*Por Brunna Condini
Aqui no site, antes de qualquer análise, somos torcedores. Entendemos mais de paixão de arquibancada do que de tática de jogo, e talvez seja esse o lugar certo para pensar o momento de Neymar. Semanas antes da estreia na atual Copa, ao comentar uma publicação da Fifa que relembrava suas três competições do tipo anteriores, Neymar escreveu apenas ‘The Last Dance’ no perfil oficial do evento no Instagram, confirmando o que muitos já suspeitavam: esta deve ser sua despedida dos Mundiais. E é também sob essa pressão que o Brasil chega a domingo (5), contra a Noruega, em um jogo que decide mais do que uma vaga nas quartas de final, ainda que esse seja o resultado mais importante.
O jogo decide também se Neymar terá mais uma chance de reescrever sua história em Copas, ou não. Aos 34 anos, com 17 de carreira profissional desde a estreia pelo Santos, em 2009, ele já passou por Barcelona, Paris Saint-Germain, Al Hilal, voltou ao futebol brasileiro e, mesmo assim, segue sendo cobrado como se nunca tivesse provado nada. É uma contradição e tanto. O jogador é um dos mais vitoriosos da sua geração, mas idolatrado e questionado com a mesma potência. Mas basta uma partida decisiva para que até quem o julga volte a torcer por sua entrada em campo. As críticas ao jogador também se estendem às suas escolhas pessoais fora do futebol. Parece mesmo uma tentação criticar alguém que, ao menos externamente, parece pouco se importar com isso. Fato é, que nenhuma opinião, favorável ou contrária, apaga o que ele construiu de trajetória no esporte.

‘The Last Dance’: Neymar pode encarar domingo contra a Noruega sabendo que pode ser sua despedida de Copas (Foto: Reprodução/Instagram)
Neymar é considerado o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira em jogos oficiais reconhecidos pela Fifa, com 79 gols; à frente da marca de 77 que era de Pelé. Levantou a taça da Copa das Confederações em 2013 e o ouro olímpico inédito do Rio, em 2016. Antes disso, foi o motor do Santos nas conquistas da Copa do Brasil, em 2010, da Libertadores, em 2011, e do tricampeonato paulista, entre 2010 e 2012, além do Prêmio Puskás da Fifa, em 2011. São números que, goste-se ou não do personagem, sustentam o seu lugar entre os maiores da história do futebol brasileiro.
Nos últimos dias, sem sequer entrar em campo, ele voltou a ser assunto após provocar nas redes sociais o economista Joachim Klement. Conhecido como o ‘guru das Copas’, o alemão havia acertado os campeões de 2014, 2018 e 2022, mas desta vez apostou que o Brasil perderia para o Japão. A previsão não se confirmou: o Brasil venceu de virada por 2 a 1, e Neymar, que ficou no banco durante a partida, foi às redes provocar o pesquisador. A publicação bombou, dividiu opiniões e lembrou por que poucos atletas brasileiros têm esse poder de polemizar com uma única postagem.

A torcida quer, mas Neymar ainda é dúvida no jogo de domingo (5) contra a Noruega (Imagem: Pixabay)
Em entrevista recente, Neymar contou que, mesmo sendo sua quarta participação em Copas, a sensação é diferente de tudo o que já viveu. “Estou aqui parecendo um menino, um jovem de 18 anos que está indo para a primeira Copa do Mundo”, disse o jogador. Não é força de expressão: ainda se recuperando de uma lesão na panturrilha sofrida em maio, ele chega a este Mundial com o corpo cobrando o preço de quase duas décadas de futebol de alto nível.
Os números ajudam a entender por que a provável despedida é importante. Desde a estreia em 2014, Neymar soma 13 jogos, 8 gols e 3 assistências em Copas do Mundo, uma das melhores campanhas individuais da história recente da Seleção. E os números não contam, por exemplo, sobre a lesão que o tirou da semifinal contra a Alemanha, em 2014, um dos capítulos mais dolorosos da sua trajetória com a camisa do Brasil.
Neymar tem protagonismo, jogadores que cresceram assistindo à sua trajetória continuam enxergando nele uma referência. Nesta semana, o atacante norueguês Antonio Nusa, um dos destaques da seleção adversária e autor de um dos gols da vitória da Noruega sobre a Costa do Marfim, afirmou que enfrentar Neymar em uma Copa do Mundo seria a realização de um sonho. A declaração ajuda a dimensionar algo que muitas vezes passa despercebido no debate doméstico: para uma geração inteira de atletas espalhados pelo mundo, Neymar já ocupa um lugar de inspiração e legado que o Brasil, por vezes, parece relutar em reconhecer plenamente.

