*Por Brunna Condini
Jonas Bloch celebra 60 anos de carreira com a energia de quem nunca se deixou aprisionar pelo tempo ou pela rotina. Aos 86 anos, o ator, pintor e escultor estreia o espetáculo ‘Delírio’, um mergulho na poesia “sofisticada e ao mesmo tempo popular” de Manoel de Barros ((1916-2014). Concebida, dirigida e interpretada por ele, a peça passeia por humor, lirismo, política e natureza, em uma cenografia assinada pelo próprio Bloch e inspirada no universo de Arthur Bispo do Rosário (1911-1989). “À medida que fui lendo Manoel, fui descobrindo um universo totalmente novo, sensível e cheio de humor. Quando você menos espera, está tomado”, diz o ator. Para além da celebração, ‘Delírio’ reafirma a inquietude de um artista que transita entre teatro, cinema e artes visuais. Como ele mesmo define: “Não me sinto trabalhando, me sinto exercendo o caminho que me foi dado. E quando não tenho espaço, crio. É assim que me mantenho vivo”.
Nesta entrevista exclusiva, Jonas também fala sobre os dilemas e prazeres de uma vida inteira dedicada à arte. Entre reflexões sobre o etarismo na televisão, o ator compartilha ainda bastidores de personagens marcantes, como o vilão Ismael de ‘A Viagem’, que voltou a ser reprisada na TV Globo. Ele é generoso ao revisitar memórias e experiências, comenta sua produção como pintor e escultor, intensificada durante a pandemia; e com emoção particular, dedica parte da conversa ao orgulho de ver a filha, Débora Bloch, brilhar em um dos papéis mais desafiadores de sua carreira: Odete Roitman, no remake ‘Vale Tudo’. “Vou precisar de um babador de presente depois de falar dela”, avisa, bem-humorado.

Aos 86 anos, Jonas Bloch celebra 60 anos de carreira e volta aos palcos com o espetáculo Delírio, inspirado em Manoel de Barros (Foto: Flavia Canavarro)
Pai da Odete (Débora)
“Não há quem não me fale sobre a Odete”, diz Jonas, entre risos e orgulho. “É um impacto muito forte o trabalho da Débora. Ela está deslumbrante, extraordinária. Acho que é o máximo de plenitude em sua carreira. É uma atriz excepcional”. A admiração também é atravessada por lembranças afetivas. Jonas recorda que a filha cresceu nos bastidores de suas peças e chegou a conhecer Beatriz Segall (1926-2018) ainda menina, quando ele contracenou com a atriz. “Olha como a vida costura histórias… anos depois, Débora acabou sendo neta da Beatriz em uma novela. Essas coincidências são mágicas”, comenta, falando sobre a atriz que deu vida à icônica personagem na primeira versão de ‘Vale Tudo’, em 1988.
Mais do que acompanhar de perto, Jonas reconhece a maturidade e a inteligência com que Débora construiu sua versão de Odete Roitman. “Ela conseguiu dar à personagem não só crueldade e desumanidade, mas também um olhar crítico, um humor que atravessa tudo. O público fica fascinado, e ao mesmo tempo, entende a crítica por trás da personagem. Isso é raríssimo”, avalia.

Débora e Jonas Bloch: parentalidade, talento e ofício em comum. “Ela é uma atri extraordinária”, diz o ator (Foto: Divulgação/Globo)
Com cumplicidade, o ator brinca com a ideia de que seu célebre vilão Ismael, de ‘A Viagem’, poderia ser o pai perfeito da nova Odete. “Muita gente fala isso. E até que combinaria mesmo. São dois vilões que marcam porque dizem o impensável, aquilo que muita gente não tem coragem”. Entre memórias e reflexões, Jonas deixa claro, que após seis décadas de carreira, continua se movendo pela mesma inquietação que o levou ao palco ainda jovem:
O que me mantém vivo é a criação. É isso que faz a vida valer a pena – Jonas Bloch
Antagonistas memoráveis
Jonas reflete também sobre a própria trajetória na televisão e os papéis que marcaram sua carreira. No ar novamente como o temido Ismael em ‘A Viagem’, ele revive a reação calorosa do público diante do vilão. “É muito engraçado, porque as pessoas chegam rindo e dizem: ‘Eu tenho muita raiva de você’. Mas dizem com carinho, como quem reconhece o trabalho do ator. É um personagem que realmente marcou, tanto que esta já é a quarta vez que a novela é exibida”, lembra. Para ele, a permanência desse tipo de personagem na memória coletiva se deve a um traço fundamental: “O Ismael é um vilão com muitas camadas, não é simplesmente mau. Ele tem humor, ironia, contradições. Isso prende o público”.

Fernanda Rodrigues e Jonas Bloch em ‘A Viagem’ (Foto: Divulgação/Globo)
Com uma galeria de antagonistas memoráveis, entre eles Ramalho, de ‘Bicho do Mato’ (novela da Record de 2006), e Russo, de ‘Corpo Santo’ (trama de 1987 da TV Manchete), Jonas acredita que os vilões conquistam mais espaço no imaginário popular justamente por estarem sempre tramando, surpreendendo e mexendo com as emoções da plateia. “Eles são mais ambiciosos, cheios de artimanhas. As pessoas ficam esperando o que vão aprontar, e isso cria uma relação de expectativa muito forte com o público. O mocinho geralmente tem um caminho mais previsível, mas o vilão é imprevisível. E essa imprevisibilidade é fascinante”.
O ator se diverte ao recordar episódios curiosos ligados a esses personagens. Sobre Ramalho, por exemplo, lembra de quando estava em Portugal com uma peça e viu outdoors prometendo prêmios para quem acertasse “quem matou o Ramalho”. “Cheguei a fazer 22 cidades em Portugal nessa época. Foi uma loucura, porque o público estava vidrado na novela e a morte do personagem virou quase uma gincana nacional”, conta. “Foi quase um ‘quem matou Odete Roitman. O público se mobiliza por essas tramas”.

