Maria Flor fala sobre maternidade, saúde mental e, nos palcos, vive a dor de uma mãe que vê o filho com depressão


Em cartaz com ‘O Filho’, peça que lança luz sobre a depressão na adolescência e os impactos do sofrimento emocional dentro das famílias, Maria Flor fala sobre como a maternidade transformou radicalmente sua forma de enxergar a vida, os afetos e a si mesma, reflete sobre os desafios de impor limites e lidar com as frustrações do filho, aborda a importância da saúde mental e da psicanálise em sua trajetória e relembra a crise que quase levou ao fim de seu casamento com o psicanalista Emanuel Aragão, experiência que inspirou o livro ‘O Amor Ainda É Possível?’: “O amor é uma construção, não é algo que acontece. Estamos construindo o nosso há 11 anos. Dá muito trabalho, não é fácil, não é simples. É trabalho diário”

*Por Brunna Condini

Para Maria Flor, a maternidade foi um divisor de águas que passou a influenciar todos os aspectos da sua vida. Mãe de Vicente, de 4 anos, fruto do casamento com o psicanalista Emanuel Aragão — união que, após uma crise recente, deu origem ao livro ‘O Amor Ainda É Possível?’, lançado no início de junho —, a atriz afirma que a chegada do filho transformou radicalmente sua forma de enxergar o mundo, os afetos e até a si mesma. Ela descreve a experiência como um profundo deslocamento do próprio centro. “A maternidade muda tudo. É um luto narcísico mesmo, não sou a pessoa mais importante da minha vida, não sou a minha prioridade, a minha maior preocupação. Isso se distância e se aproxima, mas é uma mudança radical. Essa é a experiência mais importante da minha vida. Ela relativizou tudo, mudou a forma que vejo as coisas importantes e desimportantes”, afirma.

A reflexão ganha ainda mais força neste momento da carreira. Em cartaz com ‘O Filho’, do premiado dramaturgo francês Florian Zeller, em São Paulo, até 5 de julho, Maria interpreta uma mãe que acompanha de perto o sofrimento emocional do filho adolescente. Um papel que, inevitavelmente, dialoga com os medos, vulnerabilidades e aprendizados que a própria maternidade trouxe para sua vida. Sob direção de Léo Stefanini, a peça acompanha Nicolas, um jovem de 16 anos que enfrenta um quadro de depressão e tenta reencontrar sentido para a própria existência, enquanto sua família busca compreender e lidar com sua dor. Ao viver uma mulher que assiste ao sofrimento do filho sem conseguir protegê-lo completamente, Maria admite que a experiência tem sido emocionalmente intensa. “Acho que qualquer mãe que vê seu filho assim, sofre, se desespera. Como mãe, é uma experiência dolorosa ter que experimentar essa angústia. Mas como atriz, é um exercício bom visitar esses lugares emocionais. Acredito que o teatro, a arte, tem esse objetivo, destacar, iluminar assuntos difíceis e que precisam da nossa atenção, do nosso olhar atento”.

Maria Flor fala sobre maternidade, amor, saúde mental e a dor de viver uma mãe que vê o filho em sofrimento na peça 'O Filho' (Foto: Jorge Bispo)

Maria Flor fala sobre maternidade, amor, saúde mental e a dor de viver uma mãe que vê o filho em sofrimento na peça ‘O Filho’ (Foto: Jorge Bispo)

Amor como construção

Além da maternidade, Maria Flor também falou sobre outra experiência transformadora de sua vida: o casamento com Emanuel. A visão madura que a atriz compartilha hoje sobre o amor foi construída também a partir de uma experiência muito pessoal. Após atravessarem uma crise, ela e o psicanalista decidiram trocar cartas durante cerca de seis meses como forma de retomar a escuta e o diálogo. O processo, que exigiu coragem para enfrentar silêncios, mágoas e questões difíceis, acabou dando origem ao livro ‘O Amor Ainda É Possível?’. Na obra, o casal transforma uma correspondência íntima em uma reflexão sobre os desafios das relações contemporâneas, defendendo que o amor não é um sentimento pronto, mas uma construção diária feita de presença, escuta e disposição para continuar escolhendo o outro.

O amor não é algo que apenas acontece. Estamos construindo o nosso nesses 11 anos. Dá muito trabalho, não é fácil, não é simples. É trabalho diário. Passamos por uma crise muito grande, a gente quase se separou. E daí vieram as cartas e o livro a partir delas. Esse processo foi muito importante para o nosso casamento, e para nós individualmente. Acho que fazer algo junto, inventar aventuras, é muito importante para a relação – Maria Flor

Maria Flor e Emanuel Aragão escreveram ‘O Amor Ainda É Possível?’, que transforma correspondência íntima em reflexão sobre as relações (Foto: Reprodução/Instagram)

Maria Flor e Emanuel Aragão escreveram ‘O Amor Ainda É Possível?’, que transforma correspondência íntima em reflexão sobre as relações (Foto: Reprodução/Instagram)

