Teatro & Pensata

Maria Flor fala sobre novo projeto ao lado do marido, participação na série brasileira 3% e reflete sobre o caminho das mulheres no cenário artístico e na sociedade: ‘’O problema do mundo é que tem poucas mulheres no comando’’, declara

Em cartaz com a peça ‘’Tudo que você sempre quis dizer sobre o casamento’’, Maria Flor se prepara para lançar dois filmes ainda este ano: ‘’Filme-ensaio’’, no qual participou como diretora, e o suspense de Daniel Augusto, ‘’Albatroz’’

Publicado em 21/06/2018 | Por Thaissa Barzellai

Maria Flor e Emanuel Aragão posam juntos para foto de divulgação da peça que conta a história do casal. (Foto: Divulgação)

Depois de três anos namorando o ator e roteirista Emanuel Aragão, a atriz Maria Flor resolveu fazer o que muitos casais nunca nem cogitariam: lavar a roupa suja na frente de todo mundo. Com a peça ‘’Tudo que você sempre quis dizer sobre o casamento’’,  a dupla retrata com muito bom humor e drama a própria rotina de casado explorando questões que afligem qualquer casal, entre elas a maternidade. ‘’É um stand up que fala um pouco sobre a nossa história, sobre a luta que é estar casada’’, afirma. Para a atriz, que é madrasta do Martim, filho do primeiro casamento de Emanuel, o espetáculo foi uma forma de ela descobrir se realmente deseja ser mãe. ‘’Acho que muito do porquê da gente estar fazendo a peça é para amadurecer a ideia de eu ser mãe e ele ser pai de novo, porque é uma coisa que pra ele é muito mais bem resolvida e pra mim como mulher eu passo por um processo gigantesco já que é realmente uma questão que transforma a vida da gente, é um divisor de momentos na vida’’, conta Maria que, além de transformar sua vida em roteiro, leva o trabalho para casa. ‘’Eu e Emanuel trabalhamos juntos, ensaiamos em casa… é difícil. Nós moramos na parte de cima e na outra parte da casa ensaiamos”, conta.  

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Os últimos 5 dias: – Eu saí de um trabalho com pessoas que eu gostava muito, de um jeito que eu nunca imaginei. Mas onde tem afeto, tem todo o tipo de afeto, não só os bons. Isso a gente custa a aprender, ou a assimilar. – Eu e Flor estreamos a nossa peça. E foi tão lindo e tão novo que eu nem sei onde isso pode dar. Mas também cheio de dúvidas e inseguranças. Acho que como são sempre as coisas novas, talvez… – Eu fui até São Paulo, depois da peça em Goiânia, pra conversar com pessoas sobre a possibilidade de diálogo com os outros através da escrita, e, no lugar onde eu achava que pudesse ser mais entendido, aconteceu o oposto. – Voltei pra casa de ônibus para o Rio porque não aguentei a ideia de passar uma noite sozinho em um hotel. (Além do que eu sempre acho ônibus mais civilizado que avião. Na rodoviária não tem cliente platinum e nem detector de metais). – Cheguei no Rio de madrugada sozinho na rodoviária e acabei fazendo uma cotação de plano de saúde com o motorista do uber na porta de casa às 2 da manhã. Acho que vai dar certo. – Acordei, fiz café, brinquei com o cachorro, fiz o almoço e fui, ansioso, buscar o Martim na escola. Morrendo de saudade. Aí ele mal me deu um abraço e disse que não queria ir pra nossa casa e sim pra casa do primo. Enfim. Eu tentei não ficar triste e voltei correndo pra casa pra poder levar a Flor no aeroporto. (Eu sempre gosto de levar ela no aeroporto). E Martim dormiu no carro de volta pra casa, depois do aeroporto, e eu jantei sozinho 1 hambúrguer que eu pedi no ifood. 2, na verdade. – Não consegui dormir. De jeito nenhum. Passei a noite inteira repassando a vida na cabeça tentando entender pra onde ir daqui pra frente. No fim, o dia começou a clarear do lado de fora. E eu me senti tão sozinho que o meu peito literalmente doía. E neste exato momento uma mensagem apitou no celular: “bom dia meu amor”. Era a Flor em SP. E eu senti, quase ao mesmo tempo que li a mensagem, sério, a mão do Martim escalando o meu pé e subindo em cima da minha barriga. E ele adormeceu de novo. E eu fechei o olho, respirei, e, pela primeira vez nos últimos 5 dias, parei de pensar. Foi bom Ps essa foto é a primeira de nós 3 juntos.

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Escrito pela atriz em parceria com o marido, ‘’Tudo que você sempre quis dizer sobre o casamento’’ foi financiada pelo próprio casal, refletindo uma questão que impacta as manifestações artísticas do Brasil: a falta de incentivo. De acordo com a atriz, é preciso que tenha políticas públicas que, junto às leis de incentivo, como Lei Rouanet, consigam contemplar, principalmente no âmbito cinematográfico, não só as produções blockbusters como também as alternativas, expandindo o alcance das mesmas a fim de dialogar com o público. ‘’Nós precisamos pensar além. A gente tem que atingir as pessoas, tem que fazer bilheteria, tem que ter cinema em universidade, por exemplo. Como que não temos esse tipo de iniciativa para pagar 5 reais para ver um filme brasileiro já que pagamos o dobro pra ver os estrangeiros, como ”The Avengers”,  ou algum outro nacional, como o do Paulo Gustavo, que eu super respeito também. Mas isso é um absurdo, então eu acho que essas políticas deveriam ser feitas, porque se a gente ficar vivendo só de lei de incentivo, vamos morrer na praia e não teremos um mercado pensante’’, reflete.