Paulo Gorgulho e Jonas Bloch em ‘Bicho do mato’, da Record (Reprodução/Record)
O artista observa que esse tipo de relação intensa entre público e vilão também revela algo essencial sobre a arte: a capacidade de provocar. “Quando alguém me para na rua para dizer que sente raiva de um personagem, para mim é o maior elogio. Significa que consegui tocar aquela pessoa, que ela acreditou naquela história. A arte tem esse poder de mexer com o emocional, seja pela identificação ou pelo incômodo”. E conclui:
No fundo, o vilão diz aquilo que muita gente gostaria de dizer, mas não pode. Ele encarna o proibido, o impensável. E talvez por isso marque tanto – Jonas Bloch
Etarismo no audiovisual
Na entrevista, o ator não evita tocar em um tema que considera urgente: o etarismo no audiovisual brasileiro. “É muito triste ver autores que também envelheceram continuarem escrevendo personagens mais velhos apenas como pais e avós sem grande relevância dramática. Esses papéis têm até um toque humano, mas não carregam histórias significativas. É pouco para o que poderia ser”, critica.
Ainda assim, Jonas não se coloca em posição de lamento. Pelo contrário, comemora a diversidade de convites e prêmios que recebeu nos últimos anos, incluindo o longa ‘Viva a Vida’, filmado em Israel e lançado mundialmente, que chegou a figurar entre os mais assistidos da Netflix:
Não posso reclamar, tenho tido sorte e reconhecimento. Mas acho lamentável que tantos colegas de talento fiquem à margem depois de dar tanto de si para a cultura – Jonas Bloch

Rodrigo Simas e Jonas Bloch no longa ‘Viva a Vida’, filmado em Israel e lançado mundialmente pela Netflix (Divulgação/Netflix)
Delírio
No centro de tantas reflexões, ‘Delírio’ ocupa um espaço especial na fala de Jonas. Mais do que um espetáculo comemorativo, ele enxerga a montagem como uma síntese de sua inquietação artística e também de sua busca por sentido na vida. “O Manoel de Barros nos tira do olhar econômico e nos devolve ao olhar da vida, daquilo que é essencial. Ele mostra que a simplicidade pode ser grandiosa”, explica.
A concepção do cenário, assinada por ele e inspirada em Arthur Bispo do Rosário, também carrega essa dimensão afetiva. “Fiz painéis em que colei objetos ligados ao universo do Manoel: um berrante, uma sandália, elementos religiosos. São símbolos que remetem ao Pantanal e à cultura popular. Não quis competir com Bispo do Rosário, mas prestar uma homenagem, uma referência poética”. E completa: “É um espetáculo variado, curioso, que tem humor, política, natureza, infância, memória. Tudo junto. O Manoel tinha esse dom de nos envolver com imagens, de nos puxar para dentro do seu universo sem que percebêssemos. E quando vemos, já estamos tomados. É essa viagem que eu quero oferecer ao público”.

Jonas Bloch estreia curta temporada do espetáculo “Delírio”, com textos de Manoel Barros, no Teatro Vannucci, no dia 6 de setembro (Foto: Flavia Canavarro)
Arte como força motrix
E é justamente essa inquietação que o mantém em movimento. Se não está nos palcos ou diante das câmeras, Jonas está em seu ateliê, produzindo desenhos, esculturas e aquarelas. Durante a pandemia, essa veia criativa se intensificou. “Foi uma febre de produção. Estava trancado e acabei criando muita coisa. Hoje tenho obras expostas em Ouro Preto (MG) e sigo me dedicando às artes visuais com a mesma paixão que dedico à atuação”.
Para ele, todas as vertentes artísticas se encontram em um mesmo ponto: o olhar generoso sobre o ser humano. “A arte amplia nossa compreensão da vida. Seja no teatro, na televisão ou na pintura, estamos sempre procurando expressar beleza, mesmo quando retratamos a crueldade. Isso nos dá uma visão menos materialista e mais ampla do mundo”, reflete.
Aos 86 anos, com energia e humor intactos, Jonas resume sua filosofia de vida em uma frase que ecoa como um mantra:
Eu não me sinto trabalhando. Eu me sinto vivendo – Jonas Bloch

“O Manoel de Barros nos tira do olhar econômico e nos devolve ao olhar da vida, daquilo que é essencial” (Foto: Flavia Canavarro)
Artigos relacionados
Existe uma hora certa para viver? A gravidez de Sabrina Sato reacende o debate sobre o tempo da realização dos sonhos
Dia do Orgulho LGBTQIA+ e o ano eleitoral: após a visibilidade, chegou a hora da representação nos espaços de poder
Maria Flor fala sobre maternidade, saúde mental e, nos palcos, vive a dor de uma mãe que vê o filho com depressão