Fora da TV, José Trassi, eterno Dodô de ‘Sandy & Junior’, criou marca de granola vegana e retoma carreira no teatro


O ator iniciou a carreira na TV no seriado Sandy & Junior, no fim dos anos 1990, em um contexto de baixa representatividade negra, e consolidou-se como o carismático Dodô. Após passagens pontuais pela TV Globo, TV Cultura e Record TV, diversificou sua trajetória no teatro, cinema e no audiovisual, priorizando caminhos alternativos. Durante a pandemia, reinventou-se fora da atuação, empreendendo no setor alimentício, até retomar o foco artístico. Atualmente, está em cartaz com “A Nova Comédia”, ao lado de Fábio Rabin, em montagem que reflete sobre o fazer artístico e o “riso democrático”. Paralelamente, desenvolve projetos infantojuvenis com temáticas sensíveis e aprofunda sua identidade como “indígena de retomada”, conectando ancestralidade, arte e consciência social

*por Vítor Antunes

Ele começou na TV como parte de um conjunto importante na consolidação da memória dos jovens e adolescentes dos anos 1990: foi um dos colegas de classe de Sandy & Junior no seriado homônimo, exibido entre 1999 e 2002. Ainda naquela época, era difícil ver atores negros em posição de destaque, e se mantinha a presença do chamado “personagem-orelha”, ou seja, aquele que é o melhor amigo do protagonista e está ali para ouvi-lo. Ainda assim, Dodô era um personagem interessante e marcou a entrada de José Trassi na televisão. “Eu comecei em ‘Sandy & Junior’ em 99 e, depois que eu saí da TV Globo, eu só voltei a trabalhar na emissora em dois ou três trabalhos pontuais [uma participação em ‘Segunda Chamada’ e na novela ‘Além da Ilusão’], mesmo após haver passado pela TV Cultura e pela Record TV. Acabei fazendo minha carreira muito com publicidade, locução, dublagem e audiovisual aqui em São Paulo”.

Fui aquele ator que saiu da TV, foi para o teatro underground, cinema, trabalhando meio por fora das novelas — até por uma coisa rebelde, que eu só fui curar depois na terapia. Fui caminhar por lugares alternativos e por outras alternativas – José Trassi

A pandemia mudou a rota de muita gente — não foi diferente com Trassi. “Entrou a pandemia e tudo fechou. Eu montei uma marca de granola vegana e, depois disso, fui chamado para ser gerente de uma pizzaria de dark kitchen — ou seja, pizzaria que só funciona para entregas — no Rio de Janeiro. Chegamos a vender 15.000 pizzas, mas eu não estava trabalhando como ator. Então optei por um alinhamento interno que me fizesse ter mais consciência do corpo. Fui me ajustando para voltar.”

Eu acho que assim, eu agradeço por não ter pautado a minha vida artística pela televisão, porque me trouxe muito conteúdo. Esse momento da minha vida vem para me revelar que eu me sinto cada vez mais preparado, enquanto pessoa, tanto na parte física, mental, aquele amadurecimento quanto artista. Estou com 40 anos – José Trassi.

Ele relembra como eram as gravações na época do programa. “A galera que cresceu com a gente sempre vem com muito carinho. São pessoas que nos guardam na memória, conectadas a um momento muito legal em família, um momento relaxado. É sempre um domingo de sol, sentado na frente da TV com a família, comendo, e isso é muito especial, porque nós somos os mais velhos agora. Então, conforme você segue a sua vida, passados 25 anos, quando alguém vem e diz que você está na memória dela, hoje em dia, com a quantidade de informação que existe, isso ganha outro peso. São dois caminhos, e eu vejo todo mundo tratando os fãs com muito respeito. Essa sempre foi a nossa filosofia. São pessoas que despendem tempo e energia para mandar uma mensagem. Na época, não tínhamos dimensão disso, não havia rede social, então era uma relação mais direta, de vir falar pessoalmente. A gente se ajuda: o Paulinho Vilhena, o Igor Cotrim, a Camila dos Anjos são meus amigos de infância. Eu ia todos os dias para Campinas — eu morava em São Paulo na época — porque minha mãe não queria que eu saísse do colégio, que, inclusive, foi o mesmo em que gravei ‘Segunda Chamada’.”

José Trassi e Sandy no seriado Sandy e Junior (Foto: Divulgação/Globo/Foto tratada e editada por iA)

A DEMOCRACIA DO HUMOR

José Trassi está em cartaz com “Nova Comédia”, montagem em cartaz no Morumbi Shopping até o dia 12 de maio, em São Paulo. A peça é dirigida por Mauricio Guilherme (texto e direção) e traz ao palco a parceria inédita de Fábio Rabin e José Trassi. Na trama, o veterano autor de telenovelas Miguel Marques (José Trassi) é procurado por um homem misterioso (Fábio Rabin), que quer contratá-lo para um grande e também misterioso projeto. Trassi aponta que “Rabin tem um timing muito preciso, é muito ligeiro. O melhor desafio é estar em cena com alguém como ele. E ele me disse uma coisa muito interessante: ‘O riso é democrático’. A pessoa pode pensar o que quiser, acreditar no que quiser; se ela rir, está dentro; se não rir, está fora. O humor não engana. Assim como a criança não se deixa enganar, o humor também não”.

