Murilo Gun sempre foi sinônimo de risos e sagacidade no universo do stand-up. Seu brilho nos palcos? Incontestável e somado à presença magnética e humor afiado. Um dos pioneiros do stand-up comedy contemporâneo, ele fez turnê nacional, lançou show na Netflix, foi apresentador de programas do SBT, do Multishow e do Comedy Central e morou em um centro de pesquisas da NASA, estudando futurismo na Singularity University. Mas a vida, como um roteiro imprevisível, conduziu-o por caminhos inesperados. Depois de trocar o microfone pela gestão empresarial – fundou a Keep Learning School, escola de cursos online de criatividade, que chegou a ter 500 mil alunos durante a pandemia -, ele decidiu retornar aos palcos, mas em uma inovadora proposta de espetáculo que mescla humor – sem o formato tradicional do stand-up -, autoconhecimento e música tal qual um alquimista proporcionando emoções e reflexões. Pela primeira vez no Rio com a palestra espetáculo ‘Fé no Flow‘, na Cidade das Artes, na Barra, neste fim de semana (dias 5 e 6 de abril), Murilo Gun nos convida a “abrir espaço para que o fluir (flow) da vida seja surpreendente”.
Entre o palco e a vida, Murilo faz a sinergia do riso e da criatividade propondo a todos nós uma reflexão do nosso “eu”. Sua trajetória é um fluxo contínuo, uma travessia onde a intuição e o coração são bússolas. Como um navegante que traça o próprio destino, encontrou na comédia e também na paternidade seu farol. O riso, para ele, nunca foi apenas um artifício, mas uma ponte — entre pessoas, entre tempos, entre memórias. Nos bastidores da vida, aprendeu que cada silêncio carrega uma promessa de riso, que cada sombra ressalta a beleza da luz. E assim segue, entre aplausos e intervalos, entre certezas e descobertas, reinventando-se a cada cena, a cada dia, a cada recomeço. Porque, no fundo, tudo é vida. Tudo pulsa, tudo se transforma. O essencial é estar inteiro — seja sob os holofotes, seja no improviso do cotidiano, seja no abraço das filhas, onde a vida sempre encontra seu ponto de luz.
“Viver a vida no flow, dançando entre o caos e a ordem, é o experimento que venho fazendo há mais de 20 anos, sem saber. E nos últimos anos de forma internacional. O espetáculo vai te fazer refletir, rir e despertar um novo olhar sobre a realidade Flow, que significa fluir, é a eterna dança entre a ordem e o caos”, analisa Murilo, acrescentando que o equilíbrio entre diversão e autoconhecimento é a solução da narrativa, reforçando a mensagem de que aceitar tanto a ordem quanto o caos é essencial para viver em harmonia.
Em entrevista exclusiva, Murilo revela: “Este fazer teatral era algo que eu nunca tinha realizado. O Márcio Ballas – especializado na linguagem de Clown e Improviso Teatral – assina a direção e trouxe elementos cênicos com os quais eu nunca tinha trabalhado, o que proporcionou uma leitura potente à montagem, que faz dela um espetáculo. São muitas camadas. Pais e mães podem levar seus filhos, é um programa para toda a família. E isso também é algo novo para mim, que sempre pautei muito pelo lado do humor adulto. Este é meu primeiro trabalho como ator em um monólogo autoral, mesclando humor, sem o formato stand-up, com cenas de momentos da minha vida e outras situações. Conto ainda com uma banda com repertório que inclui músicas de Cássia Eller (1962-2001), Arnaldo Antunes e Gilberto Gil. E elas são entrelaçadíssimas com o texto. É como se a letra da música fosse a continuação dele”.

