Teatro & Pensata

Fernanda Montenegro, homenageada do 6º Prêmio Cesgranrio de Teatro, fala sobre a união dos artistas: “Um grito de guerra”

O site HT esteve na premiação, que ocorreu na noite de ontem (21/01), no Copacabana Palace. Para os presentes, a reunião é um grande ato de resistência cultural. "É um momento de desvalorização total da cultura no Brasil, de demonização da classe artística por total ignorância. Então, realmente, ter um prêmio que valoriza os artistas do teatro é extremamente crucial”, pontuou uma das indicadas, Mel Lisboa

Publicado em 22/01/2019 | Por Leticia Sabbatini

Já imaginou uma enorme reunião com grandes profissionais do teatro brindando e resistindo ao contexto de desvalorização cultural? Assim foi a noite de premiações e homenagens que marcou a 6ª edição do Prêmio Cesgranrio de Teatro. O evento, que aconteceu ontem (21/01), no Goldem Room do Hotel Belmond Copacabana Palace, ofereceu a maior premiação do país, distribuindo cerca de R$300 mil em prêmios. Na lista de presentes, grandes nomes como Nicette Bruno, Ney Latorraca, Lucio Mauro Filho e, é claro, a equipe do site HT, que conseguiu conversar com a grande homenageada da noite, Fernanda Montenegro.

Fernanda Montenegro é homenageada no Prêmio Cesgranrio de Teatro (Foto: ENY MIRANDA – RJ)

Desde 2012, a Fundação Cesgranrio comemora anualmente a vitalidade do teatro e seus profissionais com uma premiação. Por esse palco de homenagens, já passaram grandes artistas como Glória Menezes, Tarcísio Meira e Marília Pêra, seja como homenageados, indicados ou apresentadores. Para Carlos Alberto Serpa, presidente da Fundação e idealizador do evento, ser referência no que diz respeito à arte e cultura é uma grande honra: “O que nos comove não é apenas o reconhecimento que conquistamos dentro da seara educacional, mas a forte associação que a sociedade faz entre o nome da Cesgranrio e o fomento da cultura brasileira”. Esse ano, foram 12 categorias com seis indicados em cada uma. Os vencedores receberam uma premiação individual de R$ 25 mil e o belo troféu, feito pelo artista plástico Yutaka Toyota.

Com um júri formado por Carolina Virguêz, Daniel Schenker, Jacqueline Laurence, Lionel Fischer, Macksen Luiz, Rafael Teixeira e Tânia Brandão, a premiação, apresentada por Julia Lemmertz e Jonatas Faro, fez mais do que premiações: conseguiu reunir os profissionais do teatro em prol da cultura. Mel Lisboa, indicada como melhor atriz pelo espetáculo “Dogville”, afirmou que no atual contexto do país, a união se torna ainda mais necessária: “É um momento de desvalorização total da cultura no Brasil, de demonização da classe artística por total ignorância. Então, realmente, ter um prêmio que valoriza os artistas do teatro é extremamente crucial”.  Complementando a fala da colega com enorme sintonia, o experiente Ney Latorraca, homenageado na edição de 2014, pontuou: ” É um momento saudável e de festa para nós, mas não podemos esquecer que também é um momento de desvalorização. Acho que agora é a hora de nós ficarmos mais fortes, sabe? As pessoas podem falar e reivindicar, pedindo os seus direitos, esse momento é de resistência para nós”.

Julia Lemmertz e Jônatas Faro foram os apresentadores da noite (Foto: ENY MIRANDA – RJ)

Com a palavra união na boca de praticamente todos os presentes, Lúcio Mauro Filho relembrou ainda uma outra questão. Segundo o ator, ainda há um enorme equívoco na maneira como a grande massa da população enxerga os profissionais da arte: “Nós sempre somos vistos como supérfluos. A arte é sempre aquela coisa que as pessoas imaginam que podem deixar de lado na hora do aperto. Eu fico me perguntando, será que esse momento delicado não será bom para a arte e para toda uma nova geração prestar atenção e ver que na verdade o glamour e esse aburguesamento esconde pessoas simples e extremamente trabalhadoras?”. E prosseguiu fazendo referência à grande homenageada da edição: “Às vezes, nós vemos grandes artistas e alguns estão bem de vida financeiramente falando, mas são raladores também. Vai ver a história de Fernanda Montenegro para entender o porquê ela merece tudo que ela conquistou”.

