*Por Brunna Condini
No ar na novela das seis da Globo ‘A Nobreza do Amor’, e se preparando para a estreia, dia 12, no Rio de Janeiro, com a comédia solo ‘Dona Lola’, Marcelo Médici vive um momento em que, por meio dos personagens, dá voz ao que o atravessa profundamente, embalado pela leveza do humor que marca seu trabalho nos últimos anos. “Mas não me considero um humorista, me considero um ator. O humor me escolheu. Nunca imaginei fazer humor, foi onde consegui trabalho”, diz Médici, que completa 35 anos de carreira.
Para ele, o humor é um caminho de comunicação e permanência: “Se ninguém rir, conto a história. Porque eu não sei fazer esse humor da graça pela graça. O riso é consequência. O que me interessa é o que está sendo dito, é a verdade daquilo. Se vier a risada, ótimo, mas ela não pode ser o único objetivo”. Médici também tem consciência clara sobre o que quer, e o que não quer, fazer em cena: “Nunca gostei do humor que usa características físicas da outra pessoa de forma depreciativa, por exemplo. Além disso, ele precisa acompanhar o seu tempo. Certamente já fiz coisas que hoje não seriam mais aceitas. Mas esse cancelamento retroativo é perda de tempo. É preciso aprender sempre”.
No palco, o ator mergulha em memórias afetivas para dar vida a uma personagem inspirada em mulheres que marcaram sua trajetória; na TV, interpreta padre Viriato, um homem que diz o que muitos evitam. Dois registros distintos que revelam o mesmo impulso: fazer trabalhos em que acredite. E diz ainda, que se dependesse do padre que interpreta, o recado para o tempo em que vivemos viria sem rodeios:
As pessoas estão falando demais e ouvindo de menos. Talvez falte silêncio, falte escuta, até de si mesmas. É preciso empatia, trocas reais – Marcelo Médici

Marcelo Médici no palco e na TV: no solo ‘Dona Lola’ e na novela, transforma afeto, memória e tempo em humor com verdade (Foto: Jairo Goldflus)
É desse mesmo lugar, entre o riso e o que pulsa mais fundo, que nasce ‘Dona Lola’, sua segunda comédia solo, depois de duas décadas de sucesso com ‘Cada Um Com Seus Pobrema (sic)’. No novo espetáculo, Marcelo parte de uma figura aparentemente comum: uma dona de casa que vira fenômeno nas redes sociais, para acessar temas como envelhecimento, amizade, ausência e afeto. Mas o ponto de partida é também um nome carregado de história: Dona Lola era o nome de sua avó. E, ainda que a peça não seja uma biografia, foi impossível dissociar criação e memória. “Não é uma peça sobre a minha avó, mas quando surgiu o nome, ficou impossível não abrir essa porta”, conta.
A partir daí, o que se constrói em cena é um cruzamento entre ficção e verdade, atravessado por experiências muito pessoais. “Não estou fazendo a minha avó no teatro. É uma peça. É um misto de situações. E aí tem umas histórias que são reais. As mais absurdas são reais. Tem a dramaturgia também”, explica. “Claro que quem conheceu minha avó e vai assistir fala: ‘Marcelo, em alguns momentos, é o jeito da tua avó’. Eu mesmo, quando vi, estava usando expressões dela. É impossível isso não vir à tona”.

Marcelo Médici estreia no Rio a comédia ‘Dona Lola’, inspiração e homenagem à avó (Foto: Caio Galucci)
Essa abertura afetiva não acontece por acaso. Marcelo foi criado por duas mulheres que, como ele mesmo define, moldaram não só sua vida, mas também seu olhar. Sua mãe, Henriqueta, que faleceu em 1999, e a avó, Lola, que partiu em 2008, são presenças estruturantes nesse processo. “Aí mudou tudo, porque abriu-se o portal do afeto, de lembranças, de pessoas, porque eu fui criado e profundamente influenciado por elas”, diz.
“Minha avó era aquela mulher potente, que passou por milhões de coisas ali segurando a onda com uma força que nunca vi igual. Minha mãe e ela eram muito amigas, cúmplices, era bonito de ver. Tanto, que na peça, pensei que não conseguiria honrar essa questão de colocar o nome da minha avó se eu não falasse da minha mãe e não falasse da perda. É uma passagem da peça, não pesa, mas está ali. Na verdade, esse espetáculo é uma homenagem às mulheres”.
Minha mãe morreu de mãos dadas comigo, estivemos juntos até o fim. E sinto que minha avó só se permitiu partir quando eu já estava encaminhado na profissão – Marcelo Médici

