*Por Brunna Condini
Depois de conquistar mais de 150 mil espectadores e rodar o Brasil e Portugal, Mateus Solano retoma o solo ‘O Figurante’ em São Paulo para nova temporada no Teatro Renaissance, a partir de sábado (dia 2), com a certeza de que o espetáculo é um processo contínuo. “Quanto mais descubro a potência da peça e como bate nas pessoas, depois de 250 apresentações, mais entendo a importância de falarmos de protagonismo e figuração nas nossas vidas. Protagonismo nesse espelhamento com a figuração, no sentido de entendermos que a vida é nossa, que ela é uma só e precisamos minimamente pegar suas rédeas”. E acrescenta: “Ao mesmo tempo, também acho que esse espetáculo foi revelando o quão importante é entendermos a beleza de sermos figurantes, em um universo que é infinitamente maior do que nós, em que somos… nem um pum, né? Acho que o pum pode durar muito mais tempo do que a gente. Os dinossauros duraram um pum. Vai saber o que nós vamos durar. E os dinossauros ficaram 150 milhões de anos nesse planeta”, diz, bem humorado.
Acredito que a grande dificuldade do ser humano, a grande ferida da humanidade hoje, é perceber a sua desimportância – Mateus Solano
O ator associa o atual momento a uma fase de transformações pessoais e profissionais, impulsionadas pela maturidade, pela saída de uma estrutura estável de trabalho, após o fim do contrato com a Globo, e pela separação de Paula Braun, após 17 anos de casamento, encontrando na troca com o público e na experiência autoral, seu principal combustível para seguir se descobrindo e reinventando.

Mateus Solano reestreia ‘O Figurante’ em São Paulo, fala de protagonismo, saída da Globo, separação e debate sobre uso celular no teatro (Foto: Ricardo Penna)
“Depois dos 40 (ele tem 45), acho que, pra todos os seres humanos, é uma oportunidade de recomeços”, afirma. Esse movimento foi intensificado por mudanças estruturais na carreira: “Teve toda a revolução na Globo, em que deixei de ter um salário fixo. Portanto, tive que correr atrás de lembrar o artista, além do empregado. Aconteceram uma série de coisas, de recomeços na minha vida, de recolocadas de perspectiva, que culminaram na peça também. E naquela minha sensação de ser ‘figurante’ por ser famoso, por não ser eu, ser sempre a projeção que fazem de mim pelo trabalho que me viram fazer”. O ator encerrou contrato fixo com a Globo em 2023, após 20 anos da sua primeira aparição na emissora. Fora da estrutura estável, ele não romantiza o processo. “É desafiador. Mas é um grande impulso”. E sintetiza a respeito da maior autonomia profissional, e sobre viver sozinho após tantos anos:
Também desafiador e libertador. Dá medo? Dá. E é bom sentir medo. Fugimos dele… onde tiver estabilidade a gente quer sentar e ficar. E a vida não é isso – Mateus Solano

“Depois dos 40, acho que, pra todos os seres humanos, é uma oportunidade de recomeços” (Foto: José Fernandes)
Além do teatro, o ator está em ‘Juntas e Separadas’, sucesso do Globoplay. Na série ele é Lino, o ex-marido de Joana, personagem de Luciana Paes. “Desde que recebi o texto, fiquei encantado. Sou fã da Thalita (Rebouças), você vê que ela realmente é uma gênia. É uma coisa que entretém, mas fala de coisas sérias”. Ele destaca o protagonismo feminino como eixo da narrativa: “A série bota esse protagonismo em um lugar que nunca esteve, isso é maravilhoso… derruba essa ideia preconceituosa da ‘sobrevida da mulher’ depois dos 40. Não existe depois, a vida delas é hoje. É muito bom ver essa mulherada contando histórias, em cargos de poder”.
Masculinidade hoje
Ao pensar no debate contemporâneo sobre masculinidade, o artista desloca o foco para a forma como as discussões vêm sendo conduzidas. E comenta, por exemplo, a repercussão polêmica do evento criado por Juliano Cazarré, voltado ao público masculino, que pretende fortalecer a masculinidade por meio de temas como paternidade, empreendedorismo e espiritualidade. Você acha que ainda existe um grande conflito sobre o que é ser homem hoje?
Acredito que sim, existe uma crise identitária para o homem atualmente. E por isso, acho válidas todas as tentativas de responder essa pergunta, quer você concorde com a resposta, quer não. Só que as redes sociais são um campo de batalha, infelizmente. Devia ser um lugar de discussão e de colocar ideias diferentes. Falar: ‘olha só, esse cara pensa completamente diferente de mim, que loucura’. Ok. Mas tem uma guerra acontecendo, velada, fria, na internet, porque nas ruas todo mundo diz ‘bom dia’ – Mateus Solano

