Teatro & Pensata

Ismael Fiorentin atua em peça sobre a criminalização da homofobia, fala sobre carreira e processo de criação

Em cartaz com “Amar é o crime perfeito”, no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, ator comenta sobre contexto sociocultural do Brasil e disserta sobre preconceito

Publicado em 27/07/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Com Domênica Soares

Ismael Fiorentin é mais um daqueles batalhadores que se divide em muitos. Ator, produtor cultural, diretor e empreendedor, atualmente está com seu novo espetáculo em cartaz. “Amar é o crime perfeito”, peça idealizada por ele tem atraído um grande público ao Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea. Ismael conta que a história desse espetáculo e a vontade de fazê-lo acontecer já existe desde 2008, mas que, por conta de outros trabalhos e falta de incentivo financeiro, só conseguiu tirar o projeto do papel 11 anos depois. “Eu quis trazer para o palco uma peça que abordasse a questão do preconceito de modo geral, não apenas falando da homofobia, mas também sobre criminalização, questões sobre diferenças religiosas, crenças e sociedade como um todo”, pontua. 

O elenco de ‘Amar é o crime perfeito’

A trama do espetáculo se passa na Inglaterra de 1954, no contexto da criminalização das relações homoafetivas. A história, que tem pontos a serem descobertos e refletidos durante a apresentação, acompanha o reencontro de Richard e Philip, dois rapazes que se conheceram durante a Segunda Guerra Mundial. Richard está de noivado marcado com Juliet, quando Philip volta a Londres. Além disso, é importante ressaltar que as relações homoafetivas na Inglaterra, ainda que privadas, eram consideradas crime nesta época. O ator comenta que muitas reflexões são propostas e frisou que o drama teatral aborda o conflito da expressão do afeto nesse contexto preconceituoso e com isto condiciona, mas não extingue, as possibilidades amorosas. “Esta é uma peça sobre a potência de uma história de amor a enfrentar e expandir limites da percepção do ser humano sobre sua condição”.

Cleiton Morais e Ismael Fiorentin (Foto: Renato Neto)

O espetáculo conta com a direção de Paulo Trajano, texto de Thales Paradela, criação técnica por Dóris Rollemberg, figurinos by Ronald Teixeira e iluminação de Renato Machado, direção musical por Guilherme Miranda e produção executiva de Maria Galla. O elenco é composto pelo próprio Ismael Fiorentin, Cleiton Morais, Alexandre Dantas, Cláudio Pitanga, e Thales Paradela; contando com a participação especial de Maria Esmeralda Forte com mais de 60 anos de palco. O ator ainda comenta sobre a importância dos fatos históricos para a idealização da produção e divide que as conquistas já realizadas foram e são muito importantes para o cenário do qual fazemos parte hoje. “Tudo que vivemos se dá a partir dos ideias de pessoas que batalharam, lutaram e deram a vida pelas causas da sociedade. Apesar de a história se passar na década de 50, ela dialoga diretamente com o ano em que estamos vivendo”, enfatiza. 

Além do espetáculo, Ismael relembra um pouco sobre o início de sua carreira e disse que, desde os seis anos, já sabia que teria um futuro envolvido com as artes. “Sempre quis ser ator. Durante o período escolar estive à frente das peças. Já na adolescência, eu montei minha companhia de teatro no interior de Santa Catarina, onde nasci, e de lá não parei mais”, conta. Para ele, a arte é nada mais é do que uma grande reflexão e conexão com o interior de cada um, onde muitas vezes, àquelas pessoas que sempre estão online em seus celulares e e-mails, se dão um tempo para apreciar uma manifestação artística e envolvente.

“Eu vejo na arte a possibilidade de as pessoas obterem um respiro e uma força para seguir adiante. Em um mundo tão caótico no qual os seres humanos mal conseguem se comunicar pessoalmente, quando alguém pára por exemplo, durante uma hora e quinze para assistir uma peça, aquilo ali já já significa vida e aprendizado para quem consome arte”. Além disso, Ismael ainda é professor e coordenador do Curso de  Interpretação para Televisão, na Hebraica, em Laranjeiras, bairro da Zona Sul do Rio. Ele afirma que como diretor busca despertar a sensibilidade dos alunos, e já como ator, tudo muda porque ele consegue sentir na pele cada vez mais emoções diferentes assim como as dificuldades. Mesmo com a dupla função, ele comenta que não pretende abandonar em nenhuma hipótese alguma das carreiras. “É muito importante trabalhar como ator, porque alimenta a minha verve como diretor. E vice-versa”, atesta. 

O múltiplo Ismael Fiorentin (Foto: Renato Neto)

Já em relação à sociedade, ele comenta que sente que as pessoas já tiveram grandes avanços, mas que o processo é de fato muito lento. Ele cita o exemplo da criminalização da homofobia que só aconteceu em 2019 e ressalta ainda sobre as reações das pessoas com os aspectos “novos”. “Elas têm medo do novo e, às vezes, demoram para assimilar as novidades. Por exemplo: há anos atrás o divórcio era um motivo de julgamento em relação às mulheres e, hoje em dia, isso é visto como normal e direito garantido. Mas ainda muitas sentem traços de preconceito, mesmo que em um grau menor”. Além disso, o produtor reflete sobre as emoções estarem à flor da pele nos dias de hoje, e relata que, em sua opinião, apesar de muitos acharem que a sociedade está retrocedendo, apenas replete o momento de mudanças. “Tudo mexe na estrutura da sociedade e acho que aos poucos o mundo vai evoluindo”, diz esperançoso. 

Contudo, Ismael não deixa de frisar que a sociedade ainda tem resquícios de preconceito relata fatos e histórias de amigos que já foram agredidos verbal e fisicamente e que tudo isso é angustiante. Ele comenta também que todos esses fatores alimentam ainda mais seus motivos para produzir peças como a que está em cartaz, com temática que cai como uma luva ainda hoje. Para ele, levar para os palcos situações que, muitas vezes são vistas como tabu, faz parte de seu processo de evolução como ser humano, principalmente na contribuição da disseminação de ideias e ideiais. 

O ator que se considera uma pessoa persistente dá uma dica para quem está começando na carreira artística: “Trabalhar e muito!” Ele frisa que a profissão precisa de pessoas que queiram e tenham uma vontade enorme de fazer acontecer. Ressalta que a força de vontade faz toda a diferença. O ator que tem como inspirações nomes como Fernanda Montenegro, Tony Ramos, Antônio Fagundes, e mentores como Madre Tereza de Calcutá (1910-1997), Chico Xavier (1910-2002) e lembra de um grande líder: Nelson Mandela (1918-2013). “Ele foi uma grande inspiração que teve resistência, resiliência e paciência para suportar dores. Mandela teve que esperar muito tempo para conseguir continuar com sua luta. E é pura inspiração até hoje”. 

Serviço:

AMAR É O CRIME PERFEITO

Até 8 de Agosto (Curta Temporada)

Teatro Clara Nunes, Shopping da Gávea

4as-feiras e 5as-feiras – 21horas

Ingressos: R$70,00 (inteira), R$35,00 (meia)

Gênero: Drama

 

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