Teatro & Pensata

Gilberto Gawronski traz ao rio o monólogo A Ira de Narciso: “um teatro que une as pessoas”

Indicado ao prêmio Shell 2018 pela melhor atuação, Gilberto se comparou a Leonardo Di Caprio em tom bem-humorado: " tenho várias indicações do prêmio Shell de melhor ator, mas nunca ganhei"

Publicado em 10/01/2019 | Por Leticia Sabbatini

A noite de ontem (09/01) foi completa no Teatro Poeirinha, em Botafogo. Isso porque o local foi palco de estreia do grande espetáculo A Ira de Narciso, estrelado por Gilberto Gawronski. No monólogo, escrito pelo uruguaio Sérgio Blanco, Gilberto interpreta o próprio autor em uma autoficção, que desafia os limites da realidade. O site HT conseguiu uma conversa exclusiva com Gilberto horas antes da estreia e com Celso Curi, idealizador e tradutor do projeto, durante o lançamento. Com muita sinceridade, eles revelaram mais sobre os bastidores da produção.

Em temporada com a Ira de Narciso, o ator Gilberto Gawronski foi indicado ao prêmio Shell 2018 de melhor ator (Foto: Divulgação)

A peça, contada em primeira pessoa, retrata a história do próprio Sérgio Blanco ao passar por Ljubljana, capital da Eslovênia. Na  ficção, o intelectual pretende dar uma palestra sobre o famoso mito de Narciso e conhece um jovem esloveno, com quem acaba se envolvendo sexualmente. “O personagem fica dividido entre o prazer intelectual, que no caso é a palestra e toda essa reflexão em cima da história de Narciso, e o prazer carnal, oferecido pelo homem que ele conheceu por um aplicativo de encontros. A história inteira é costurada em torno do que é verdade e o que é ficção. É um suspense que mistura tudo”, explicou Gilberto. O ator, que ainda não conhecia o texto de Sérgio, interpretado diversas vezes em outros países, o recebeu literalmente como um presente do amigo e idealizador, Celso Curi. “Ele viu a montagem original da peça em um festival no Chile e logo pensou que no brasil, eu seria o autor ideal. Comprou os direitos autorais e me deu de presente no dia do meu aniversário, em 2016”, revelou animado. Para Celso, a escolha foi certeira: “Ele é brilhante demais e domina essa escritura como ninguém. Não teria como ser outra pessoa”.

Desde então, eles vêm trabalhando lado a lado na criação dessa nova montagem, que conseguiu estrear no ano passado, em São Paulo. Mesmo com mais de 30 anos de carreira, o ator admitiu algumas dificuldades na hora de se apropriar do personagem. “Um dos maiores obstáculos foi a memória para tanto conteúdo. É um volume muito grande de texto e eu às vezes tinha a impressão que o meu HD já estava cheio, sabe?”, revelou ele, que permanece no palco por 1h40 minutos. E continuou dando mais detalhes sobre o processo: “Como o personagem é um erudito, ele faz citações que nem todos conhecem. Eu queria que isso não fosse uma coisa pedante, mas sim que a plateia entendesse quase como uma leitura poética. Assim como o Leandro Karnal se apropria da filosofia e se comunica com todos, por exemplo”.

Apesar do longo tempo de monólogo, Gilberto negou se sentir sozinho, relembrando a equipe que, junto dele, fez com que a temporada fosse possível: “A gente não faz nada sozinho aqui. Tem a pessoa da luz, do som, da produção, da divulgação. É um trabalho em equipe mesmo, porque no teatro não existe trabalho só”. Na direção, a experiente Yara de Novaes conseguiu, a partir desse trabalho em equipe citado, melhorar ainda mais a performance do ator. “Uma das maiores alegrias dessa produção foi quando eu e Celso concordamos em convidar a Yara para dirigir. Ela me desnudou e fez com que, depois de anos de carreira, eu conhecesse um outro lado do ator que sou. Quando eu vi, fiquei me questionando, nossa que ator é esse? Sou eu?”, contou com carinho.

Para o ator, uma das maiores dificuldades foi se apropriar do texto, que dura quase 2 horas (Foto: Divulgação)

Com toda essa humildade e leveza, ele comentou a indicação ao prêmio Shell 2018, na categoria melhor ator pelo espetáculo A Ira de Narciso: “Eu sinto um friozinho não só na barriga, mas no corpo todo. Apesar das várias indicações a prêmios, eu digo que espero não ganhar, porque eu terei mais chances de ser indicado no ano que vem mais uma vez”. E prosseguiu em tom bem-humorado: “Eu sou quase que um Leonardo Di Caprio, tenho várias indicações do prêmio Shell de melhor ator, mas nunca ganhei”.

