Kelzy Ecard celebra a vida em nova peça, fala da jornada pós-câncer e homenageia Preta Gil: “Parte de nós foi com ela”


Em remissão após enfrentar um câncer de mama, a atriz estreia o espetáculo ‘Terminal’. Em entrevista exclusiva, Kelzy fala do projeto que aborda a incomunicabilidade, ressentimentos e o amor como âncora. “Sou adicta do amor. É o que nos move em direção ao outro e à gente mesmo”, salienta. Reflete ainda, sobre a arte como âncora, afetos e a força de seguir. Compartilha aprendizados e presta tributo à Preta Gil

*Por Brunna Condini

“Sou muito grata à oportunidade de permanecer. Me pego às vezes quase sem acreditar que ainda estou aqui”. A fala de Kelzy Ecard carrega a leveza e a profundidade de quem atravessou uma jornada difícil e aprendeu a viver o presente com mais consciência. Ano passado, a atriz concluiu o tratamento para um câncer de mama. Desde então, tem ressignificado a vida em todas as suas frentes: pessoais, afetivas e profissionais. A oito dias da despedida de Preta Gil — artista que enfrentou a mesma doença com coragem e generosidade — Kelzy homenageia a força de sua trajetória, mas faz um alerta sobre a romantização das palavras. “Não me identifico com essa expressão ‘vencer o câncer’. Isso coloca a gente em uma posição de disputa com algo que, muitas vezes, está além do nosso controle. O caso da Preta nos mostra isso com clareza. Estamos de luto. Uma parte de nós foi junto com ela”.

Aos 60 anos, cheia de planos, saúde e desejo, Kelzy se prepara para a estreia da peça ‘Terminal’, no dia 14 de agosto, no Teatro Firjan SESI Centro, no Rio de Janeiro. No espetáculo, ao lado do ator Gustavo Vaz, ela vive uma atriz em processo de separação, ensaiando com o ex-companheiro uma peça sobre o reencontro entre mãe e filho. No espetáculo, o que se revela é um delicado mosaico de incomunicabilidade, ressentimentos e amor, sentimento que, para ela, segue sendo a âncora de tudo:

Sou adicta do amor. É o que nos move em direção ao outro e à gente mesmo – Kelzy Ecard

Ao HT, Kelzy fala sobre o novo projeto, a importância da arte, a travessia da doença, a partida de Preta Gil e o que aprendeu ao permanecer.

Kelzy Ecard estreia ‘Terminal’ dia 14 de agosto e fala ao HT sobre arte, a travessia após encerrar tratamento contra o câncer de mama, e o que aprendeu ao permanecer (Foto: Nil Caniné)

Kelzy Ecard estreia ‘Terminal’ dia 14 de agosto e fala ao HT sobre arte, a travessia após encerrar tratamento contra o câncer de mama, e o que aprendeu ao permanecer (Foto: Nil Caniné)

Amor e arte como âncoras

Terminal’, espetáculo dirigido por Cesar Augusto, fala sobre incomunicabilidade, ressentimentos, e o amor como âncora. “O amor é o que  nos faz ter compaixão, empatia, nos agrega, nos fortalece individual e coletivamente”, observa. A arte também teve um papel essencial em sua recuperação. Kelzy conta que voltou a trabalhar ainda durante o tratamento e credita ao ofício — e ao filho Pedro, de 22 anos — parte fundamental de sua cura. “Desde o tratamento, já são duas peças, dois filmes e uma novela (‘Dona Beja‘, trama da HBO Max, que estreia em 2026) . Tive que voltar, não só pela importância emocional que o trabalho tem pra mim, mas também pela questão financeira. Um paciente de câncer, que é autônomo, se não tiver uma reserva, faz como?”, questiona. Para ela, estar em cena, cercada de afeto e sentido, foi outra âncora em meio do caos.

Terminal’ fala sobre reconstrução de vínculos, de verdades e afetos. Essa experiência dialoga com o que você viveu pessoalmente?

Sim, sempre, ainda mais depois de passar por episódios tão difíceis na minha vida pessoal. Nessas situações limite as pessoas revelam quem são, algumas se afastaram, o que me trouxe muita dor, mas outras se mostraram tão solidárias e companheiras! Houve uma verdadeira revolução nas minhas relações afetivas – Kelzy Ecard

Em 'Terminal', Gustavo Vaz e Kelzy Ecard interpretam um casal de atores em processo de separação que ensaia uma peça sobre o reencontro entre mãe e filho (Foto: Nil Caniné)

Em ‘Terminal’, Gustavo Vaz e Kelzy Ecard interpretam um casal de atores em processo de separação que ensaia uma peça sobre o reencontro entre mãe e filho (Foto: Nil Caniné)

Em mais de 30 anos de carreira, a atriz reflete sobre o que ainda a instiga quando sobe no palco: “É engraçado, mas a cada trabalho sinto um recomeço, não tenho essa sensação de tanto tempo. Ainda sinto o mesmo frescor de quando comecei. E sigo acreditando no poder agregador e transformador do teatro, cada vez mais. É alimento para minha alma. O mundo está muito fragmentado, acelerado, precisando de reconexões, o teatro é um lugar mágico para esse exercício coletivo de humanidade”.

Tornar público para fortalecer caminhos

Hoje em remissão, Kelzy só tornou público o fim do seu tratamento em maio de 2024, através das redes sociais. Sobre a jornada de Preta Gil, que enfrentou um tratamento contra o câncer colorretal por quase dois anos — o segundo tipo de câncer mais comum entre as mulheres no Brasil, ficando atrás apenas do câncer de mama — a atriz reflete: “Preta foi muito corajosa e generosa em compartilhar seu tratamento, isso não é nada fácil. Estar tão exposta e frágil ao mesmo tempo… isso revela a mulher extraordinária que ela foi e continua sendo, inspiração para muita gente. Realmente não me identifico com a expressão ‘venci o câncer’, porque ela nos coloca em posição de competir com uma doença que para cada um é diferente. E não depende só do acesso ao tratamento, ou vontade de viver — o caso da Preta nos prova isso — mas de vários outros fatores que a ciência ainda está buscando descobrir”.

Agora escolho manter por perto os amores. E longe os ressentimentos. A vida é urgente, maravilhosa e frágil. Quero trabalhos e afetos que signifiquem e inspirem – Kelzy Ecard

"Realmente não me identifico com a expressão 'venci o câncer', porque ela nos coloca em posição de competir com uma doença que para cada um é diferente" (Foto: Nil Caniné)

“Realmente não me identifico com a expressão ‘venci o câncer’, porque ela nos coloca em posição de competir com uma doença que para cada um é diferente” (Foto: Nil Caniné)

Ao pensar nas transformações dos últimos anos, a artista elabora. “Depois de passar por uma doença grave, a vida realmente ganha urgência e outros significados. É a certeza de que tudo pode mudar a qualquer momento, então viver o agora com leveza e paixão é o que podemos fazer. Acabei de fazer 60 anos e, como ganhei outra oportunidade de viver, envelhecer está sendo uma bênção”. E avisa:

Estou cheia de energia e projetos. Sigo me cuidando bastante para continuar saudável e poder dar vazão a todos os meus sonhos e desejos – Kelzy Ecard