Ítala Nandi faz primeiro solo, exalta liberdade e diz: “Nunca me importei com sucesso, queria era existir”


Em ‘Paixão Viva’, dirigida por Evaldo Mocarzel, ela revisita seus 65 anos de trajetória. Em entrevista exclusiva, Ítala fala de liberdade sexual, das dificuldades afetivas contemporâneas, de etarismo e desvalorização dos artistas veteranos e reflete: “Não sinto falta de fazer TV, sinto falta de boas personagens, estejam elas onde estiverem. Nunca interpretei uma personagem que não gostasse. Fiquei 10 anos na Record e fiz coisas excelentes por lá. Me agradaria voltar à televisão com uma bela personagem. Mas não vou ficar chorando por causa disso. Tenho trabalhado e produzido muito nesses anos. E tem também minha escola de interpretação. Ainda tenho muito a fazer”

*Por Brunna Condini

Aos 82 anos, Ítala Nandi segue como um farol da liberdade artística no Brasil. Com uma trajetória marcada por escolhas ousadas e um espírito libertário desde os tempos do Cinema Novo, a atriz, produtora e diretora reafirma hoje, mais do que nunca, o valor do direito individual e coletivo à expressão criativa — em um momento histórico em que ondas conservadoras, no Brasil e no mundo, tentam silenciar vozes dissonantes e limitar a potência da arte. É com esse espírito que Ìtala subiu ao palco do Teatro Poeirinha com seu primeiro solo, ‘Paixão Viva‘, revisitando 65 anos de trabalhos initerruptos no cinema, no teatro e na televisão brasileira: são mais de 20 filmes, 20 telenovelas e 30 peças. Principal figura feminina no início do Teatro Oficina, Ítala esteve na primeira e antológica montagem de ‘O Rei da Vela‘ e protagonista do primeiro nu de uma mulher no teatro brasileiro — no espetáculo ‘Na Selva das Cidades‘, em 1969. E frisa: “Fico nua para defender minhas ideias”. A atriz também acrescenta ao seu posicionamento:

A diferença dos anos 60, 70, é que buscávamos uma liberdade sexual contra a repressão. Atualmente estamos carentes é do amor. A sociedade está encurralada, violentada e todo mundo voltado para o ‘eu’. O que percebo, é que naquele período éramos mais do coletivo, do ‘nós’. Hoje as pessoas estão presas dentro delas, com uma dificuldade afetiva absurda. Vejo isso pior do que a repressão sexual anterior. Agora a carência é se relacionar. Ninguém tira mais a cara do celular, dos seus mundos. Está sendo doloroso vivenciar isso. Estão faltando valores humanos básicos – Ítala Nandi

Ítala Nandi estreia seu primeiro monólogo em 65 anos de carreira, fala de liberdade sexual hoje e das dificuldades afetivas contemporâneas (Foto: Felipe O'Neill )

Ítala Nandi estreia seu primeiro monólogo em 65 anos de carreira, fala de liberdade sexual hoje e das dificuldades afetivas contemporâneas (Foto: Felipe O’Neill )

Longe das novelas desde ‘Milagres de Jesus‘ (2015), na Record, Ìtala fala sobre etarimo, e a nosso pedido comenta o post nas redes sociais feito por Orlando Morais, marido de Glória Pires, em que ele lamenta a pequena participação da atriz no show de 60 anos da TV Globo realizado nesta segunda-feira (28). Sem contrato com a emissora desde o ano passado, Glória, que foi funcionária da Globo por 54 anos, não esteve na plateia do espetáculo e participou da celebração apenas no vídeo do ‘encontro de vilãs’. “A Globo foi injusta com você. Não falo aqui como seu amor, como seu marido. Falo como brasileiro”, escreveu. Uma reprovação à desvalorização de artistas veteranos estaria contida na crítica do músico?

Sinto esse etarismo justamente na televisão. No teatro e no cinema é diferente. Acho que a TV está meio perdida, tentando encontrar seu lugar entre o streaming, a internet…e esse etarismo, essa desvalorização, não acontece só com os atores, mas também com autores maravilhosos, que deveriam estar mais ativos, trocando experiências com os novos. Está faltando conteúdo e consistência – Ìtala Nandi

E pontua: “Não sinto falta de fazer TV, sinto falta de boas personagens, estejam eles onde estiverem. Nunca interpretei uma personagem que não gostasse. Fiquei 10 anos na Record e fiz coisas excelentes por lá. Me agradaria voltar à televisão com uma bela personagem. Mas não vou ficar chorando por causa disso. Tenho trabalhado e produzido muito nesses anos. E tem também minha escola de interpretação. Ainda tenho muito a fazer”.

Ìtala Nandi em “Paixão Viva”, em que revisita seus 65 anos de trajetória (Foto: Guilherme Scarpa)

Ìtala Nandi em “Paixão Viva”, em que revisita seus 65 anos de trajetória (Foto: Guilherme Scarpa)

Em seu último filme, ‘Clube das Mulheres de Negócios‘ (2024), de Anna Muylaert, uma sátira onde se questiona a natureza do poder e das relações de gênero, Ítala interpreta Donatela, uma das sócias de um clube de campo exclusivo frequentado por mulheres poderosas em um mundo onde os estereótipos de gênero são invertidos. Com o recente trabalho na telona, ela celebra a representatividade entre as mulheres. “Quando conversei com a Anna sobre o roteiro, quis entender porque eu era a mais velha do elenco e era a única que tinha cena de sexo no filme. Fiquei intrigada, porque haviam outras atrizes jovens para fazer esse tipo de cena. Ela me disse que eu faria a cena por conta da minha importância diante da luta pela libertação sexual das mulheres. Estamos vivendo muito mais tempo e com mais independêcia, o que é ótimo, ao mesmo tempo, para muitas mulheres com mais de 60 anos, têm pintado uma questão sexual forte. Anna entendeu que eu poderia reapresentar essa liberdade no filme, como fiz na minha juventude. Achei isso muito lindo”.

