“Já vi muita humilhação”: Rodrigo Fagundes expõe bastidores e cobra respeito em relação ao trabalho de figurantes


“Atualmente, as pessoas estão revendo a forma de tratar as outras. Trabalhei com diretoras que conhecem todos os figurantes pelo nome, e esse respeito deveria ser o mínimo. Quando você coloca humanidade no trabalho, tudo flui melhor. Não é romantização nem discurso vazio, mas o resultado aparece”, diz o ator que vive um momento singular ao estar em cartaz com dois espetáculos simultaneamente, algo inédito em sua carreira: “Comecei o ano com “O Formigueiro”, em nova temporada, e também “Os Figurantes… E Depois?”. Paralelamente, relembra seu último trabalho na televisão, em “Volta Por Cima”. O teatro, nesse momento, ocupa o centro de sua vida profissional, enquanto o retorno às novelas ainda aguarda definição

*por Vítor Antunes

Por muitos anos, acreditou-se que o dever do figurante era apenas o de permanecer invisível, funcionando como moldura silenciosa para que o ator principal pudesse brilhar. A figuração existia para não existir: ocupar o quadro sem disputar atenção, preencher o fundo da cena sem jamais reivindicar sentido próprio. Nesse arranjo tácito — e raramente questionado —, figurantes eram tratados como peças substituíveis, frequentemente alvo de desdém por parte de atores e diretores. Se não era regra, tampouco era exceção. Esse cenário começou a se transformar lentamente. Hoje, se o maltrato não desapareceu por completo, tornou-se menos tolerado, mais vigiado, menos naturalizado. É sob essa mudança de eixo — ética, simbólica e prática — que se apoia o espetáculoOs Figurantes… E Depois?”, estrelado por Rodrigo Fagundes, Bia Guedes, Carol Cezar, Hugo Germano e Tati Infante. A peça parte da margem para olhar o centro, deslocando o foco tradicional do palco e propondo uma inversão simples, mas potente: e se aqueles que sempre estiveram ao fundo passassem a ocupar a linha de frente?

Rodrigo localiza essa virada menos em discursos e mais em práticas cotidianas. Segundo ele, hoje “há uma relação mais saudável nessas hierarquias. Hoje tudo é muito mais policiado em relação ao assédio moral. Eu já vi muita humilhação. Atualmente, as pessoas estão revendo a forma de tratar as outras. Trabalhei com diretoras que conhecem todos os figurantes pelo nome, e esse respeito deveria ser o mínimo. Quando você coloca humanidade no trabalho, tudo flui melhor. Não é romantização nem discurso vazio, mas o resultado aparece. É impressionante como isso chega melhor para quem está assistindo”.

Rodrigo Fagundes relembra que já foi figurante no início da carreira (Foto: Sérgio Baía)

A peça nasce justamente desse olhar atento para o que antes passava despercebido. Não se trata de um panfleto, nem de uma correção de rumos didática, mas de uma operação mais sutil: rir, criticar e homenagear ao mesmo tempo. Como explica o ator, “nessa montagem, é uma brincadeira, uma crítica e uma homenagem. Estamos dando protagonismo a pessoas que estão sempre nos bastidores. E não só no meio artístico: isso vale para a vida. Às vezes somos protagonistas, às vezes coadjuvantes, às vezes figurantes. Há gente que nem é do meio artístico e se identifica de outra forma”.

Hoje, às vezes, eu mesmo me sinto figurante no meu trabalho, sem saber me colocar ou sem receber oportunidades. A peça mostra que a vida é um carrossel: uma hora você está em uma posição, depois está em outra – Rodrigo Fagundes

O ator não fala do lugar da abstração. Antes de ocupar o centro da cena, ele próprio passou pelo fundo do quadro. Relembra que já foi figurante quando ainda era estudante de teatro, experiência que ajudou a moldar sua percepção sobre hierarquias, visibilidade e frustração no audiovisual brasileiro. “Quando eu ainda estudava na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), fiz figuração em um filme da Rosane Svartman, “Como Ser Solteiro” (1998). Eles foram até lá para recrutar alunos; eu estava no primeiro ano da CAL. Passei uma noite inteira filmando, feliz da vida, fazendo um garçom. Quando fui assistir ao filme no cinema, meses depois, só aparecia o meu corpo: minha cabeça tinha sido cortada. Na época, fiquei muito triste, mas aquilo também foi um choque de realidade”.