O teatro não é o único lugar no qual a atriz está brilhando. Neste ano, a atriz retorna às telonas brasileiras não só na frente como também por trás das câmeras. Além de estrelar o filme de suspense ‘’Albatroz’’, cuja data de lançamento está prevista para novembro, Maria assina o roteiro e estreia como diretora na produção de um longa-metragem em ‘’Filme-ensaio’’, mais uma parceria com Emanuel e Adriano Guimarães, amigo do casal. Filmado durante o ano de 2014, o filme registrou todo o processo de criação da peça ‘’Nômade’’, estrelada por Andréa Beltrão, Malu Gali e Mariana Lima, explorando a rotina das atrizes e a realidade do teatro. Com lançamento marcado para o Festival do Rio, que será realizado no mês de outubro, ‘’Filme-ensaio’’ é visto pela atriz como uma vitória para ela como mulher em um cenário artístico que aos poucos está deixando de ser dominado pelos homens. ‘’Eu estou muito feliz do filme ter sido produzido. Foi muito difícil. O cinema como mercado tem uma estrutura muito masculina, então nós temos que dar espaço não só para diretoras como também para fotógrafas, diretoras de artes e para outras profissionais dessas funções que são vistas como mais braçais. Nós temos muitas mulheres engajadas e com ideias brilhantes e eu acho que está rompendo com isso cada vez’’, declara Maria que teve sua primeira experiência como diretora no programa exibido pelo Multishow  em 2014,‘’Só Garotas’’, onde a atriz também pôde explorar o seu talento como roteirista, assinando todos os 13 episódios da série. 

Maria Flor ao lado das amigas que também participaram da série. Da esquerda para a direita: Maria Flor, Flora Diegues, Vitória Frate, Julia Stockler e Liliana Castro. (Foto: Divulgação)

Feminista, a atriz, que de acordo com uma pesquisa divulgada este ano pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) faz parte dos 25% de mulheres que assumiram a direção no ano de 2017, enxerga o olhar feminino como essencial para a mudança não só no cenário artístico como também para o social no geral. ‘’Eu acho que tem uma coisa do feminino, que é do diálogo, do entendimento, da abertura, que é qualidade nossa mesmo que nós temos que olhar para ela como uma vantagem, trazendo ela para os homens também’’, diz. Para Maria, tudo seria diferente se as mulheres desde sempre estivessem no poder. Afinal, como brinca a atriz: a guerra é do homem. ‘’O problema do mundo é que tem poucas mulheres no comando. Se a sociedade fosse matriarcal desde o começo, a gente seria incrível, não teríamos problema nenhum. Mulher nunca iria fazer guerra, nós iríamos apenas falar ‘’Aquele país é legal, vou lá conversar com ele e tomar um café’’, entende?’’, afirma. Brincadeiras à parte, Maria Flor acredita que, independente de quem esteja no poder, é preciso criar diálogos e equidade entre os indivíduos a fim de gerar transformações no país. ‘’Eu vejo como eu sou uma pessoa que me conecto com milhares de pessoas. Isso é uma vontade minha que é muito feminina. Os homens ficam dentro desse pensamento soberano, de que não precisam se comunicar com o outro porque somos donos do mundo. Ninguém é dono de nada, estamos aqui tentando sobreviver nesse mundo maluco que chegamos. Por exemplo, a Marielle foi assinada, como vamos fazer pra transformar isso? Por mais que tenhamos retrocedido, a sociedade vai continuar existindo e precisamos agir de forma inteligente para transformar tudo isso em algo bom para vivermos’’, afirma.

Maria Flor ao lados dos parceiros de cena, Fernanda Vasconcellos e Silvio Guindane, durante as gravações da segunda temporada de 3%. (Foto: Reprodução)

No meio de tantos projetos e, claro, muita militância, Maria Flor ainda arranjou um tempinho para participar de 3%, série de drama e ficção científica da Netflix que teve a segunda temporada lançada em abril.  Na trama, Maria vive Samira, uma mulher que, ao lado dos personagens de Fernanda Vasconcellos (Laís) e Silvio Guindane (Elano), foi responsável pela criação de Maralto, destino paradisíaco dos aprovados do Concurso exibido durante a primeira temporada. Apesar de ter sido apenas uma pequena participação, na qual todas as cenas foram em flashbacks, a personagem da atriz gerou bastante repercussão nas redes sociais por um motivo considerado bem polêmico até hoje: Samira, Laís e Elano são um triângulo amoroso, formando o ‘’Casal Fundador’’ na série. No entanto, a atriz não compartilha da opinião dos conservadores de plantão. ‘’Eu acho tudo isso maravilhoso. A gente tem que ser feliz, namorar com quem a gente quiser, transar com quem a gente quiser. O amor ele tem que ser totalmente livre’’, declara. Estamos com você, Maria: Viva o Amor!

 

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