Gabriela Duarte como você nunca viu: no primeiro solo ela traz voz autoral para cena, quebra padrões e ri de si mesma


Com quase 40 anos de carreira, a atriz se desafia no monólogo ‘O papel de parede amarelo e EU’, sob a direção de Alessandra Maestrini e Denise Stoklos, que estreia em 28 de março, em São Paulo. A peça chega ao público encerrando o mês de março, dedicado a pensar nas pautas femininas, e é inspirada no conto de Charlotte Perkins Gilman, importante representante do feminismo, que aborda temas como o controle sobre o corpo feminino e saúde mental. A montagem também traz o posicionamento de Gabriela como mulher. A artista afirma que o monólogo teve como precursor o processo de construção da sua autobiografia, que será lançada em 2025. Nesta entrevista, ao lado das diretoras, ela fala da experiência visceral em cena, revela ocasiões na vida em que precisou quebrar padrões e diz: “É maravilhoso não se levar tão a sério. É uma libertação. Aos 50 anos é importante ir largando uns ‘pesos’ pelo caminho. É a construção de um caminho autoral. Não quero mais ninguém mandando em mim (risos). Amo e preciso do processo colaborativo, mas sei o que quero e quero ser feliz”

*Por Brunna Condini

Gabriela Duarte rompendo todos os padrões. Isso é o que a atriz e as diretoras Alessandra Maestrini e Denise Stoklos, que conversaram com o site Heloisa Tolipan, vão entregar ao público no primeiro solo da artista, ‘O papel de parede amarelo e EU’, que estreia dia 28 no Teatro Estúdio, nos Campos Elíseos, em São Paulo. “Queria fazer algo em que pudesse falar um pouco de mim e da minha busca por identidade, coisa que comecei a fazer no processo de escrita da autobiografia, há três anos”, conta Gabriela, sobre o livro que será lançado este ano. “É a construção de um caminho autoral. Não quero mais ninguém mandando em mim (risos). Amo e preciso do processo colaborativo, mas sei o que quero e quero ser feliz”.

Trazer a montagem para os palcos encerrando um mês dedicado a pensar nas pautas femininas, que tem como marco o Dia Internacional da Mulher (8) não foi acaso. O monólogo é inspirado no livro ‘O Papel de Parede Amarelo, conto de 1892 da autora Charlotte Perkins Gilman  (1860-1935), uma importante representante do feminismo, que denuncia a opressão e a desigualdade de gênero vivida pelas mulheres. “Infelizmente continua atual. A personagem da peça tem como mote a dificuldade de sair do padrão, que se personifica no papel de parede, mas é sair do padrão da sociedade machista, patriarcal. Ela escapa do padrão e acho que também acabo escapando mais uma vez com essa peça. Tem uma frase no texto que adoro, que diz: “Preciso arrancar esse papel de parede, mas ele está terrivelmente grudado e o padrão adora isso”. Depois de arrancado, não dá para grudar mais, sabe? Isso me toca profundamente”, diz Gabriela.

As mulheres precisam sempre estar alertas nos seus direitos, nas suas conquistas. Na minha opinião, a questão mais urgente é sobre a violência. Toda mulher, inclusive eu, já sentiu medo físico de algum homem. É preciso que haja denúncia e acolhimento. Não podemos retroceder – Gabriela Duarte

Gabriela Duarte com você nunca viu: atriz estreia primeiro solo, fala de romper padrões, de mergulho na essência e da busca por autonomia artística (Foto: Priscila Prade)

Gabriela Duarte fala de romper padrões, de mergulho na essência e da busca por autonomia artística (Foto: Priscila Prade)

Sobre a relevância do tema no momento que vivemos, as diretoras fizeram suas análises. “Não podemos mesmo admitir ter retrocessos em direitos conquistados na causa feminista por extremismos de qualquer ordem. É preciso resistir e avançar. Quebrar padrões na marra. Estamos felizes de fazer essa peça agora, é bem representativo”, pontua Denise Stocklos.

Já Alessandra Maestrini dispara: “E é urgente investir na educação desde cedo. Tanto das meninas, de saberem suas capacidades e direitos, quanto dos meninos, de aprenderem a respeitar as mulheres. E também falar de sexualidade. Porque não se ensina sobre sexualidade sob o pretexto de que seria corromper a infância, mas é justamente o contrário. Uma criança que não sabe o seu corpo, não sabe se defender. Além disso, é fundamental que a leis que protegem os direitos femininos se façam valer. Precisamos estar realmente resguardadas e quem comete alguma violência precisa ser de fato responsabilizado”.

Denise Stocklos, Gabriel Duarte e Alessandra Maestrini falam sobre 'O papel de parede amarelo e EU', primeiro solo de Gabriela (Foto: Priscila Prade)

Denise Stocklos, Gabriel Duarte e Alessandra Maestrini falam sobre ‘O papel de parede amarelo e EU’, primeiro solo de Gabriela (Foto: Priscila Prade)

Tive uma ruptura de padrões quando decidi chamar de meu um tipo de teatro, o Teatro Essencial. Fiz descobertas, percebendo que algumas coisas se repetiam em cena, e umas faziam sentido para mim e outras, não. O teatro que faço é baseado no corpo, na voz, na presença, na memória. O ator leva sua mensagem ao público, para que ele saia do teatro mais forte para suas lutas por amor e liberdade – Denise Stocklos

Com verdade e sem filtro

Falar ‘Gabriela Duarte como você nunca viu’, quer dizer exatamente o quê? “Na verdade, a artista que me tornei e que faz esse espetáculo agora, é a construção de uma vida. Esse é um processo intensificado pela escrita da biografia tendo o tema identidade como fio condutor. O livro foi precursor disso tudo, feito através de uma investigação profunda. Agora faço isso também no palco, mas de forma muito física, muito viva. Venho tirando o filtro e me colocando em contato com o que tem de mais íntimo e genuíno em mim”.