No filme da Anna Muylaert sou a mais velha e a única que faz sexo. Aliás, tem uma cena de suruba. Eu disse pra Anna: “Nunca fiz suruba na vida, não sei como é isso”. Ela se surpreendeu e falou: “Pode deixar, contratei sete rapazes que vão fazer o que deve ser feito”. Depois de quatro horas de ensaios, cena, eu estava exausta. Fiquei amiga dos meninos que me levaram no colo para o camarim (risos). Foi muito divertido – Ítala Nandi

"Estão faltando valores humanos básicos. Está sendo doloroso vivenciar isso" (Foto: Guilherme Scarpa)

“Estão faltando valores humanos básicos. Está sendo doloroso vivenciar isso” (Foto: Guilherme Scarpa)

Arte é entrega

Quando a atriz fala de sua nudez como forma de expressão, não está apenas falando literalmente — como fez em diversas performances e filmes marcantes —, mas também simbolicamente: se expõe, se entrega, se compromete com sua verdade, sem medo do julgamento alheio. Também doutora em Artes Cênicas pela UFRJ, Ítala se aprofunda sobre a falta dos valores humanos básicos hoje: “Eles foram meu objeto de estudo e são cinco: verdade, ação correta, amor, paz e a não-violência. Destes cinco derivam todos os outros. Porque os Direitos Humanos estão tão corrompidos atualmente? Porque falta a base dos valores humanos. Sem eles estamos perdidos. Discuto muito isso com meus alunos. Um artista precisa vivenciar, investigar isso”.

"A diferença dos anos 60, 70, é que buscávamos uma liberdade sexual contra a repressão existente. Atualmente estamos carentes é do amor" (Foto: Guilherme Scarpa)

“A diferença dos anos 60, 70, é que buscávamos uma liberdade sexual contra a repressão existente. Atualmente estamos carentes é do amor” (Foto: Guilherme Scarpa)

Nunca participei de movimentos feministas, embora reconheça a importância do feminismo. Mas prefiro ser libertária. Sempre caguei e andei para o sucesso, queria era existir. Se eu perseguisse o sucesso teria feito mais novelas, mais TV. O que me interessa na arte é a importância da experiência humana – Ítala Nandi

Paixão Viva

Escrito a quatro mãos por Ítala e o cineasta Evaldo Mocarzel, que também a dirige, o monólogo revisita importantes momentos da história da premiada artista gaúcha. Ela divide ainda o palco com os atores Guilherme Scarpa e Deni Paiva que a filmam em quatro cenas.”Estou viva, então eu e o Evaldo achamos que eu tinha que fazer. O difícil foi eleger o que estar em cena em um tempo limitado. Falo da importância da Campanha da Legalidade no Rio Grande do Sul, estado que nasci, em 1961, porque foi ali que entrei em contato com o teatro. Levamos nosso bom teatro amador para os bairros mais pobres, o que me deu uma visão cultural e política muito importante. Eu tinha 19 anos quando vivi isso. Foi um marco forte. Fazendo arte para o povo e não só para quem pode pagar pra ver”, recorda.

Mantenho minha paixão na vida e na arte até hoje, porque vivencio os valores humanos. Por amor. É um desejo imenso que a humanidade de humanize cada vez mais . Que os extremismos acabem e o respeito entre nós prevaleça – Ítala Nandi

"Mantenho minha paixão na vida e na arte até hoje, porque vivencio os valores humanos. Por amor" (Foto: Guilherme Scarpa)

“Mantenho minha paixão na vida e na arte até hoje, porque vivencio os valores humanos. Por amor” (Foto: Guilherme Scarpa)

“Falamos também da importância do ‘Rei da Vela‘, que fiz com o Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023) e o Renato Borghi, quando se iniciou o movimento do Tropicalismo. Tem o conhecimento do Oswald de Andrade (1890-1954), a minha primeira paixão cultural. Destacamos os anos que passei no Teatro Oficina, não só como atriz, mas como criadora, produtora. E o primeiro nu frontal do teatro, que na minha cabeça foi algo muito natural, porque o amor e o nú pra mim são uma coisa única. Mas foi um surto enlouquecido na época. E trazemos as questões do período da ditadura, a invasão do Teatro Oficina. Também revisito minha ida à Índia, sou a única que o país produziu no Brasil. Faço uma bela jornada sobre o que foi determinante nessa minha longa trajetória”.

Ítala Nandi em cena com seu monólogo 'Paixão Viva', com o amigo na vida e na arte, o saudoso Zé Celso Martinez Corrêa (Foto: Guilherme Scarpa)

Ítala Nandi em cena com seu monólogo ‘Paixão Viva’, com o amigo na vida e na arte, o saudoso Zé Celso Martinez Corrêa (Foto: Guilherme Scarpa)