Miguel Falabella assina peça sobre amor maduro: “É como se nos fosse negado um lado da existência. Ainda desejamos”


Em ‘A Sabedoria dos Pais’, Miguel Falabella reflete sobre recomeços e amor na maturidade, rompe estereótipos ao defender mais dramaturgia para pessoas mais velhas, celebra a parceria com Natália do Vale e Herson Capri, que estrelam o espetáculo, e vive um momento múltiplo na carreira, entre teatro, musicais e sua volta às novelas, em ‘Três Graças’, de Aguinaldo Silva, na Globo, após mais de duas décadas: “Gosto de trabalhar, vou morrer trabalhando”

*Por Brunna Condini

Miguel Falabella volta a dirigir e assinar o texto de uma comédia romântica inédita, ‘A Sabedoria dos Pais’, escrita especialmente para Natália do Vale e Herson Capri, que estreia nesta quinta-feira (18), no Rio. Aos 68, ele mira o amor depois de longas relações e crava: “Pode-se recomeçar sempre”. Multifacetado, o ator, diretor, escritor e dramaturgo, também voltará às novelas após 22 anos em ‘Três Graças’, de Aguinaldo Silva, trama que vai substituir ‘Vale Tudo’ no horário nobre da Globo. “Meu personagem trabalha com artes e tem uma relação homoafetiva (com o personagem de Samuel de Assis)”, comenta sobre o folhetim que já começou a ser gravado.

A peça marca o retorno de Natália ao teatro após 23 anos e o reencontro com Herson, com quem já formou par romântico em novelas. O texto de Falabella acompanha um casal que, depois de 35 anos de casamento, decide se separar. Durante a década seguinte, cada um busca reconstruir a vida, guiado pelas lembranças e conselhos herdados dos pais, que viveram uniões longas. “É uma reflexão da minha própria vida”, admite o autor e diretor. E acrescenta sobre o tema do espetáculo:

Há pouca dramaturgia de comédias românticas sobre pessoas maduras. É como se nos fosse negado um lado da existência. E isso não é verídico: a gente não deixa de desejar porque está mais velho – Miguel Falabella

 Miguel Falabella dirige e assina o texto inédito de 'A Sabedoria dos Pais', que estreia nesta quinta-feira (18), e reflete: “Pode-se recomeçar sempre” (Foto: Divulgação)

Miguel Falabella dirige e assina o texto inédito de ‘A Sabedoria dos Pais’, que estreia nesta quinta-feira (18), e reflete: “Pode-se recomeçar sempre” (Foto: Divulgação)

Amor na maturidade

Falabella sublinha que o espetáculo fala de recomeços e reinvenção, sem cair em estereótipos. “A personagem da Natália, a Júlia, diz uma frase que acho maravilhosa: o que mais sinto falta é da flexibilidade’. De todas as formas (risos). A juventude é ansiosa; a maturidade traz outros contornos, uma experiência menos aflita. Acho importante falar com um público que cresceu e envelheceu nos assistindo, as emoções continuam”.

Para ele, o coração da peça é uma pergunta direta: até onde é possível recomeçar após uma relação tão longa? “Na minha opinião, pode-se recomeçar sempre. Acredito profundamente nisso. Não é porque a vida já foi muito vivida que não restam desejos, paixões ou possibilidades de transformação. Pelo contrário: é quando a gente já tem história que os recomeços ficam ainda mais ricos”, reflete.

Ele explica que quis construir uma comédia romântica que fosse ao mesmo tempo leve e profunda. “A gente não deixa de desejar porque está mais velho, não deixa de querer viver novas experiências. A diferença é que passamos a olhar o mundo com outros olhos”. Nesse ponto, ele revela que o enredo também nasce de inquietações pessoais:

É uma reflexão da minha própria vida. Conforme vamos entrando nos anos, mudamos a visão, e esse tema fala muito alto para mim. Eu também me pergunto sobre o que é possível recomeçar, sobre como se reconstrói uma vida depois de tantos anos. Por isso essa peça é tão íntima e, ao mesmo tempo, tão universal – Miguel Falabella

Herson Capri, Edwin Luisi, que faz uma luxuosa assistência de direção para 'A Sabedoria dos Pais' e Miguel Falabella (Foto: Reprodução/Instagram)

Herson Capri, Edwin Luisi, que faz uma luxuosa assistência de direção para ‘A Sabedoria dos Pais’ e Miguel Falabella (Foto: Reprodução/Instagram)

Assim, ‘A Sabedoria dos Pais’ mergulha em questões contemporâneas sem perder o tom de humor e delicadeza característicos do autor. “Gosto de rechear o riso de emoção, porque acredito que o humor passa melhor certas mensagens. O público se reconhece mais facilmente quando ri e, de repente, percebe que também se emocionou. É um riso que traz reflexão”. O texto aborda temas atuais como etarismo, reinvenção pessoal e a continuidade da vida afetiva na maturidade, celebrando as possibilidades que se abrem quando se ousa recomeçar: “É disso que trata a peça: mostrar que nunca é tarde, que sempre há espaço para amar de novo, para se reinventar, para se surpreender com a vida”.