Murilo Gun une humor e autoconhecimento na montagem de “Fé no Flow” (Foto: Lucas Aldi e Soliris Longo)
O espetáculo não é apenas parte integrante de um retorno aos palcos, mas um reencontro com sua própria essência. Murilo relembra sua transição do riso solto das piadas para um caminho introspectivo de autoquestionamento e aprendizado. “Eu comecei a ter insatisfações com a vida, com o que eu estava fazendo. Momentos de baixa emocional que me levaram a estudar para me ajudar. Percebi que, naturalmente, comecei a transbordar o que eu estava aprendendo para as pessoas. Fiz cursos de criatividade e, em razão disso, comecei a produzir conteúdo. Foi quando me convidaram para um TED Talk e contar sobre o meu processo criativo. Assim, percebi que a criatividade não é algo exclusivo de nós, artistas, mas sim algo inerente à condição humana e um direito de todos. Comecei a me comunicar usando a comédia como meio e, assim, abri uma empresa de cursos tendo esse princípio como diretriz”, recorda.
Mas, ao expandir seus horizontes, sentiu-se perdido dentro da própria engrenagem. “Quando a empresa cresceu, eu comecei a colapsar, quase tive um burnout. O artista deu vez ao empresário, e isso me afastou de quem eu sou. Decidi, através dos palcos, voltar a transbordar para as pessoas em forma de palestra, e assim surgiu o espetáculo”. Para Murilo, ‘Fé no Flow‘ não é apenas um novo capítulo. É um renascimento, uma confirmação de que nunca se afastou de sua vocação. O palco sempre esteve em sua vida, mesmo quando seu papel parecia ser outro. “Este é um momento de retomada, porque, na realidade, eu nunca saí dos palcos. Sempre estive me apresentando no mundo corporativo. Este monólogo é uma mistura dessas várias vidas que tenho, juntando várias “encarnações” que formam esse blend de registros”. Agora, com novas camadas, novas vivências e uma entrega profunda, ele se reconcilia com sua própria arte, permitindo que sua jornada pessoal inspire outros a encontrarem seus próprios fluxos.
Eu não tenho uma meta. Quero seguir em frente e ver até onde as coisas vão – Murilo Gun, em 1997 , à TV Tribuna (Band), do Recife

“Este monólogo é uma mistura dessas várias vidas que tenho, juntando várias “encarnações” que formam esse blend de registros (Foto: Lucas Aldi e Soliris Longo)
Compartilhando experiências com todos, Murilo Gun vai lançar ainda neste ano um livro, um espelho literário do seu novo projeto, uma fórmula que mescla humor e profundidade, leveza e reflexão. “Claro que nele tem comédia, é engraçado, mas ao mesmo tempo é profundo. Tanto no livro como na montagem, tem um quê de palestra, de aula. Tem muitas mensagens passadas e tanto a peça como o livro têm uma parte emocional forte”. Entre monólogo, música e memória, ele transforma a crise em criação, o burnout em catarse. “Fé no Flow” não é apenas um show: é um resgate à própria intimidade.
Eu me via reclamando demais. Minha mulher dizia que eu reclamava da vida quando estava tudo bem, ou por não ter tempo para nada. Eu, com filha pequena, sem tempo para ela, vi que o que eu fazia era errado. Comecei a me auto-observar e perceber que, efetivamente, eu só trabalhava e reclamava da vida. Aquilo era uma insatisfação diante de uma realidade que eu mesmo tinha criado, aquela realidade de empresário sem nenhuma expressão artística. O meu eu artístico estava chateado comigo mesmo – Murilo Gun

Murilo Gun vai lançar ainda neste ano um livro, um espelho literário do seu novo projeto (Foto: Lucas Aldi e Soliris Longo)
PROCESSOS
Artista multifacetado, Murilo é expert em transita entre o humor, a criatividade e o pensamento reflexivo sobre o fazer artístico. Mas há um rótulo que ele recusa, uma vestimenta que não lhe serve, uma definição que não se encaixa no seu jeito de existir e compartilhar conhecimento, especialmente diante de “Fé no Flow“. “Nunca fiz nenhum curso de coach, então não me identifico assim e não tenho essa formação. Me vejo apenas como um palestrante, um escritor, um artista”. Ele não busca fórmulas prontas nem receitas de autoajuda, mas sim caminhos de expressão que misturem humor e reflexão, sempre com um olhar próprio sobre a vida.