Não estou mais interessada em outra coisa que não seja a verdade. Acho que ela hoje anda tão rara no mundo…é tanta mentira, dissimulação, as pessoas repetem as coisas que são falsas até que se torne uma verdade…isso é algo para refletirmos. A verdade está na raiz das coisas. É isso que me interessa como mulher e artista – Gabriela Duarte

"Não estou mais interessada em outra coisa que não seja a verdade " (Foto: Priscila Prade)

“Não estou mais interessada em outra coisa que não seja a verdade ” (Foto: Priscila Prade)

Já aconteceu em conversas, de falar coisas que uma pessoa adorou e depois ela relatar a alguém o que eu tinha formulado, atribuindo a um homem. Isso é muito simbólico. O machismo tem muitas camadas – Gabriela Duarte

Quebrando padrões

Pegando o gancho do espetáculo, Gabriela elege momentos em que foi determinante a quebra de padrões em sua trajetória. “Vale citar quantas vezes tive que me impor como mulher, como indivíduo, independente da minha mãe (Regina Duarte). Teve um momento em que tive chegar na TV Globo e dizer que não queria mais ficar repetindo papéis de mãe e filha. Nesse momento criei uma situação muito delicada para mim, porque ainda estava me colocando como artista. Só que foi uma necessidade forte, com essa questão da identidade relacionada. Isso não foi bem aceito, porque como empresa, interessava que fossemos uma dupla. Como sabemos que gostam de fazer. Existem as muitas ‘prateleiras’ na TV. Depois disso, ouvi que não trabalharia mais, tanto de gente lá dentro, quanto de gente próxima”.

E continua. “Depois, tive outra quebra de padrão importante quando me separei de um casamento de quase 20 anos (com o fotógrafo Jairo Goldflus). Porque achávamos que merecíamos viver outras coisas, porque um ciclo se fechava. Ao longo de uma vida, é preciso quebrar muitos padrões para respeitar nossa essência”, conclui, destacando que aborda esses temas de forma mais profunda em sua autobiografia.

Gabriela Duarte em ensaio de 'O papel de parede amarelo' (Foto: Jessica Christina)

Gabriela Duarte em ensaio de ‘O papel de parede amarelo’ (Foto: Jessica Christina)

Rindo de si mesma

“Até essa peça eu nunca tinha visto Gabriela fazendo comédia, ela está se divertindo”, diz Alessandra. A atriz concorda, mas salienta: “Experimentei fazer humor bem na novela ‘Passione‘ (2010), o que foi maravilhoso, mas era outra proposta. Importante dizer que esse texto não é uma comédia. Pelo contrário, poderia se apresentar trágico, terrível. Mas, a Alê e a Denise têm conduzido pelo caminho do não-sofrimento. O humor pode colocar uma lente crítica e ao mesmo tempo trazer alívio ao tratar de alguns temas. Os assuntos deste solo já têm seu peso, político, social. “Estou em uma fase da vida de mergulhar nas propostas absolutamente e tenho me divertido. A peça está ficando mais leve por causa disso”.

É maravilhoso não se levar tão a sério. É uma libertação, um peso a menos que carregamos na vida. Aos 50 anos é importante ir largando uns ‘pesos’ para trás. Claro que tem fase para tudo na vida e tem a de se levar a sério. Mas a maturidade vai te mostrando que muitas vezes nos preocupamos demais com o que não precisa. Conquistei o direito de rir de mim mesma – Gabriela Duarte

"É maravilhoso não se levar tão a sério. É uma libertação, um peso a menos que carregamos na vida" (Foto: Jessica Christina)

“É maravilhoso não se levar tão a sério. É uma libertação, um peso a menos que carregamos na vida” (Foto: Jessica Christina)

Rompi um padrão importante quando falei sobre minha sexualidade. Foi sem planejamento, dei uma entrevista e não me reconheci nas respostas, então pedi pra refazer. Foi assim que vim a público dizer que eu era eu (risos). Falar da minha bissexualidade é representatividade – Alessandra Maestrini

O papel de parede amarelo eu EU

O conto de Charlotte Perkins Gilman aborda temas como o controle sobre o corpo feminino e saúde mental, e retrata a história de uma mulher confinada em um quarto pelo marido, que desenvolve uma obsessão pelo papel de parede. Mas o solo vai além do conto e traz o posicionamento de Gabriela Duarte como mulher. “Vocês verão a Gabriela trabalhando especialmente sua expressão corporal. Ela tem uma expressão física preciosa, que nem sempre a televisão permite que a gente enxergue. Também dialoga em cena com múltiplas linguagens. Temos a preparação corporal de Luis Louis, que tem como mestre Desmond Jones, então o corpo está em primeiro plano. O cenário da Márcia Moon cria uma prisão transparente que interage com a Gabi, que está vestida pelo Jum Nakao. Fora que a luz e a músicas são outros personagens do solo. É monólogo de grande elenco (risos). E um novo conceito que é o de uma obra de arte viva. Tem performance, dança, teatro e uma Gabriela Duarte inesperada”, encerra Alessandra Maestrini.

Nesta peça mergulhamos em emoções profundas. É realmente um desnudar-se da Gabriela. É a voz dela invadindo esse espetáculo, sendo autoral e original ao mesmo tempo – Alessandra Maestrini

Gabriela Duarte ensaia 'O papel de parede amarelo' (Foto: Jessica Christina)

Gabriela Duarte ensaia ‘O papel de parede amarelo’ (Foto: Jessica Christina)