Aos 42 anos,  olhando para a mulher que era no início da vida amorosa, a artista reconhece o quanto mudou. “Me transformei em relação à ideia da construção de uma relação. Teve a quebra do amor romântico como fantasia, a quebra da idealização. Tudo isso fui aprendendo. Sou muito diferente agora do que era nas minhas primeiras experiências amorosas”. E divide como a crise no casamento culminou na troca de cartas que deu origem ao livro:

A gente precisava parar e se escutar. Não estávamos conseguindo nos entender. Isso só desencadeava brigas e rancor e coisas não ditas. Silêncios terríveis. E aí veio a ideia das cartas. Era uma forma de ouvir realmente, ler e tentar entender o outro. Me colocar no lugar dele, elaborar o que ele estava dizendo e aí responder, não apenas responder no calor do momento, na raiva, na frustração. Foi muito legal. Eu recomendo, mas mexemos em muitos buracos, cavucamos mesmo. Tem que ter coragem e abertura para ouvir coisas duras e difíceis. Mas agora que passou e virou livro, é emocionante que tenhamos chegado aqui mais fortes e mais maduros – Maria Flor

“Me transformei em relação à ideia da construção da relação. Teve a quebra do amor romântico como fantasia, a quebra da idealização. Tudo isso fui aprendendo" (Foto: Jorge Bispo)

“Me transformei em relação à ideia da construção da relação. Teve a quebra do amor romântico como fantasia, a quebra da idealização. Tudo isso fui aprendendo” (Foto: Jorge Bispo)

Hoje, ela acredita que relações duradouras dependem de equilíbrio entre proximidade e autonomia. “É preciso não se misturar totalmente ao outro. É claro que existe uma fusão em algum campo, mas ela não pode ser total, tem que existir individualidade. Tem que ser um projeto de liberdade mútua a relação e não uma fusão completa do outro. Mas não é simples de fazer. A gente quer o outro para si. Então é novamente trabalho e escuta”. Quando questionada sobre a maior demonstração de amor que recebeu ou ofereceu, sua resposta foi simples e direta: “Ouvir, tentar entender, estar presente, não estar com o celular na mão enquanto conversa”. E aproveitou para se declarar para Emanuel : “Obrigada por compartilhar a vida comigo e por me acompanhar nessa aventura terrível e maravilhosa que é viver”.

Saúde mental em cena

Montada em diversos países e considerada uma das obras mais impactantes de Zeller, , ‘O Filho’ lança luz sobre a depressão na adolescência e sobre a dificuldade que muitas famílias enfrentam para reconhecer sinais de sofrimento emocional. Para a atriz, apesar dos desafios que ainda existem, a saúde mental passou a ocupar um espaço mais legítimo no debate público. “O sofrimento psíquico se tornou algo comum, que acontece com todos nós. Não é mais um tabu, não é frescura, é real. Claro que as pessoas ainda podem ver com desconfiança. Estou falando de uma classe privilegiada que consegue pagar e pode ter acesso a esse tipo de serviço que é a terapia e a psicanálise, mas acredito que a dor humana, e a possibilidade de encarar essa dor como algo que precisa de atenção, que precisa ser tratado, está em pauta. E isso é importante para todos nós como sociedade. Faço análise há anos. É algo que tem uma importância enorme na minha vida e me ajudou muito. Sou casada com um psicanalista e o tema também é muito presente na minha vida e na minha casa”.

Gabriel Braga Nunes, Andreas Trotta e Maria Flor estão em 'O Filho' (Foto: Ronaldo Gutierrez)

Gabriel Braga Nunes, Andreas Trotta e Maria Flor estão em ‘O Filho’ (Foto: Ronaldo Gutierrez)

A própria experiência de criar um filho fez com que a atriz refletisse mais profundamente sobre limites, proteção e frustração, temas que também atravessam a narrativa da peça.

É muito difícil criar alguém. É duro ter que dar limites, ter que frustrar aquela pessoa que você quer que seja só feliz, mas isso não é a vida. A frustração, o desconforto, o tédio, tudo isso é importante experimentar, aprender a lidar, aprender a conviver. Sou uma mãe que tem dificuldade em dizer ‘não’, em frustrar ele. Às vezes por preguiça, as vezes por praticidade, mas tenho aprendido, tenho me esforçado. Aprendo o tempo todo educando o Vicente, aprendo a me frustrar também em relação a projeção que faço e fiz dele. Ele é como é. Como lidar com o que ele apresenta como personalidade e desafio? Olhar para o filho que se tem, entender as potências e as impossibilidades dele, as fraquezas, as dificuldades. É um universo enorme. Erro, aprendo, tento novamente – Maria Flor

Gabriel Braga Nunes, Andreas Trotta e Maria Flor em cena. "“É muito difícil criar alguém. É duro ter que dar limites, ter que frustrar aquela pessoa que você quer que seja só feliz", afirma a atriz

Gabriel Braga Nunes, Andreas Trotta e Maria Flor em cena. ““É muito difícil criar alguém. É duro ter que dar limites, ter que frustrar aquela pessoa que você quer que seja só feliz”, afirma a atriz