*por Luísa Giraldo
É a segunda vez que Mel Lisboa interpreta Rita Lee (1947-2023) nos palcos. A atriz de 43 anos convive com a personagem há mais de uma década, desde quando protagonizou “Rita Lee Mora Ao Lado – O Musical”, em 2011. Com brilho nos olhos, a artista ganha elogios pela peça “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical” que vem ao Rio de Janeiro, após uma temporada de sucesso na capital paulistana. Junto ao espetáculo, Mel dá mais um mimo aos cariocas: algumas apresentações do monólogo “Madame Blavatsky – Amores Ocultos”, inspirado na vida da escritora russa Helena Petrovna Blavátskaya (1831-1891), cofundadora da Sociedade Teosófica. Em entrevista exclusiva, Mel Lisboa revela os desafios de interpretar Rita mais uma vez e reflete sobre as dores do divórcio.
Aguardado pelos fãs desde a morte da cantora, o espetáculo é baseado na autobiografia da roqueira. O roteiro e pesquisa são de Guilherme Samora, com texto de Márcio Macena, Débora Dubois e a atriz Mel Lisboa, que foi indicada aos Prêmios APCA e Shell por interpretar a roqueira, analisa: “Além de momentos engraçados e comoventes de outros grandes nomes da música brasileira que passaram pela vida de Rita Lee, o público pode acompanhar um verdadeiro show de toda a equipe envolvida”.
O papel de Rita Lee não é simples, visto que sempre há expectativas por parte do público, dos fãs e da própria Mel Lisboa, devido à influência da cantora para a história da música e da cultura brasileira. O nervoso, é claro, atingiu Mel, porém o dá forças para entregar um trabalho ainda mais íntimo e sensível.

Mel Lisboa expõe relação íntima de admiração com Rita Lee (Reprodução/Instagram)
Senti muita pressão. Nossa, na primeira vez, foi o maior risco que já corri na minha vida em termos profissionais. Foi a escolha mais arriscada que fiz naquela época, mas a mais acertada, profissionalmente falando, sim. Talvez, por ser o maior acerto, também corri o risco de ser o maior erro – Mel Lisboa.
O desafio a levou a tomar uma decisão difícil: largar “Pecado Mortal”, produção da Record TV, para assumir o papel, sem garantias de que o projeto daria certo. “Pedi para sair de uma novela [para assumir o papel de Rita nos teatros], corri o risco de ter que pagar uma rescisão contratual. Iria à falência se isso acontecesse. Por mais que a maioria das pessoas, depois e na época mesmo, tivesse entendido, muita gente não entendeu e acabou me detonando. Mas realmente percebi que precisava fazer uma escolha: era um ou outro. Algo me dizia que eu tinha que encarar esse desafio”, atesta.

Mel Lisboa trará o espetáculo “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical” para o Rio de Janeiro (Reprodução/Instagram)
Tinha muito medo, porque eu sabia o tamanho da responsabilidade. Cantar nunca foi fácil para mim. Na época, eu estava com calo nas pregas vocais – estava muito mais difícil. Hoje em dia, canto bastante, melhorei muito, mas não é uma facilidade. Sigo estudando. Tenho aulas e faço exercícios para melhorar. Evidentemente, estou muito melhor do que há 11 anos – Mel Lisboa.
Mel reconhece, embora não seja obcecada, a ponto de analisar a vida da roqueira toda hora, ter grande atração por novos materiais que saem sobre o trabalho dela, que impactam diretamente no seu estudo e na entrega para a personagem. “Estou sempre estudando. Nunca está bom o suficiente. Sempre pode melhorar. Sigo sempre estudando”.
Espetáculo no Rio de Janeiro
Mel Lisboa está esfuziante desde o anúncio que o espetáculo “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical” passará pela Cidade Maravilhosa. Mais de 60 mil pessoas foram ao teatro para ver o show, que teve todas as datas esgotadas nas duas temporadas em São Paulo. Por isso, as expectativas estão a mil, descreve a atriz.
“Fui criada no Rio. Tenho uma história. É a minha história. Embora não tenha nascido [na cidade], sou meio carioca. Toda a minha vida, a minha infância, a minha adolescência, os meus amigos e o início da minha carreira também foram no Rio”.
Vim fazer teatro desde que me mudei para São Paulo, há mais de 20 anos. São raras as peças que eu consigo levar para o Rio. Fico muito contente de levar um pouco do trabalho que eu faço aqui para o Rio de Janeiro, que considero ser minha cidade também – Mel Lisboa
A artista reforça ter um carinho imenso por esse trabalho. “Sei o quanto ele é importante para mim e para minha carreira, mas não só isso. É importante para muitas pessoas que fazem espetáculos e para quem o assiste”. Ela vibra pela temporada, que começa em 26 de junho e vai até 3 de agosto. Os shows serão realizados no Teatro Casa Grande, no Leblon. Os ingressos já estão à venda na plataforma Eventim.