“É bom sentir medo. Fugimos dele… onde tiver estabilidade a gente quer sentar e ficar. E a vida não é isso” (Foto: José Fernandes)
A respeito das críticas envolvendo o colega de profissão, Solano diz: “Não sei, não vi muito… quando percebi que teve polêmica, eu já ‘swipe’. Porque amo o Cazarré, não quero pegar raiva de ninguém. E isso me faz pensar mais sobre a comunicação do que sobre o tema em si. Acho que essa é a grande questão: se vamos voltar a conseguir discordar, ou nem discordar, aceitar que o outro discorda de você. Mas não é tão simples assim, porque estamos falando de uma polarização que chegou na política, que precisamos segurar, porque senão o outro ganha. E acabamos defendendo, às vezes, até coisas que a gente não sabe se é muito a favor ou não, porque faz parte desse ‘bolo’. Isso tudo empobrece as discussões”.
O teatro e o presente
O ator não parece mesmo afeito a problematizar a vida e os acontecimentos. Apesar disso, ele mesmo já teve que lidar com polêmicas envolvendo o espaço que acredita ser sagrado: o teatro. E recorda o episódio em que foi acusado de dar um tapa no celular de uma espectadora que filmava a apresentação de ‘O Figurante‘ em Santa Rosa (RS). O ator fala do acontecido, ampliando a discussão sobre o uso constante de celulares nestes ambientes:
“Realmente não foi isso o que aconteceu. O que acontece, é que praticamente em todas as apresentações, algumas pessoas sacam o celular. Ou para checar alguma coisa, ou para ficar em uma rede social enquanto estão dentro do teatro e estou ali na frente delas fazendo uma peça. Ou para tirar fotos, ou para filmar o espetáculo. Avisamos três vezes antes de começar para desligarem o celular e que é proibido tirar fotos, vídeos. Ainda assim acontece. Isso me atrapalha muito. Estou sozinho no palco, tira a minha concentração. Também é algo egocêntrico, porque eu quero as atenções para mim, já que as pessoas pagaram o ingresso, estão ali sentadas para assistir. O meu ego sofre com isso. E é uma espécie de crime, porque ao filmar estão levando um pedaço de uma obra que não pode ser levada pra casa”.

Mateus Solano volta ao Teatro Renaissance com ‘O Figurante’ após turnê por Portugal (Foto: Dalton Valerio)
“Então, invariavelmente, ou paro o espetáculo e peço para quem está com o celular, por favor, desligar; ou sigo a peça e o personagem reage com aquilo. Tento, seguindo a cena, tirar o celular da frente. Faço isso de várias maneiras. E teve essa vez em que peguei o celular, botei debaixo da cadeira da pessoa e continuei”. Deixando a reflexão aberta, Mateus conclui:
Não culpo ninguém nessa história. Vivemos em uma sociedade em que se tira o celular para tudo. Acho que é uma discussão válida sobre o jeito que estamos vivendo, de como não estamos conseguindo estar presentes. Um dos últimos lugares que te oferecem isso são as artes cênicas. Por isso, ainda me reservo o direito de pedir que as pessoas, nesse momento, se desliguem dos seus celulares e vivam aquele momento – Mateus Solano

“Somos figurantes, em um universo que é infinitamente maior do que nós, em que somos… nem um pum, né?” (Foto: Dalton Valerio)
Com novos projetos no horizonte, ele deseja manter o foco no palco. “No momento, estou vivendo muito o teatro. Quero continuar desenvolvendo esse trabalho solo, tenho uma missão aí”. Entre os próximos passos, está uma montagem do texto ‘Ricardo III’, de Shakespeare”. ao ser perguntando sobre o desejo de retorno às novelas (sua última foi ‘Elas por Elas‘, em 2023), responde com o humor de quem não fecha portas: “Sempre digo: escreve uma aí e me chama”.
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