Assim, minutos antes de Fernanda subir ao palco, o site HT relembrou junto dela, esses momentos que a fizeram receber, na noite de ontem (21/01), a grande homenagem do ano. Ainda que tenha sido a primeira latino-americana e a única brasileira já indicada ao Oscar de melhor atriz, com o filme “Central do Brasil“, e que tenha sido também a primeira a ganhar o Emmy Internacional pela atuação em ”Doce de Mãe”, a renomada profissional demonstrou muita humildade ao se referir à homenagem da Cesgranrio. “O teatro que é o grande homenageado, não eu. Nunca fiz nada sozinha e, por isso, não é uma festa minha, é de uma parte de uma profissão. É um ato de resistência de todos nós”, afirmou.

Concordando com a maioria dos presentes e conhecida por fugir do debate, Fernanda reforçou a necessidade da real valorização da arte e cultura como um todo: “Eu já vi e vivi muito governos se sucederem. Se eles lá não vão bem, a gente precisa resistir aqui. É uma importância total e absoluta estarmos juntos premiando tantas pessoas, né? Parece um grito de guerra de tão poderoso que é em um momento tão culturalmente esvaziado”. Para Lúcio Mauro Filho, a coragem da atriz, vista em tantos momentos, inclusive na fala acima, é o que faz dela um exemplo de ser humano: “Ela é nossa grande mestra, uma mulher que não fala só pela profissão, no que diz respeito a talento e a tudo que ela conquistou enquanto atriz, mas como ser humano mesmo. É uma figura respeitada por todas as profissões, por todos os humanos. É um orgulho nacional, que merece todas as homenagens”. E continuou demonstrando todo seu bom-humor e admiração: “Os súditos vêm todos quando uma rainha como ela é homenageada, né? Homenagear a Fernanda Montenegro é homenagear o teatro brasileiro e ter a presença dela aqui é por si só um troféu às artes e à cada pessoa que está aqui”.

Carlos Alberto Serpa, Fernanda Montenegro e Liége Monteiro (Foto: ENY MIRANDA – RJ)

Ainda com o peito estufado pela coragem e resistência, a artista subiu ao palco com mais um bonito e objetivo discurso. “Como falar em educação sem cultura? Não existe educação sem cultura! A educação é um esqueleto. A cultura é a carnificação desse esqueleto”, afirmou ela. Para além dessa conhecida força e resistência, em nossa conversa anterior com Fernanda conseguimos captar também a simplicidade de alguém que, aos quase 90 anos e servindo como referência para tantos profissionais incríveis, afirmou se inspirar na vida e a beleza que ela traz: “A gente acorda e os nervos funcionam, as células funcionam, o imaginário funciona, então a vida diz e nos inspira. Sei que algumas pessoas me têm como referência, mas a minha maior é a vida mesmo”.

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Confira os indicados e premiados no 6º Prêmio Cesgranrio de Teatro:

Categoria Melhor Figurino

  • Eduardo Giacomini por “Nuon”
  • João Pimenta por “Dogville”
  • João Pimenta por “Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte” 
  • Kika Lopes e Rocio Moure por “Elza”
  • Maria Duarte e Márcia Pitanga por “Um Tartufo”
  • Ney Madeira e Dani Vidal por “Bibi- Uma Vida em Musical”

 

Categoria Melhor Cenografia

  • Daniela Thomas por “Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte”
  • Dina Salem Levy  por “Cérebrocoração”
  • Dóris Rollemberg por “A Última Aventura é a Morte”
  • Marcos Flaksman por “O Inoportuno”
  • Mathieu Duvignaud por “A Invenção do Nordeste”
  • Natalia Lana por “Bibi- Uma Vida em Musical”

 

