*por Luísa Giraldo
Ariana Grande encantou o mundo ao encarnar a bruxinha Glinda, do musical “Wicked”, nas telas do cinema, no final de 2024. Quase dez anos antes, a atriz Fabi Bang teve a vida transformada pela personagem, quando a peça da Broadway chegou ao Brasil. A protagonista não apenas alavancou a carreira da artista de 40 anos, mas reconstruiu sua autoestima profissional e pessoal. O sucesso da narrativa foi tanto que, em março deste ano, o espetáculo voltou para São Paulo e já levou milhares de pessoas ao teatro. Em entrevista exclusiva, a artista carioca desabafa sobre o desejo de trazer o musical para o Rio de Janeiro e relembra desafios até a oportunidade mágica.
Fabi conheceu “Wicked” em 2005, quando o consagrou como seu “musical favorito, antes mesmo de assisti-lo”. A atriz relembra ter se apaixonado pelas canções, especialmente “What Is This Feeling”, dueto das personagens Glinda e Elphaba — respectivamente, Kristin Chenoweth e Idina Menzel nos palcos norte-americanos. À época, a professora de música lhe mostrou as letras da peça, recém-lançada em Nova York, quando a artista pediu por treinos de voz que a desafiassem.
Grande sucesso da Broadway, a peça veio duas vezes ao Brasil: em 2016 e em 2023. No país, foram selecionados dezenas de artistas brasileiros para dar vida à narrativa. Fabi interpretou Glinda duas vezes ao lado de Myra Ruiz (Elphaba). O processo de audição foi desafiador, já que a atriz estava com uma peça em cartaz no Rio e os testes para “Wicked” ocorreram em São Paulo. Viajava de ônibus nos horários disponíveis da madrugada enquanto equilibrava o tempo de descanso e de preparação da voz.

Respectivamente como Elphaba e Glinda, Myra Ruiz e Fabi Bang protagonizam “Wicked Brasil” pela terceira vez (Reprodução/Instagram)
“Na época, não me achava capaz de interpretar nenhuma das duas protagonistas. Confesso que elas me motivaram a estudar e me preparar para grandes desafios da carreira. Glinda e Elphaba me fizeram agarrar forte o meu sonho e ir à luta”, pontua.
Fabi reconhece que, pelo fato de Glinda ter sido a sua primeira protagonista, o grande desafio do papel foi “conquistar a credibilidade e confiança que tanto batalhava”. Ela tinha sido convidada para atuar como substituta das duas protagonistas, porém escolheu se jogar de cabeça no projeto e lutar pelo papel. Os efeitos de Glinda foram impactantes para conquistar o respeito do mercado artístico brasileiro e, principalmente, ajudá-la a trabalhar sua autoconfiança.
No começo da carreira, procurava saber tudo que envolvesse o meu nome. Queria ter controle do que falavam a meu respeito. Percebi que não vou ter controle nunca. E passei a prestar atenção apenas no que chega até mim, ou seja, o público, os colegas, a família e as pessoas próximas. Eles são sinceros e não aplaudem tudo que eu faço. Erro muito e sou falível — Fabi Bang
A atriz admite se abalar quando pessoas da sua rede de apoio não aprovam seus trabalhos. A solução para lidar com as críticas foi, então, subvertê-las em formas para o aprimoramento e o enriquecimento das personagens. É por isso que descreve ser “um esforço feito a quatro, seis, oito e dez mãos”. Fabi reflete sobre as heranças deixadas pela personagem.

Fabi Bang confessa ter achado que não conseguiria o papel de Glinda em “Wicked Brasil” (Foto: Jairo Goldflus)
Glinda me ensinou a ver o mundo com mais doçura e objetividade, além de encarar os problemas com mais frieza e menos emoção. Cresci os últimos dez anos da minha vida com ela, me tornei adulta na companhia dela — Fabi Bang.
Myra e Fabi encantaram completamente os fãs, que resistem à ideia de ver outras atrizes encarnarem os papeis. Com o sucesso da adaptação de “Wicked”, Fabi Bang se deparou com uma surpresa: vídeos de suas performances musicais como Glinda viralizaram na internet. Ela entende que o espetáculo ganhou o mundo ao sair dos teatros.
“É normal aumentarem as buscas e o interesse pelo tema. Recebo um público novo como ‘herança’, uma vez que meu nome está associado a Wicked. Fico feliz com tanta gente descobrindo o meu trabalho. Nesse caso, viralizar é um sinal positivo”, avalia ela.
Wicked – O Musical
Ao atender milhares de pedidos dos fãs, “Wicked – O Musical” voltou para os palcos de São Paulo em março de 2025. A temporada tem uma montagem inédita com novos cenários, figurinos, iluminação e efeitos especiais. Os ingressos estão à venda no site Tickets For Fun.

Myra Ruiz e Fabi Bang encantam o público ao protagonizarem “Wicked Brasil” pela terceira vez (Reprodução/Instagram)
Embora esteja radiante pela oportunidade de reencarnar a personagem, Fabi Bang se sente frustrada por nunca ter conseguido trazer a apresentação para a Cidade Maravilhosa.
“Há anos, sonhamos em trazer o musical para o Rio de Janeiro. Foram várias tentativas. Infelizmente, nunca conseguimos captar incentivo. Quem sabe agora, após o apelo do filme, a gente consiga realizar esse sonho!”, acrescenta ela, que mora em São Paulo por conta das oportunidades de trabalho.
O Rio de Janeiro está ligado à trajetória artística dela e da família. Nascida em Santa Teresa, onde visita os parentes com frequência, a atriz se conecta com as heranças musicais do bisavô, Alberto Nepomuceno.(1864-1920). Considerado o “pai” do nacionalismo na música erudita brasileira, o pianista e compositor é patrono da 30ª cadeira da Academia Brasileira de Música (ABM).
Estou me preparando vocalmente para voltar a esse desafio, que exige muita técnica. Como estou no Rio, uso o piano que herdei do meu bisavô para trabalhar a voz. Ele fica na casa da minha mãe e é meu maior xodó. Esse piano é a origem da minha vocação musical — Fabi Bang.

Piano de Alberto Nepomuceno, bisavô de Fabi Bang e precursor do nacionalismo na música erudita brasileira (Arquivo pessoal)
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