda lutam para serem reconhecidas (Foto: Humberto Ribeiro)

Para a atriz, o espetáculo “Visitando Camille Claudel” mostra como esse machismo estrutural, que destruiu a vida de Camille naquela época, ainda ecoa nas dificuldades que as mulheres enfrentam hoje para serem respeitadas e reconhecidas em suas carreiras e escolhas. É falar sobre as barreiras que as mulheres enfrentam para exercer sua liberdade, é falar sobre saúde mental e como a dor pode se transformar em criatividade e arte. É um lembrete de que, mesmo hoje, as vozes femininas ainda precisam lutar para não serem silenciadas.

Desde a última apresentação em 2019, muita coisa mudou. A peça ainda tinha caminhos a percorrer, e eu também. Me dediquei ao audiovisual e mergulhei em um intenso processo de autoconhecimento. Agora, ao retornar, não apenas revisito Camille com um novo olhar, mas também celebro a artista e a mulher que estou me tornando – Adriana Rabelo

E como Adriana se preparou para dar vida a uma personagem tão profunda, que mexe com várias questões ainda tão difíceis? “Nossa Camille foi construída a partir de uma imersão profunda na trajetória da escultora: fiz aulas de escultura, desenho, fui modelo vivo para escultores, manipulação de bonecos e realizei uma pesquisa em uma casa de saúde mental, onde conheci uma mulher que me lembrou Camille. Sua presença e gestos me inspiraram na composição da personagem”, revela.

"A expectativa que Camille depositou em Rodin é a mesma que tantas mulheres ainda depositam em seus relacionamentos hoje" (Foto: Zeca Amorim)

“A expectativa que Camille depositou em Rodin é a mesma que tantas mulheres ainda depositam em seus relacionamentos hoje” (Foto: Zeca Amorim)

Em Paris, Adriana visitou os espaços por onde Camille passou. “Foram três dias no Museu Rodin, tentando imaginar Camille ali, observando de perto suas esculturas e as de Rodin. Conheci a escritora Anne Delbée, uma das maiores estudiosas da artista, e, ao compartilhar minha pesquisa com ela, ela me disse: “Chega de pesquisar, crie sua própria Camille.” A partir disso, junto com o diretor Ramon Botelho, trouxemos à vida a nossa Camille – uma fusão entre a mulher histórica e a força atemporal de sua arte e resistência”.

Em sua trajetória profissional, Adriana viveu mulheres com características muito diferentes entre si. E enxerga nelas um pouquinho de Camille? “Sim. Camille é, de certa forma, um arquétipo da mulher que desafia as estruturas. Vejo traços dela na rainha de “Reis”, que também enfrentava um mundo que tentava ditar seu destino. Vejo um pouco de sua coragem na personagem Mitó do filme “O Grande Kilapy” com direção do angolano Zezé Gamboa. Nessas personagens existe essa luta por espaço, por reconhecimento, por liberdade”.

"A história dela é um alerta. Seu maior legado não é apenas sua obra, mas sua trajetória como espelho de um sistema que ainda oprime" (Foto: Humberto Ribeiro)

“A história dela é um alerta. Seu maior legado não é apenas sua obra, mas sua trajetória como espelho de um sistema que ainda oprime” (Foto: Zeca Amorim)

Falar de saúde mental ainda é tabu para muita gente, mas em contrapartida, a quantidade de pessoas com problemas de ansiedade, depressão, síndrome do pânico tem aumentado muito. Adriana comenta que faz terapia há cinco anos, “um processo que tem sido essencial para entender meus padrões emocionais, meus traumas, minhas inseguranças e como lidar com elas. Também pratico ioga e meditação, que me ajudam a manter o equilíbrio entre corpo e mente. Busco fazer coisas que gosto como aulas de pandeiro, sair com as amigas, tomar banho de cachoeira, praticar o auto amor e a generosidade comigo mesma, além de buscar sempre algo novo para aprender. O que mais me ajuda, no entanto, é a arte. Atuar, criar, contar histórias é o que me mantém viva”, destaca.

