Teatro & Pensata

Mente por trás de “Estúpido Cupido”, Flávio Marinho diz: “Não veem musical como uma arte nobre. As pessoas veem como um gênero menor, comercial”

O espetáculo, protagonizado por Françoise Forton, fica até o dia 20 de março em cartaz no Teatro Gazeta. Segundo Marinho, "é o reencontro de amigos do colegial que estão afim de transar com antigos namoricos. É o último grito de inocência que o Brasil teve. Depois dessa época veio a ditadura, veio (o Fernando) Collor (de Mello, presidente que sofreu impeachment), mensalão"

Publicado em 04/03/2016 | Por Lucas Rezende

Era 1976 quando estreava “Estúpido Cupido” (Globo), a última novela em preto e branco da televisão brasileira. A estrela principal? Françoise Forton, que vivia Maria Tereza, ou, para os íntimos, Tetê. Hoje, 40 anos depois, a mesma personagem volta à cena, desta vez na ribalta do Teatro Gazeta (até 20 de março), em São Paulo, após temporada carioca no ano passado. O musical, que também carrega o mesmo nome do folhetim, é de autoria de Flávio Marinho, que criou uma espécie de spin-off no qual Tetê ganha a chance de reviver a juventude ao reencontrar um antigo amor (Luciano Szafir) da escola, agora com uma jovem namorada (Carla Diaz).

Nas entrelinhas , bom dizer, está a bela época pré-ditadura militar, pelos idos de 1958. Fomos atrás de Marinho para uma conversa exclusiva. “É o reencontro de amigos do colegial que estão a fim de transar com antigos namoricos. É o último grito de inocência que o Brasil teve. Depois dessa época veio a ditadura, veio (o Fernando) Collor (de Mello, presidente que sofreu impeachment), mensalão. Perdemos o direito de ser ingênuos no país. Os personagens passam a se comportar como adolescentes sem maldades e entram em um túnel do tempo entre o passado e o presente. O convite para o encontro deles, por exemplo, foi feito pelo Facebook”, explica.

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Na trilha sonora, justamente para localizar o público e o enredo no tempo, está abarrotada de clássicos da pré-Jovem Guarda. A ideia, segundo Marinho, é provocar uma reflexão. “Estamos em março, mas daqui a pouco é Natal de novo. A vida da gente é tão maluca, o tempo é uma coisa louca. Eu, por exemplo, vivo consultando agenda. A gente não pensa na passagem do tempo, mas teremos todos o mesmo final. Não paramos para pensar no que a gente deveria fazer da vida. O tempo transforma as pessoas e os pensamentos. E a peça fala muito sobre isso”, adianta. E, se você não é da turma da nostalgia e já está pensando em fechar essa reportagem, alto lá. “A personagem da Carla Diaz tem 21 anos, sem a menor referência de tudo aquilo que os cinquentões discutem no palco. Ela é representante de uma grande parcela da juventude de hoje em dia, é completamente avoada, vive o presente, gosta de Anitta, Mulher Melão. A tal da hashtag é que é a praia dela”, conta, ampliando o público alvo do musical. Autor de outros espetáculos como “Perfumes de Madonna”, “Os Sete Brotinhos” e  “Splish Splash”, Marinho é daqueles especialistas na arte com a qual ganha o pão.

(Foto: Beti Niemeyer)

(Foto: Beti Niemeyer)

Crítico desde 1973, ele analisou a nosso pedido: “Se o país é o terceiro do mundo em produção de musicais, por que ainda importamos tantas obras da Broadway, ao invés de focar no autoral?”. À resposta: “Eu me lembro de sempre falar por que o brasileiro não encontrou uma forma de fazer musical. São as desculpas do passado: medo da censura política e econômica. Foram vários os percalços. E isso é estranho, porque somos um país muito musical. Música aqui é coisa séria, é coisa rica. O grande problema é que precisávamos de elencos muito grandes que soubessem cantar e dançar e não conseguíamos. Eu me lembro que em 1984, quando estreou “Chorus Line”, primeiro trabalho da Claudia Raia como atriz, foi esgotamento de mercado. Aquelas 20 pessoas envolvidas eram as poucas que sabiam cantar e dançar. A gente não tem gente que cante, dance e represente”. Mas…a cena mudou? “Hoje em dia tem toda uma geração muito jovem, muito ligada em musical. Hoje, você faz teste, aparecem 300. Agora a gente tem um material humano para trabalhar. Houve um retorno de público muito grande e a possibilidade da Lei Rouanet. Era muito difícil captar recurso antes. E até hoje não existe quase retorno financeiro em musical porque é muito caro. Precisa de patrocínio para estrear o espetáculo e para mantê-lo”, defende.

Palavras de quem não se entende como dramaturgia (“gente que escreve peça”), e sim como libretista. “Eu não só traduzo e assino versões brasileiras. Sempre fui um estudioso na época em que ninguém dava bola para o musical, que até hoje não dá muito prestígio. Não o veem como uma arte nobre. As pessoas veem como um gênero menor, comercial. É muito estranho”, entrega. Raciocínio que  leva a diferenciar, muito bem, obrigado, o que é feito na Big Aplee do que acontece no eixo Rio-São Paulo. “O americano tem uma cartilha muito rigorosa em termos de estrutura dramática para armar o libreto da comédia musical. Tem uma série de regras que tem que ser seguidas ao pé da letra, porque assim que a coisa é feita lá. É uma apostila e a pessoa vai, dentro daqueles parâmetros, fazendo. E isso serve muito bem para eles, que dividem o palco em quadrados e numeram. Eles falam: ‘Pula do quadrado 4 para o 13’. E a gente não é ortodoxo assim. Nós somos mais descontraídos e o nosso musical também tem que ter um jogo de cintura assim”. Coisa nossa, se é que nos entendem.

Serviço
“Estúpido Cupido”
Quando: Sábado, 21h, domingo, 18h
Onde: Teatro Gazeta (av. Paulista, 900, São Paulo)
Quanto: R$ 100
Classificação etária: 12 anos
Duração: 90 minutos
Informações: (11) 3253-4102

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