Marcelo Médici como ‘Dona Lola’: memória afetiva (Foto: Caio Galucci)
E é justamente dessa experiência íntima que nasce a conexão com o público. Ao colocar em cena histórias que são suas, Médici ativa memórias que não são só dele. “As pessoas mandam os depoimentos mais bonitos possíveis: dizem que lembraram da avó, da mãe, de amigas, de tias. Fui na minha verdade, histórias, no que acredito, e isso gera identificação”.
A instabilidade da carreira e a criação nos afetos
Se no palco Marcelo Médici parte do afeto para criar, na vida profissional ele não romantiza o caminho. Com mais de três décadas de carreira, o ator fala abertamente sobre a instabilidade da profissão e a sensação constante de recomeço:
Não me sinto nem um pouco seguro. No Brasil, ao terminar um trabalho, você sempre volta para o final da fila – Marcelo Médici
A realidade do teatro, especialmente sem patrocínio, também entra nesse diagnóstico direto: “Está bem complicado fazer teatro sem incentivos. Não é fácil encher um teatro de 400 lugares”. Mesmo com reconhecimento e trajetória consolidada, ele relativiza qualquer ideia de estabilidade: “Você pode ganhar prêmio, lotar teatro, e depois te oferecem um papel pequeno na TV. É uma grande bobagem você achar que está confortável na profissão”.

“Na verdade, esse espetáculo é uma homenagem à mulheres” (Foto: Jairo Goldflus)
Esse lugar de contenção na vida real encontra um contraponto na televisão. Em ‘A Nobreza do Amor’, o ator vive o padre Viriato, personagem que, ao contrário dele, não mede palavras. “Ele é o cara que fala o que deve ser dito. Está do lado certo”, resume.
A identificação vem justamente daquilo que, fora da ficção, Marcelo costuma conter: “Me reconheço muito. Na vida hoje, por conta de tanta patrulha nas redes, por exemplo, me seguro muito para não falar o que penso sobre certos assuntos, porque não vale a energia. Existe um desgaste que não estou a fim de passar”. Em cena, no entanto, essa trava desaparece, e o personagem ganha força exatamente por isso. “Ele fala coisas que ninguém mais pode dizer, é uma liberdade grande para criar. Estou feliz com o papel. Nunca me imaginei vivendo um padre, e esse tipo de padre”.

Marcelo Médici como padre Viriato em ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Divulgação/Globo)
O tempo em cena
Se ‘Dona Lola’ nasce da memória, ela também aponta para o agora, e para o que ainda está por vir. Ao colocar uma mulher mais velha no centro da narrativa, o ator amplia o olhar sobre o envelhecimento e questiona ideias que já não se sustentam. “Mudou tudo. Uma pessoa de 75 anos, 80 anos, não está mais em casa, presa, pode estar muito ativa ainda”, observa. Mais do que isso, ele propõe um deslocamento de perspectiva: “Quero falar do lado bacana, do lado legal, de como uma pessoa de idade se diverte”. Em cena, o tempo deixa de ser limite para se tornar potência, algo que também atravessa sua própria trajetória. “Estamos vivendo mais, então a vida tem que se ressignificar muitas vezes”. Aos 54 anos, ele reconhece que a percepção mudou: “Antes eu falava ‘não tenho idade’, hoje eu falo ‘já não tenho mais idade’”.
Essa reflexão sobre o tempo se amplia para o modo como ele observa o mundo ao redor. “Envelhecer não me assusta, o que me assusta é a falta de interesse da juventude pelo que veio antes. As pessoas acham que tudo começa nelas”, diz. Ele também lamenta o endurecimento no comportamento coletivo:
O mundo encaretou muito, o que é uma pena à esta altura – Marcelo Médici

“Não me sinto nem um pouco seguro. No Brasil, ao terminar um trabalho, você sempre volta para o final da fila” (Foto: Jairo Goldflus)
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