É a quarta Copa de Neymar e provavelmente a última. Sobre isso, o jogador postou: “Obrigado meu DEUS … obrigado por me fazer viver isso mais uma vez” (Foto: Reprodução/Instagram)
Carlo Ancelotti deixou claro que vê o jogador como peça-chave nas partidas decisivas e cogita utilizá-lo mais centralizado, como articulador do ataque. Neymar não é mais o garoto dos dribles desconcertantes que encantava a torcida nos anos 2010. É o veterano cuja principal força passou a ser a leitura do jogo e a experiência acumulada em quase duas décadas de futebol. De certa forma, já não espera que ele desafie a física, mas que ofereça aquilo que o tempo não conseguiu tirar: a capacidade de enxergar o jogo de maneira diferente dos demais.
A expectativa em torno de sua participação ganhou novos capítulos nos últimos dias. Segundo informações divulgadas pela imprensa esportiva, Ancelotti também estuda utilizar Neymar como uma espécie de carta na manga para cenários de maior pressão, especialmente se o confronto contra a Noruega se transformar em um jogo travado, daqueles em que faltam espaços e sobra tensão. A ideia reforça o tamanho do simbolismo que ainda cerca o camisa 10: ele continua sendo visto como alguém capaz de oferecer aquilo que nenhum esquema tático garante, um lampejo de criatividade capaz de mudar o rumo da história. Assim seja. Tanto para ele, quanto para os demais jogadores da Seleção.

Ancelotti também estuda utilizar Neymar como uma espécie de carta na manga para cenários de maior pressão (Foto: Reprodução/Instagram)
O Brasil confirma a tal da narrativa de que Neymar ainda pode decidir quando mais importa. Se acontecer, será redenção. Mas, afinal, por que temos dificuldade de aceitar que as ‘estrelas’ sejam humanas? Esperamos finais perfeitos. É como se o torcedor brasileiro só soubesse amar seus craques em dois estados: no auge ou na cobrança. Assim são as paixões: extremas.
Além disso, Neymar é frequentemente criticado por escolhas que ultrapassam o futebol: das parcerias publicitárias às manifestações nas redes sociais, passando por seus relacionamentos e sua relação com a mídia. E, ainda assim, quando a pressão aperta, é seu nome que muitos esperam ouvir entre os escalados. Aos 34 anos, convivendo com limitações físicas, ele chega a esta Copa cercado de incertezas. Mas talvez nunca tenha ficado tão evidente o tamanho da expectativa que continua despertando. A simples possibilidade de vê-lo em campo contra a Noruega já movimenta manchetes, debates e projeções. Poucos atletas conseguem permanecer no centro da conversa por tantos anos.

O Brasil enfrenta a Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo neste domingo (5), às 17h (horário de Brasília) – (Imagem: Pixabay)
O roteiro ainda não está pronto?
As dúvidas sobre a condição física de Neymar persistem, e a própria CBF tem sido cada vez mais cautelosa ao falar sobre sua recuperação. Talvez por isso a expectativa seja tão grande. Ninguém sabe qual será o papel dele nesta última ‘dança’, nem mesmo se ela começará no próximo domingo. Mas muitos ainda esperam vê-lo seguir em frente na Copa e voltar ao lugar onde sempre se expressou melhor: dentro de campo, deixando que o futebol fale por ele.
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