Depois de passar por um burnout, Murilo Gun volta aos palcos em monólogo que propõe a reflexão sobre autoconhecimento ( Lucas Aldi e Soliris Longo)
Quando Murilo despontou no cenário do stand-up, tudo ainda era um terreno a ser explorado. O gênero era um deserto pouco desbravado no Brasil, um campo de possibilidades onde poucos ousavam se aventurar. Foi no início dos anos 2000 que ele se jogou nesse mundo, quando o humor de cara limpa, sem personagens e sem adereços, ainda precisava ser apresentado e explicado ao público”.
O que fica para mim, o que se destaca, é como o gênero virou algo popular. Na minha época, eu começava shows explicando o que é stand-up, perguntando para a plateia se todos ali sabiam do que se tratava, e metade falava que não. O que vejo agora são públicos gigantes, artistas com milhares e milhares de pessoas seguindo, uma coisa que ficou popular – Murilo Gun
Ele prossegue dizendo: “Há muita gente que passei a conhecer agora e que é muito talentosa. Além disso, há uma mudança estética. Há uma contação de histórias. Anteriormente havia uma fórmula mais americana de se centralizar numa anedota, e hoje cada um traz num show cinco histórias, cada uma com 15 minutos, e são bem engraçadas. Fora isso, há um cuidado maior na luz, no cenário, na estética. Um carinho a mais”. O riso continua sendo o fio condutor, mas a maneira de construí-lo mudou, e Murilo observa a transformação.
Pernambuco é sua raiz, sua origem, o solo que moldou sua essência. Mas, durante muito tempo, o estado não era tão reconhecido por revelar comediantes, ao contrário do Ceará, que se consolidou como uma potência do humor nacional. Hoje, a cena pernambucana tem mais visibilidade, e nomes como Rodrigo Marques e Ítalo Lucena se juntam a Murilo na tarefa de trazer essa identidade cômica para os palcos. Mas o que tem de especial no humor pernambucano?
“É um jeitinho, não é nem uma temática, mas um sotaque, uma resenha, um tempero pernambucano que eu não sei explicar. Um humor manguebeat aplicado à comédia, talvez”, diz ele, evocando o movimento musical que revolucionou a cultura do estado nos anos 90, liderado por Chico Science (1966-1997). Assim como o manguebeat – movimento de contracultura brasileiro que surgiu através da combinação original de diversos gêneros musicais -, o humor de Pernambuco carrega uma energia própria, uma mistura de tradição e vanguarda, uma identidade que se firma por meio da mistura e da ousadia.

Murilo Gun: “Meu humor é do manguebeat. É pernambucano” (Foto: Lucas Aldi e Soliris Longo)
Nem sempre foi fácil carregar esse sotaque pelo Brasil. No início da carreira, quando decidiu expandir seus horizontes e tentar oportunidades na televisão, houve quem sugerisse que ele suavizasse sua fala, tornando-a mais “neutra”. Uma recomendação que, anos depois, soa absurda, diante de um cenário cultural onde as identidades regionais são celebradas e a diversidade de sotaques é valorizada. “Quando eu cheguei em São Paulo, querendo a carreira artística, ainda diziam que, para fazer testes para televisão, eu deveria ter um sotaque mais neutro, o que hoje não acontece mais. Meu sotaque é maravilhoso, vou ao Recife só para relembrar”. O sotaque, que antes poderia ser visto como uma barreira, hoje é um traço de identidade, um elo com suas origens que Murilo carrega com orgulho, uma ponte que o conecta com sua essência e com o público que o acompanha.