Mel Lisboa interpreta Rita Lee nos palcos pela segunda vez (Reprodução/Instagram)
A animação, porém, não inibe o sentimento nervoso. Onze anos não foram capazes de acalmar os ânimos de Mel Lisboa: interpretar Rita Lee continua sendo uma experiência intensa. Apesar disso, a ansiedade é transformada em motivação.
“O medo sempre está lá. Nessa outra estreia, também tive medo. Rolou uma expectativa enorme porque era ‘a Rita que a Rita gostava de ver’. Felizmente, a peça está sendo um sucesso. As pessoas adoram. É claro, fico mais tranquila, mas não deixa de ser aquele nervoso todos os dias”, desabafa, aos risos.
Mel relembra que, ao longo dos dois espetáculos, recebeu públicos mistos. “A Rita é uma personagem muito peculiar. É única, de uma personalidade e de uma genialidade que acabam atravessando gerações e seguem encantando as mais novas. Na plateia, recebo desde pessoas mais velhas, que vão assistir o espetáculo e falam: ‘Nossa, vi a minha vida no palco’, até jovens, adolescentes e crianças, que se encantam com o espetáculo com algo que eles não viveram. Isso denota esse ser iluminado [a Rita] que realmente faz com que o encantamento perpetue”, pontua.
O amor da atriz também é compartilhado com os filhos Bernardo, de 15 anos, e Clarice, de 12. Eles não apenas apoiam o trabalho da mãe, mas, de fato, admiram o legado de Rita Lee para a cultura brasileira. Orgulhosamente, Mel expõe um pouco da relação:

Mel Lisboa era a artista favorita de Rita Lee para interpretá-la nos teatros (Reprodução/Mauricio Nahas)
“Meus filhos conhecem tudo da Rita. É muito bonitinho e fofo. Eles sabem cantar todas as músicas. Clarice já disse: ‘Nossa, mãe, senti uma saudade da Rita’. E Bernardo:’ Meu Deus, como é uma gênia’. Eles são muito apaixonados por ela”, vibra Mel.
Cara a cara com Rita Lee
Mel Lisboa teve a oportunidade de encontrar Rita Lee algumas vezes – e foi, até mesmo, surpreendida com a presença da cantora em alguns shows há 11 anos. Apesar dos encontros esporádicos em compromissos de trabalho, a estrela não escondeu a predileção pela atriz para voltar a encarná-la nos teatros.
“Em 2014, quando fiz o outro espetáculo [Rita Lee Mora Ao Lado – O Musical ], ela foi assistir e gostou muito do meu trabalho. A Rita já estava aposentada dos palcos, estava mais na literatura, e meio que falou: ‘Segue aí, com essa Rita Lee dos Palcos”’.
O carinho pela produção foi tamanho que a cantora pediu que Mel encarasse novamente o desafio. “Em 2021, no meio da pandemia, ela pediu para gente fazer esse espetáculo. Ela queria que acontecesse. E pediu também para que eu narrasse as duas autobiografias”.