Independentemente das indicações, o maior prêmio, segundo Gilberto, é o reconhecimento do autor Sério Blanco. “Sou um artista muito ligado à literatura. Eu acho que os grandes gênios da humanidade são as pessoas que escrevem e ter o aval dele é o meu maior prêmio enquanto intérprete. Foi muito significativo ouvir ele dizer que as palavras dele viraram carne com a minha levada”, assumiu. E apesar de não ter tanto contato direto com o escritor, ele explicou com muita simpatia a relação entre os dois: “Eu não o conhecia, mas o contatamos para fazer uma pequena adaptação, já que o Sérgio escreveu o texto especificamente para o Gabriel Calderón. No final do ano passado, então, ele veio assistir e adorou. E é super engraçado porque eu falo a peça inteira como se fosse super íntimo dele, mas a gente só se viu por uns dois dias”. Para Celso Curi, além do reconhecimento, o espetáculo marca anos de uma amizade pessoal e uma parceria profissional entre ele e Gilberto, que ficaram próximos pela amizade em comum com Caio Fernando de Abreu: “O primeiro texto que ele fez foi no meu teatro e 30 anos depois a gente faz juntos esse trabalho. É uma relação super antiga e uma comemoração mesmo, sem dúvidas”.

Assim, já ao final da conversa, quando questionado sobre o porquê as pessoas precisam sair de suas casas para assistir A Ira de Narciso, Gilberto respondeu muito consciente: “Acho que as pessoas devem ir, na verdade, ao teatro antes de tudo. E esse espetáculo é a essência desse teatro que une as pessoas, sabe? Nós vivemos uma época de divergências e intolerâncias e a nossa única possibilidade de aproximação é na sensibilização e compreensão do outro. O teatro habita esse lugar, o lugar da tolerância para com ideias diferenciadas. Se você não quer trocar, fica sozinho em casa”. Para ele, exercendo essa função principalmente de reflexão interna e troca com a diferença alheia, o teatro e a arte como um todo devem estar cada vez mais presentes na rotina da sociedade. “É o lugar da reflexão do homem sobre si próprio. Ir ao teatro é uma atividade perigosa porque ele pode mexer em aspectos nossos que não temos nem dimensão, sabe? Hamlet, por exemplo, denuncia o assassinato do próprio pai no teatro, pela sensibilização. Não interessa termos leis, se não temos pessoas sensíveis para entender essas leis. E o teatro ocupa esse lugar da sensibilização, onde eu posso me afeiçoar à dor do outro”, disse. E revelou trazendo o discurso para um lado ainda mais pessoal: “Estamos todos nesse momento incerto, mas eu tenho o orgulho de dizer que eu ainda me sinto coerente com o discurso que eu levo desde que comecei”.

Gilberto recebeu os direitos autorais da obra de presente de aniversário do amigo e companheiro de trabalho Celso Curi (Foto: Divulgação)

Por um bom tempo, Gilberto, que ficou 15 anos interpretando a “Dama da Noite”, de Caio Fernando de Abreu, pretende continuar com A Ira de Narciso: “O barato de aprofundar um trabalho assim é conseguir chegar inteiro e integro ao outro. É disso que eu gosto”, informou. Além disso, o ator está envolvido com um grupo de estudos que pretende repensar a paixão pela perspectiva de Romeu e Julieta. E para além do teatro, inovando no audiovisual, ele estreará na série “Santos Dumont: mais leve que o ar”, na HBO. Muito orgulhoso do seu trabalho, Gilberto finalizou: “A Fernanda Montenegro uma vez me mandou trabalhar e é isso que eu estou fazendo. É só o que eu sei fazer e sempre terá alguém para nos ouvir”.

 

SERVIÇO

A Ira de Narciso

De Sergio Blanco

Com Gilberto Gawronski

Direção Yara de Novaes

Teatro Poeirinha

Estreia 9 de janeiro, às 21h

Terça e quarta, 21h

Até 20 de fevereiro de 2019

Duração 100 minutos

Classificação  18 anos

R$ 50 e R$ 25

Rua São João Batista 104

Botafogo – RJ

21 2537 8053

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