ERGUENDO BANDEIRA E PLANTANDO RAIZ
Há 11 anos, Murilo encontrou um desafio que o tirou completamente da zona de conforto: uma residência na NASA. Ali, entre cientistas, físicos, biólogos e empreendedores, ele era o único comediante. “Nessa época, eu estava ainda na comédia, mas já fazendo palestras sobre processo criativo. Eu ouvi falar que existia uma experiência na qual você podia se inscrever para morar por três meses no centro de pesquisa da NASA, no Vale do Silício, na Califórnia. Eles formavam uma turma de 80 pessoas do mundo todo e tinham essa proposta bem diversa, reunindo empreendedores, gente do mercado financeiro, cientistas, biólogos, físicos… E debatendo Inteligência Artificial ainda em 2014. Lá havia aula de segunda a sábado, e a proposta era sair com projetos, criando startups e empresas. E eu era o único comediante. O perfil era de doutores, mestres, graduados, e eu era, talvez, o único artista. Me ver na NASA me trouxe essa vibe de ‘vamos criar ideias, juntar cabeças para resolver problemas do mundo’. Tinha uma pegada de ajudar a humanidade, e foi isso que me pegou. Sinto em mim uma maior regulagem agora. Através da arte e do autoconhecimento, a gente encontra um equilíbrio. A própria produção do espetáculo é uma coisa empresarial, mas eu sou mais artista que empresário hoje. Esse é o meu lugar. E assim, eu contribuo para o mundo do meu jeito”.
Na volta ao Brasil, Murilo fundou a Keep Learning School, escola de cursos online de criatividade que teve 20 mil alunos pelo período de cinco anos. Durante a pandemia, abriu todos os seus cursos gratuitamente chegando em 500 mil alunos. E esse é um desdobramento do Murilo criança prodígio empreendedora que inventou modernidades nos anos 1990 – como o pedir comida por plataforma digital através de pager e fax, anos antes do iFood. E que talvez, sem se dar conta, já falava sobre empreender através do computador, aos 11 anos, e de autoconhecimento, aos 14. Inclusive sobre relacionamento via internet… em 1997!
O que emociona alguém cujo ofício é emocionar? Esta pergunta parece encontrar sua resposta na forma como Murilo Gun se relaciona com as crianças. Para ele, os pequenos são a nova versão da humanidade, um reflexo de tudo o que ainda está por vir. “Eu sou muito conectado com crianças. Tenho duas filhas, mas todas as crianças me encantam. Eu sempre olho para elas e penso que são a próxima versão da espécie, enquanto eu sou a versão velha, e elas são a versão nova. Minha filha de 9 anos me disse que queria viajar comigo para os espetáculos nos finais de semana, e isso me emociona. Então, sempre que posso abrir mais datas para o espetáculo, preciso que minha família esteja junto. Se não, eu não vou querer viajar. Me toca muito quando vejo pessoas, até mesmo em ambientes de trabalho, em reuniões, abrindo seus corações e falando sobre ‘o que está pegando’. Se algo está bagunçado, isso vai repercutir no trabalho. E, por tanto ao fazer as pessoas rirem, penso no que me faz rir. Esse humor de clown, que é meio bobo, mas ao mesmo tempo tem uma certa profundidade. Essa espécie de ‘bobagem profunda’, que o Márcio Ballas, meu diretor, me ensinou. Da piada que não surge a qualquer preço”
Se as crianças são sua maior emoção, a paternidade é seu maior aprendizado. Tornar-se pai o levou a repensar a própria vida e a forma como se relaciona com o tempo, com a presença e com o que realmente importa. “A escuta. A presença na escuta. Nós nos acostumamos a ouvir duas coisas ao mesmo tempo e achar que isso é produtividade, a não estar inteiro. A paternidade me ensinou a simplicidade, a escolher o que é e quem é minha prioridade – e são elas. No fundo, é isso que eu quero”, frisa Murilo Gun
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