Mel Lisboa reconhece a potência de Rita Lee para a cultura brasileira (Reprodução/Instagram)
Há 14 anos, Rita povoa o meu imaginário. Quando comecei a estudá-la, fiquei apaixonada. Cada vez mais. Ela é muito apaixonante, uma pessoa realmente única e genial, absolutamente genial. Comecei a me ligar a ela de várias formas, do ponto de vista do meu estudo particular e de eu comigo mesma – Mel Lisboa.
A atriz confessa manter um contato “espiritual” com a ícone do MPB. “Sinto que ela segue me abençoando, me apoiando, me incentivando e está feliz com a peça, que ela queria que acontecesse e que, felizmente, é um sucesso. Acho que ela está aqui”, emociona-se.
Narrativas femininas de liberdade
Rita Lee, Helena Blavatsky e Thereza Soares, personagem da série “Coisa Mais Linda”, produção da Netflix que foi cancelada em 2021, têm muito em comum: terem sido interpretadas por Mel Lisboa e serem vozes potentes, com narrativas de liberdade da mulher. A artista reconhece que essas personagens contribuem para o movimento feminista.
Todas as personagens te ensinam alguma coisa. Inevitavelmente, fazemos uma pesquisa e vemos referências. A personagem traz um universo sobre o qual você não sabe nada ou save pouca coisa. Você vai aprender muito com as personagens – Mel Lisboa
“São personagens que quebram paradigmas, que não têm medo de serem quem são. Se têm, elas vão mesmo com medo. O medo existe, mas não pode (ou não deveria) ser paralisante. Embora essas personagens sejam diferentes, há sim a liberdade liberdade, o feminismo e o feminino, que não necessariamente é o esperado do ‘feminino’.

Mel Lisboa reconhece a importância de narrativas femininas de liberdade, inspiradas em personas como Rita Lee (Reprodução/Instagram)
Em “Coisa Mais Linda“, a atriz vive Thereza Soares, uma jornalista feminista na década de 1950, em um contexto profundamente marcado pelo machismo no Brasil. Ela e as amigas, Malú (Maria Casadevall), Adélia (Pathy Dejesus) e Lígia (Fernanda Vasconcellos), lidam com os preconceitos de ser mulher em uma sociedade despreparada para vê-la prosperar nos sentidos pessoal e profissional. Paulista que vem morar no Rio, a personagem de Maria abre um bar de bossa nova após ser abandonada pelo marido, que se torna o ponto de encontro das quatro.
De volta à Rita: Mel exalta os feitos da cantora de MPB, que reforçava não ser feminista à época, para o movimento. “Rita quebrou muitos paradigmas falando sobre ser mulher, sobre sexualidade, sobre menopausa, sobre amor, sobre sexo e sobre mulher menstruando. Quem que fazia isso? Ninguém, só a Rita”.
Mel destaca a relação dessas mulheres, especialmente de Helena e Rita, já que também vai trazer “Madame Blavatsky – Amores Ocultos” ao Rio. O espetáculo explora a figura de Helena Blavatsky, co-fundadora da Teosofia, e mistura misticismo e drama. A atriz simula uma incorporação mediúnica enquanto Blavatsky tenta esclarecer sua trajetória e defender seus ensinamentos.
Saúde mental e divórcio
Mel Lisboa terminou o casamento de 15 anos com o músico Felipe Rosseno em 2023, porém ainda sofre com as dores do divórcio. A artista entende que expor essa dor a ajuda no processo de cura, sobretudo quando lê relatos semelhantes de outras mulheres.
Em alguns momentos, quando você está passando por uma situação delicada, em que fica muito vulnerável, perceber que não estar sozinha é um confronto. Você percebe: ‘não é só eu que sofro desse jeito’. De alguma forma, sente-se acolhido. Então, percebi que algumas pessoas não só acolheram a minha dor, mas se sentem acolhidas com meu depoimento – Mel Lisboa.
“Já se passaram dois anos e um pouco da separação, e confesso que sofro até hoje. Não sei se um dia vou parar de sofrer assim. Não sei mesmo. Talvez não pare e eu tenha que conviver com essa dor. É como uma morte”, desabafa.
Segundo a artista, há mecanismos para driblar a dor ao redirecionar essa energia. A melhor forma: o trabalho, que a “salva” de inúmeras formas, inclusive espiritualmente, até hoje.
“É evidente que outras coisas ajudam. O trabalho é muito, muito, muito importante para mim. Se estivesse em um momento ruim de trabalho, seria muito mais difícil passar por isso. Tive a sorte de, ao mesmo tempo que rolou a separação, fazer trabalhos que me fizeram bem. Trabalhei bastante, tive desafios e conquistas. Fiz o meu primeiro solo, a minha produção e vieram os ensaios para o show da Rita”
Isso me ajuda muito a seguir em frente, de uma forma leve e bem. É uma dor que não sei se um dia vai passar – Mel Lisboa.
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