Herson Capri e Natalia do Vale celebram 50 anos de carreira em 2025 com o espetáculo inédito A Sabedoria dos Pais' (Foto: Nana Moraes)

Herson Capri e Natalia do Vale celebram 50 anos de carreira em 2025 com o espetáculo inédito A Sabedoria dos Pais’ (Foto: Nana Moraes)

Escrito sob medida

Se o tema do espetáculo nasce de inquietações pessoais do autor e diretor, a escolha do elenco é consequência de uma admiração antiga e de uma cumplicidade construída ao longo de décadas. “Quando pensei em escrever, sempre foi para o Herson. E a Natália é minha irmã de muitas histórias. Eu sabia que só poderia ser com eles”. A parceria vem de longe. Miguel relembra que ele e Natália já se tornaram irmãos na vida desde que contracenaram juntos em ‘O Outro’, em 1987. Com Herson, a afinidade também atravessa anos de convivência artística e respeito mútuo. “Curiosamente, nós três fizemos uma novela onde fiquei muito próximo da Natália, mas sempre tive enorme vontade de escrever para o Herson também”.

“São dois artistas que admiro profundamente, mas, acima de tudo, duas pessoas generosas, que carregam uma história de afeto" (Foto: Nana Moraes)

“São dois artistas que admiro profundamente, mas, acima de tudo, duas pessoas generosas, que carregam uma história de afeto” (Foto: Nana Moraes)

Essa intimidade, acredita Falabella, é o que dá autenticidade à peça. “O prazer de trabalhar juntos é infalível: sai da coxia e chega à plateia. O público sente quando há verdade na relação entre os atores. Uma má coxia nunca resulta bem. As coisas precisam fluir com suavidade e é isso que acontece quando você está entre amigos, entre pessoas que olham o mundo de forma parecida”. Para Falabella, a reunião de Natália e Herson no palco transcende o reencontro profissional. “São dois artistas que admiro profundamente, mas, acima de tudo, duas pessoas generosas, que carregam uma história de afeto. Essa peça só poderia ser feito com eles. É um presente poder conduzir esse momento”.

Recomeços pessoais e artísticos

Se o espetáculo fala de reinvenções, depois de quase quatro décadas dedicadas à televisão, ele também viveu seus próprios recomeços no palco. “Fiquei 39 anos na televisão e recomecei no teatro musical em São Paulo. Para mim, não foi nada traumático, foi natural. Sempre acreditei que, se eu tenho uma qualidade, é ir em frente. Nunca fiquei parado. Amorosamente, profissionalmente, sempre fui em frente. O importante é estar cercado de pessoas que olham o mundo de uma forma parecida, que entendem, que têm empatia. Quando há prazer no trabalho isso reflete para o público”.

Ele reconhece que o tempo lhe trouxe uma nova forma de se ver e de se relacionar com a carreira. “Acho que todos nós vamos nos tornando as pessoas que sempre deveríamos ter sido. Hoje me acho melhor, gosto mais de mim, tenho menos ansiedade. Talvez antes eu não tivesse tempo para mim, porque sempre trabalhei muito. Agora vejo diferente”.

Gosto de trabalhar, vou morrer trabalhando – Miguel Falabella

"Hoje me acho melhor, gosto mais de mim, tenho menos ansiedade" (Foto: Divulgação)

“Hoje me acho melhor, gosto mais de mim, tenho menos ansiedade” (Foto: Divulgação)

Múltiplo

Entre reestreias e novas criações, Falabella prova mais uma vez sua versatilidade. Ele acaba de encerrar a temporada paulistana do espetáculo ‘Fica Comigo Esta Noite’, ao lado de Maria Orth, e já se prepara para estrear no Rio de Janeiro, no dia 10 de outubro, no Teatro Casa Grande, no Leblon. Na mesma data, estreia em São Paulo, no Teatro Renaissance, a peça ‘Os Olhos de Nara Leão’, que escreveu e dirigiu, protagonizada por Zezé Polessa.

E como se não bastasse, o autor ainda marca sua volta às novelas depois de um hiato de mais de duas décadas, sua última trama havia sido ‘Agora é que são elas’ (2003). O retorno acontecerá em ‘Três Graças’, de Aguinaldo Silva, que substituirá ‘Vale Tudo’ no horário nobre da Globo. No folhetim, ele é Kasper Dammata, um sofisticado colecionador de arte, sócio de uma galeria e casado com João Rubens (Samuel de Assis). O personagem é ambicioso, bem-sucedido e está envolvido com os vilões da trama, sendo um pivô de diversas reviravoltas. 

“Acho muito bacana isso de uma novela: você é obrigado a representar todos os dias. Além do seu talento, você precisa ter a disciplina de estudar o texto, de chegar no estúdio preparado. Sou da velha guarda, que decora, que sabe e vai. Essa disciplina eu acho muito positiva. É uma honra voltar em uma novela do Aguinaldo”.

Samuel de Assim, o diretor Luiz Henrique Rios e Miguel Falabella gravam 'Três Graças' (Foto: Divulgação/ Globo)

Samuel de Assim, o diretor Luiz Henrique Rios e Miguel Falabella gravam ‘Três Graças’ (Foto: Divulgação/ Globo)