Rodrigo Fagundes relembra já ter experiencado maus tratos a figurantes (Foto: Sérgio Baía)

A cena — ou melhor, a ausência dela — funciona como um rito de passagem silencioso. O entusiasmo juvenil dá lugar à compreensão precoce de que, naquele universo, nem sempre o esforço se converte em reconhecimento. A figuração, muitas vezes celebrada como porta de entrada, também pode ser um espaço de apagamento. O aprendizado, nesse caso, veio pela falta: estar ali, mas não ser visto.

Anos depois, já inserido no circuito profissional, ele voltaria a conviver de forma intensa com esse universo nos bastidores do Zorra Total, onde trabalhou por quase uma década. O programa mantinha uma claque fixa — prática comum em atrações humorísticas e sitcoms, responsável por criar uma atmosfera artificial de riso e entusiasmo durante as gravações. “Trabalhei no Zorra Total por nove anos e acompanhei de perto o trabalho da claque. É um tipo de função que envolve muitas pessoas, geralmente figurantes mais velhos, que gostam de estar ali, perto dos artistas. É um trabalho agradável para eles. Não são tão bem remunerados, eu acho, mas se divertem.”

O primeiro contato com aquele grupo foi marcado por estranhamento. “Na primeira vez que entrei no estúdio para gravar o Zorra, eu não sabia o que era claque. Eles ficavam em uma salinha montada dentro do estúdio e, quando fizeram barulho, eu me assustei e me atrapalhei. Fui até lá para ver o que era. Aí o Maurício Sherman (1931–2019) perguntou: ‘O que foi?’. Eu respondi: ‘Que barulho é esse?’. Ele disse: ‘É a claque’. Fui lá conhecer. Todo dia eu ia falar com eles. O Chico Anysio (1931–2012) também falava com eles todos os dias, na época em que gravava seus programas. Eram pessoas que ficavam muito felizes, geralmente mais velhas, moradoras ali perto de Curicica. Ganhavam uma diária, comida e ficavam ali vendo os artistas e rindo.”

Rodrigo FAgudes, quando fez o programa “Zorra” flagrou-se diante da claque, recurso hoje pouco usado (Foto: Sérgio Baía)

O relato desmonta a imagem puramente técnica da claque e revela um microcosmo afetivo, quase comunitário, sustentado menos pelo pagamento e mais pela proximidade simbólica com o espetáculo. Para muitos daqueles figurantes, estar ali era uma forma de pertencimento — ainda que lateral — a um universo que sempre consumiram à distância.

Ao refletir sobre formação e carreira, o ator rejeita a ideia, bastante difundida no passado, de que quem entra pela porta da figuração está condenado a permanecer nela. Para ele, essa lógica perdeu força em um mercado mais fragmentado e menos linear. “Acho que é uma lenda querer criar uma regra única. Cada um tem sua história. Hoje é muito complicado estabelecer fórmulas, porque o mundo é muito maleável. Não acho que isso limite ninguém. Tudo depende do objetivo. Se você quer ser ator, acho que tem que fazer teatro. Primeiro, você precisa ler, estudar, fazer ao menos um curso de teatro, que considero o básico. Depois, pode sonhar com a televisão. Você pode até querer fazer mais TV do que teatro, mas, se não passar pelo teatro e quiser entrar na televisão apenas para aparecer, a oportunidade pode ser limitada. A beleza pode facilitar a entrada, mas não garante a permanência. Cada um pode construir sua própria história, dependendo do que deseja como objetivo.”

Fiz quatro novelas e, por isso, conviver com a figuração é algo muito natural para mim. Para eles, aquilo parece uma espécie de Disney. Ver uma Betty Faria passando, um Marcos Caruso passando, provoca encantamento. São pessoas que eles cresceram vendo na televisão. Entre os mais jovens também existe esse deslumbramento, essa felicidade. Nunca vi nada inconveniente – Rodrigo Fagundes

Rodrigo Fagundes fala sobre personagem de ‘Volta por Cima” e do desgaste de seu personagem no Zorra: “Não faria” (Foto: Sergio Baia)

PRESENTE E A GLÓRIA 

O ator atravessa um momento raro de sobreposição — não apenas de agendas, mas de sentidos. Está em cartaz simultaneamente com dois espetáculos, situação inédita em sua trajetória e que ele descreve com uma mistura de surpresa e entusiasmo. “Estou em cartaz com duas peças. Nunca fiz isso na minha vida e estou muito feliz. Comecei o ano fazendo dois trabalhos: “O Formigueiro”, que já está em nova temporada e que eu fiz no ano passado”.