Trassi aponta que o coração da montagem está em “uma pessoa que é apaixonada pelo que faz, que é o escritor, e que, nessa conversa com esse contratante misterioso, ao falar sobre os seus sonhos, encontra a possibilidade de realizá-los. Então, a peça reflete muito sobre o ser humano — e todo ser humano busca as mesmas coisas: valor, coerência, coesão, estrutura e permanência.”

José Trassi e Fabio Rabin em “Nova Comédia” (Foto: Divulgação)

INDÍGENA DE RETOMADA

Antes de tudo um homem negro, e Trassi sempre se reconheceu como um homem preto, mas, em um cadastro para a TV Globo, percebeu algo além. “Eu sei que sou preto, sempre fui preto. Me considero miscigenado, mas fui resgatar, de uns anos para cá, a parte indígena junto com a afro. E as coisas meio que partiram — olha que interessante — de uma classificação do IBGE, que me considerou como indígena, e isso foi para o cadastro da Globo. Isso me fez repensar a minha própria identidade: ‘Será que eu sou indígena?’. Algum tempo depois, fui gravar um filme independente no interior de Guarulhos, em que convivi com uma comunidade, me alinhei com a umbanda e comecei a resgatar essa ancestralidade. Fui para Portugal,  e percebi que a tecnologia indígena, a biopolítica, as questões de demarcação e a defesa dos povos originários são necessárias. E, há pouco tempo, tenho me reconhecido como um indígena de retomada, ou seja, aquele que não é da aldeia, mas também não deixa de ser indígena, é da cidade. Isso me aproxima mais da minha essência e acredito que, de alguma forma, todos estão buscando um futuro ancestral.”

Trassi conta que ele tem origem indígena sanguínea. “Minha mãe é descendente de italianos e indígenas. O bisavô dela era amansador de indígenas, e a bisavó era uma indígena amansada, do Paraná. Pelo lado do meu pai, a origem é dos caboclos da Bahia, de Barra do Mendes, na Chapada Diamantina. Fiz uma viagem de resgate até lá, junto com minha prima; fomos aos cartórios e identificamos que Dona Eduarda, a matriarca, foi proprietária de terras em Barra do Mendes, na Bahia. Essa questão indígena se assemelha à condição de alguém que nasce sem pai, no sentido de lidar com fragmentos de uma história. A cultura indígena me ensina que posso escolher meu povo e meu nome, que posso ressoar e me reconhecer nesse lugar. Tenho tido confirmações desse pertencimento, porque não se trata de algo que se compra ou se certifica formalmente; é algo que se sente ou não se sente, e é ligado a uma dimensão de reconhecimento e merecimento.”

José Trassi e Fábio Rabin são dupla em “Nova Comédia” (Foto: Divulgação)

Para os próximos meses, Trassi está se estabelecendo para montar alguns espetáculos infantis que tratam de pontos sensíveis. “Estamos montando a peça A Procura de João, que conta, de maneira lúdica, a história de um caso real: o de um menino com epilepsia de difícil controle. A partir disso, estruturamos uma companhia voltada ao público infantojuvenil e estamos desenvolvendo essa narrativa. A estreia será em 25 de abril, no Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo. Trata-se de um trabalho muito especial por abordar, por meio da dramaturgia, em uma peça infantojuvenil — assim a classificamos, já que não é exclusivamente infantil —, casos médicos mais complexos. Nossa companhia já realizou um primeiro espetáculo, O Menino que Não Sabia Chorar, que esteve em cartaz e foi baseado na história de um menino com fissura labiopalatina, condição que o impediu de desenvolver o canal lacrimal do olho esquerdo.”

Para encerrar, o ator se descreve com desenvoltura, arte e poesia: “Eu descobri que, se for para me rotular, sou solarpunk, pronoia e generalista. Acredito profundamente na regeneração. Sou ator e sou um generalista: preciso saber um pouco de tudo e conectar diferentes informações para transitar por distintos ritmos e frequências, que chamamos de personagens. Sou pronoia porque faço o oposto da paranoia — não parto do princípio de que tudo dará errado. Aprendi e me treinei, ao longo de muitas décadas, para enxergar as coisas de forma positiva, sem cair na positividade tóxica. É como o amor, sem idealização: o amor envolve sangue, suor e lágrimas. Ser positivo é buscar soluções para fazer dar certo. Sou punk porque venho da contracultura; acredito que tudo o que está na tradição, quando não é ancestral, opera como forma de controle, e me oponho a isso. E sou solar porque acredito que nossa energia primordial vem da natureza — nossa cura e nossa consciência vêm da luz, vêm do sol. Assim, organizei essas palavras para definir, em parte, quem sou.”

Há nomes que ficam na lembrança; outros seguem trabalhando dentro dela. José Trassi parece ter escolhido esse segundo lugar: um território em que memória, ofício e reinvenção caminham na mesma cadência. Sem atalhos nem vitrines permanentes, foi somando experiências como quem escreve em camadas. O que emerge não é uma linha reta, mas uma presença em construção contínua, afinada com o tempo e com aquilo que ainda pulsa.