Categoria Melhor Iluminação

  • Beto Bruel por “Cérebrocoração”
  • Monique Gandenberg e Adriana Ortiz por “Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte”
  • Paulo César Medeiros por “Maria!”
  • Renato Machado por “A Última Aventura é a Morte”
  • Renato Machado por “Elza”
  • Russinho por “Memórias de Esquecimento”

 

Categoria Melhor Ator

  • Bruce Gomlevsky por “Memórias de Esquecimento”
  • Claudio Mendes por “Maria!”
  • Daniel Dantas por “O Inoportuno”
  • João Velho por “A Ordem Natural das Coisas”
  • Marcelo Olinto por “Insetos”
  • Robson Torinni por “Tebas Land”

 

Categoria Melhor Ator em Teatro Musical

  • Chris Penna por “Bibi- Uma Vida em Musical”
  • Claudio Galvan por “Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte”
  • Leo Bahia por “Bibi- Uma Vida em Musical”
  • Luiz Felipe Mello por “Pippin”
  • Rodrigo Naice por “70? Década do Divino Maravilhoso- Doc. Musical”
  • Tauã Delmiro por “70? Década do Divino Maravilhoso- Doc. Musical”

 

Categoria Especial

  • Andrea Jabor pela preparação corporal do espetáculo “Insetos”
  • Cia. dos Bondrés pelos 10 anos de atividade em pesquisa de máscaras balinesas
  • Elenco de “Elza”
  • Gustavo Gaparini e Eduardo Rieche pela adaptação e roteiro musical de “Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte”
  • Henrique Fontes e Pablo Capistrano pela adaptação teatral do livro “A Invenção do Nordeste e Outras Artes” de Durval Muniz de Albuquerque Jr
  • Marcia Rubim pela direção de movimento do espetáculo “Trajetória Sexual”

 

Categoria Melhor Atriz

  • Alice Borges por “Irmãozinho Querido”
  • Ana Kfouri por “Uma Frase Para Minha Mãe”
  • Beatriz Bertu por “A Ordem Natural das Coisas”
  • Gisele Fróes por “O Imortal”
  • Mariana Lima por “Cérebrocoração”
  • Mel Lisboa por “Dogville”

 

Categoria Melhor Atriz em Teatro Musical

  • Amanda Acosta por “Bibi-Uma Vida em Musical”
  • Daniela Fontan por “A Vida não é um Musical- O Musical”
  • Izabela Bicalho por “Elizeth- A Divina”
  • Nicette Bruno por “Pippin”
  • Stella Maria Rodrigues por “Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte”
  • Totia Meirelles por “Pippin”

 

Categoria Melhor Direção

  • Ary Coslov por “O Inoportuno”
  • Duda Maria por “Elza”
  • Enrique Diaz e Renato Linhares por “Cérebrocoração”
  • Leonardo Netto por “A Ordem Natural das Coisas”
  • Tadeu Aguiar por  “Bibi- Uma Vida em Musical”
  • Victor Garcia Peralta por “Tebas Land”

 

Categoria Melhor Direção de Musical

  • Apollo Nove por “Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte”
  • Jules Vandystadt por “70? Década do Divino Maravilhoso- Doc. Musical”
  • Jules Vandystadt por “O Homem no Espelho”
  • Jules Vandystadt por “Pippin”
  • Pedro Luís, Larissa Luz e Antônia Adnet por “Elza”
  • Tony Lucchesi por “Bibi- Uma Vida em Musical”

 

Categoria Melhor Texto Nacional Inédito

  • Cristina Fagundes por “A Vida ao Lado”
  • Eduardo Moreira, Márcio Abreu e Paulo André por “Outros”
  • Leandro Muniz por “A Vida Não é um Musical- O Musical”
  • Leonardo Netto por “A Ordem Natural das Coisas”
  • Miriam Halfim por “Meus 200 filhos”
  • Pedro Brício por “O Condomínio”

 

Categoria Melhor Espetáculo

  • A Invenção do Nordeste
  • A Ordem Natural das Coisas
  • Bibi- Uma Vida em Musical
  • Dogville
  • Elza
  • Romeu + Julieta ao Som de Marisa Monte

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