*Por Brunna Condini
Aos 60 anos, 50 de carreira e três décadas de televisão, Nany People segue contrariando qualquer ideia de desaceleração. Em um dos momentos mais produtivos de sua trajetória, a atriz e humorista estreia o espetáculo inédito ‘Segunda Chance’ com texto de Bruno Motta e direção de Dan Rosseto, que chega ao Rio de Janeiro nos dias 8 e 9 de julho, no Teatro Riachuelo Rio e no Teatro Bangu Shopping, respectivamente, antes de seguir para São Paulo. A comédia acompanha Yvone, uma mulher acostumada a controlar tudo até ser obrigada pela vida a parar e rever suas escolhas. Em conversa com o site, Nany fala sobre recomeços, amadurecimento, os desafios de existir como mulher trans no Brasil, a importância da representatividade política LGBTQIAPN+, os sonhos que ainda deseja realizar e a decisão de aproveitar o tempo em vez de temê-lo. “Tempo a gente não perde, a gente aproveita”, resume.
Embora ‘Segunda Chance’ parta da história de uma mulher que precisa reaprender a lidar com a falta de controle, Nany reconhece que a reflexão dialoga diretamente com sua própria vida. Hoje, ela afirma que uma das maiores conquistas da maturidade foi aprender a não gastar energia tentando convencer quem não quer ouvir.
Aprendi uma coisa que até eu falo num outro espetáculo meu, que é ser mulher não é para qualquer um. Depois dos 50, não tentamos mais mudar a opinião de ninguém. A gente encerra ciclos. Então, às vezes, você tenta deixar claro, alertar, fazer acontecer como você acha que deveria ser. Se a pessoa não quer enxergar aquilo, não quer aceitar aquilo, não quer sequer discutir, encerramos o ciclo, levantamos da mesa e vamos embora. E para isso é preciso coragem. Precisa de coragem para fechar ciclos que não estão te levando a lugar algum. Priorizo muito mais o meu tempo – Nany People

Nany People estreia ‘Segunda Chance’ e afirma: “A gente prioriza muito mais o nosso tempo” (Foto: divulgação)
Reinvenção como filosofia de vida
Se a peça questiona o que cada pessoa faria diante de uma nova oportunidade, Nany não precisa pensar muito para responder qual foi sua principal segunda chance. Ela lembra que precisou reconstruir a própria trajetória após a transição de gênero, em um período em que o mercado artístico oferecia ainda menos espaço para pessoas trans do que oferece hoje. “Quando fiz a minha transição, tive que me reinventar enquanto atriz. Já tinha uma carreira no teatro, já tinha uma trajetória como ator e, na verdade, quando transicionei, me transformei em Nany People. Tive que fazer uma reorganização de rota. Então, me reinventei no teatro. Me reorganizei na profissão e na vida”, reflete.
Mas essa não foi a única mudança radical em sua trajetória. Ela também recorda o momento em que deixou para trás mais de duas décadas de apresentações em casas noturnas para apostar no teatro. “Quando parei de fazer shows na noite em boates LGBT, me reinventei no teatro, depois de 22 anos na noite, Antes de tudo, me refiz profissionalmente no teatro”.
“Eu não falo envelhecer, falo amadurecer”
Nany também rejeita a forma como a sociedade costuma tratar o avanço da idade. Para ela, as palavras importam. E a escolha de como nomeamos os processos da vida influencia diretamente a maneira como os encaramos. “Eu nunca uso a palavra envelhecer. Acho que isso tem a ver com inteligência emocional. O cérebro da gente obedece muito ao que a gente fala. Então, não falo envelhecer, falo amadurecer. E, como decidi amadurecer, amadureço cada vez mais. O maior ganho é entender que nada é para sempre. As perdas vão chegando, os ciclos se encerram, mas também é preciso renovar sonhos e projetos. Por isso, prefiro falar em amadurecimento. Tem que amadurecer sempre”.

“Quando parei de fazer shows na noite em boates LGBT, me reinventei no teatro, depois de 22 anos na noite, Me refiz profissionalmente no teatro” (Foto: Divulgação)
Ela acredita que o maior ganho da maturidade está na consciência da finitude. “É importante ter essa consciência de que nada é para sempre, que tudo acaba”. E reconhece que o passar dos anos traz despedidas inevitáveis. “As perdas da vida vão se dando com ciclos que se fecham. Você não vê mais seu álbum de ‘figurinhas’ de vida mais tão certo, tão cheio, tão completo. Você perde muito amigo, perde animais de estimação, você encerra ciclos e renova outros”. Por isso, insiste que sonhar e criar continuam sendo uma necessidade vital:
É importante você ter sempre um sonho para fazer, uma ideia, um projeto para alavancar. Porque senão você fica jogado, sendo taxado como, vamos dizer, alguém de produtividade baixa – Nany People
Uma geração que desafia a ideia de desaceleração
Enquanto muitas pessoas associam os 60 anos à aposentadoria ou ao encerramento de ciclos profissionais, Nany afirma estar vivendo exatamente o contrário. “Olha, a minha endocrinologista fala que eu tenho que ser estudada, porque quando fazemos 50, muita gente desacelera, joga a toalha, aposenta, encerra ciclo, perde cachorro, termina relacionamento. Eu, pelo contrário.” A atriz destaca que nunca trabalhou tanto. “Tenho viajado há dez anos, por exemplo, o Brasil inteiro, com cinco solos (‘Como Salvar Um Casamento’; ‘Ser Mulher Não é Pra Qualquer Um’; ‘Então, Deu no que Deu’; ‘Sob Medida – Nany Canta Fafá’ e ‘Nany é Pop!‘). Eu tenho feito televisão, teatro, solos, peças com outras atrizes, como nunca fiz”. E atribui essa fase à compreensão de que o tempo precisa ser vivido, e não temido.
Os 60 me deram essa ideia de que tempo a gente não perde, a gente aproveita. Eu tenho aproveitado muito mais o meu tempo hoje – Nany People

“Nunca uso a palavra envelhecer. Tem a ver com inteligência emocional. O cérebro obedece muito ao que a gente fala. Então, eu não falo envelhecer, eu falo amadurecer” (Foto: Divulgação)
O sonho que ainda falta realizar
Apesar da extensa trajetória na televisão, no teatro e no humor, Nany garante que ainda existem desafios profissionais que gostaria de enfrentar. O principal deles é interpretar uma grande vilã. “Não digo que tenho sonhos, eu aspiro. Desejo fazer uma peça, uma personagem, uma obra, que eu possa fazer uma vilã, entendeu?”. Ela acredita que o humor pode tornar uma personagem má ainda mais interessante. “Gostei de fazer uma vilã no teatro. Foi uma vilã muito divertida. Quando põe a diversão no meio, você tem essa capacidade de mexer com a ética das pessoas. Ela é filha da mãe, mas olha… ala é filha da mãe, mas ela é engraçada, é divertida. Então, você mexe com o senso de certo e errado das pessoas”. E reforça:
Quero fazer essa vilã. Isso é um desafio muito grande. Eu já fiz no palco e pretendo fazer de novo – Nany People
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