‘Visitando Camille Claudel’ é uma dessas histórias que preciso contar, porque, no fim, não estamos falando apenas de Camille, estamos falando de todas as mulheres que ainda lutam para serem ouvidas, reconhecidas e livres. O maior legado de Camille, com certeza, foi a sua história de luta contra um sistema que não permitia que mulheres fossem protagonistas de suas próprias vidas. Sua trajetória escancara como o machismo estrutural não apenas limitava o reconhecimento feminino na arte, mas também impunha um modelo de dependência emocional e social que atravessa séculos e ainda ressoa nos dias de hoje -Adriana Rabelo

Camille viveu em um mundo onde as mulheres eram definidas em função dos homens. “Seu talento como escultora desafiava essa lógica, mas seu destino trágico nos revela algo muito maior do que apenas a resistência de uma artista contra uma sociedade machista. A vida de Camille nos permite olhar para a forma como o machismo estrutural impacta nossas relações amorosas e, em muitos casos, se transforma em violência até hoje”, pontua a atriz.

Acrescenta ainda que “nos contos de fadas e na narrativa social perpetuada por séculos, a mulher deve buscar seu “príncipe”, aquele que a salvará da solidão. O homem como centro, a mulher como satélite. Camille, em algum lugar profundo, esperava que Rodin fosse esse herói, não apenas um mestre que a legitimaria artisticamente, mas um homem que poderia dar a ela o que sempre lhe foi negado: reconhecimento, amor e proteção”.

Seu maior trauma vinha da mãe, que nunca a aceitou, que a desaprovava constantemente. O pai, apesar de apoiá-la, também via seu comportamento como inadequado para uma mulher. O irmão, Paul, se tornou um escritor respeitado e se distanciou. Em meio a tantas recusas e solidões, Rodin se tornou o único olhar que parecia validar sua existência. Ela trabalhou por anos ao lado dele, 12 horas por dia, fazendo ajustes em suas esculturas, aperfeiçoando sua técnica, e, durante a noite, ainda encontrava forças para criar suas próprias obras. Sempre na promessa de que, em algum momento, ele iria ajudá-la.

"Sua mãe, que nunca aceitou sua independência, teve um papel fundamental na decisão de interná-la em um hospital psiquiátrico" (Foto: Humberto Ribeiro)

“Sua mãe, que nunca aceitou sua independência, teve um papel fundamental na decisão de interná-la em um hospital psiquiátrico” (Foto: Humberto Ribeiro)

Mas até que ponto essa promessa era real? Até que ponto ela dependia da ação dele ou de uma construção que Camille mesma internalizou? “Claro, Rodin poderia ter feito mais por ela. Mas um homem do século 19 permitiria que uma mulher brilhante ao seu lado crescesse mais do que ele? Há algo de inveja nisso? De ego masculino ferido? Se uma mulher independente e talentosa demais já assusta no século 21, imagine naquela época. Rodin a queria por perto, mas não o suficiente para que brilhasse mais do que ele. A relação entre eles era carregada de paixão, mas também de poder. E Camille, como tantas mulheres, se colocou em posição de espera, e essa espera não é inofensiva”.

Quantas de nós ainda colocamos o homem no centro da nossa vida? Quantas mulheres deixaram suas carreiras, seus talentos, suas amizades para priorizar um homem? Quantas já cancelaram um compromisso com amigas porque surgiu a “oportunidade” de estar com aquele que poderia ser o futuro parceiro? Quantas, assim como Camille, acreditaram que o amor justificava tudo? – Adriana Rabelo

Segundo Adriana Rabelo, “o machismo estrutural não apenas coloca as mulheres nessa posição de espera e anulação. Ele também alimenta relações abusivas, onde o poder está sempre desequilibrado. A história de Camille não foi só uma história de invisibilização, mas também de destruição. Quando ela se recusou a continuar no papel de satélite e começou a reivindicar sua própria luz, veio a retaliação. Sua família, ao invés de apoiá-la, a considerou “louca”. Rodin e o meio artístico não lhe deram suporte. Sua mãe, que nunca aceitou sua independência, teve um papel fundamental na decisão de interná-la em um hospital psiquiátrico, onde passou os últimos 30 anos da sua vida. Sem diagnósticos claros, sem defesa. Uma mulher brilhante, engolida pelo sistema”.

Quantas vezes adiamos falar sobre um assunto importante porque tememos ser inconvenientes ou “mulher chata” cobrando alguma coisa? Quantas vezes nos moldamos ao desejo do outro, esquecendo o nosso? Quantas vezes colocamos nossa própria vida em pausa para girar em torno de um homem? – Adriana Rabelo

O machismo estrutural nos ensinou que a mulher precisa ser escolhida, que a validação vem do outro. Camille queria ser escolhida por Rodin, não apenas como artista, mas como mulher. E, quando percebeu que nunca seria escolhida, sua estrutura interna desmoronou. Mas e se, ao invés de esperar ser escolhidas, aprendêssemos a nos escolher?