O teatro, nesse momento, ocupa o centro de sua vida profissional, enquanto o retorno às novelas ainda aguarda definição. O último trabalho na televisão foi em Volta Por Cima, produção que acabou se tornando também um acontecimento íntimo. Nos bastidores da novela, ele estabeleceu uma relação de forte afeto com Betty Faria — vínculo que, aos poucos, assumiu contornos quase maternais e atravessou o limite do set para tocar memórias profundas de sua própria história familiar.

“Minha mãe era cabeleireira. Tinha um salão em Juiz de Fora, nos anos 1980. Em 1986 passou a minissérie Anos Dourados. A personagem da Betty Faria, a Gloria, era uma mulher desquitada — era esse o termo usado na época. Em casa, a relação entre minha mãe e meu pai era muito difícil. Ele era um homem abusivo, muito violento verbalmente. Não chegava à agressão física, mas o ambiente era um inferno. Eu e meus irmãos pedíamos para que minha mãe se separasse, mas ela tinha medo.”

Rodrigo Fagundes e sua mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

A memória avança para as noites em frente à televisão, quando a ficção oferecia, ainda que de forma indireta, uma espécie de respiro. “Lembro de assistir a Anos Dourados à noite e de como minha mãe ficou apaixonada pela personagem da Betty Faria, a Glória. Ela já imitava os cabelos da atriz desde Pecado Capital. Como era cabeleireira, eu cresci cercado por fotos da Betty e de outras atrizes, recortes da Manchete espalhados pelo salão.”

Em 2021, essa memória ganhou uma outra camada. “Em 2021, minha mãe faleceu de covid. Foi tudo muito repentino, em cinco dias, uma tragédia na minha vida.” A perda abrupta interrompeu qualquer possibilidade de elaboração lenta do luto. O tempo, no entanto, trataria de criar suas próprias ironias narrativas. “Três anos depois, fiquei sabendo que iria contracenar com a Betty Faria em uma novela. No início, eu seria irmã da personagem; depois, virei filho. Quando soube, pensei: ‘Meu Deus do céu, a vida é muito louca’.”

O encontro em cena passou a carregar um peso simbólico impossível de ignorar. “Brinco dizendo que foi minha mãe quem proporcionou esse encontro. Eu e ela contracenamos quase dia sim, dia não.” Entre texto e subtexto, o trabalho tornou-se também uma forma inesperada de reencontro — não com a mãe, propriamente, mas com aquilo que ela admirava, projetava e sonhava.

“São pessoas de quem eu gosto de estar perto. Cresci vendo esses atores e, antes de tudo, sou admirador deles. Eles têm um comprometimento com a profissão que é bonito de ver. Chegam para gravar a novela tendo lido todos os capítulos. Sabem tudo o que vai acontecer na semana. Recebemos os blocos semanalmente, e eles leem tudo, não apenas as próprias cenas. Hoje em dia, com a correria, muita gente não faz isso. Eles conhecem a novela inteira – Rodrigo Fagundes

Rodrigo Fagundes, Betty Faria, Drica Moraes e Fábio Lago em “Volta por Cima” (Foto: Divulgação)

No fim, “Os Figurantes… E Depois?” não trata apenas de teatro, televisão ou bastidores, mas de circulação de lugares — de quem ocupa o centro, de quem sustenta a cena e de quem aprende a existir mesmo quando não é visto. Ao costurar memória pessoal, ética de trabalho e reflexão social, o espetáculo transforma a figuração em metáfora cotidiana. Todos, em algum momento, passam pelo fundo do quadro. A diferença está em reconhecer esse lugar, atravessá-lo e, quando possível, iluminá-lo. Talvez seja essa a mudança mais radical: não inverter a hierarquia, mas humanizá-la.