*Por Brunna Condini
Marisa Maiô não nasceu de alguém, nasceu de código. Criada por inteligência artificial e guiada pela mente afiada de Raony Phillips, ela acumula seguidores, fecha publis, viraliza vídeos e entrega uma performance emocional digna de muita gente real, que inclusive, anda parecendo mais fake do que ela. O sucesso de Marisa não é exatamente uma novidade, outras vieram antes. Lil Miquela, por exemplo, surgiu em 2016 como uma influenciadora sintética com aparência de boneca futurista. Imma, no Japão, ganhou destaque pela estética cor-de-rosa e uma pegada mais conceitual. Mas nenhuma delas performava humanidade.
Além disso, Marisa é ‘bagaceira’, fala palavrão, dá pitacos sobre a vida e faz jus ao DNA (explícito) dos programas populares dos anos 1990 como o de Márcia Goldschmidt. E foi justamente dela que Marisa Maiô chamou a atenção. “Não me sinto ofendida. Me sinto homenageada. Mas isso é gravíssimo. Estamos vivendo uma seca de criatividade”, disse a própria Márcia, em vídeo publicado no Instagram. “Até a inteligência artificial precisou voltar aos anos 90 para conseguir criar algo que viralizasse. O talento virou lacração de internet”.
Em outro trecho, afirmou:
Hoje, ninguém precisa mais chegar em um palco e saber comunicar, brincar, pensar. Basta ir lá no stories chorar ou mostrar o banho do cachorro. Não é a tecnologia que está roubando a cena, é a mediocridade de quem aplaude. O talento está sendo sufocando pelo algoritmo que só premia volume, e não valor. Os likes substituíram os aplausos. Na minha época tínhamos plateia, hoje temos fanáticos (…). O público reclama, mas quer quem engana, trapaceia e não tem nada a dizer. Sim, nós estamos no museu, porque é no museu que se encontram as coisas de valor – Márcia Goldschmidt
O que Goldschmidt diz faz sentido, ou Marisa Maiô existe também por outras razões? E onde entra, nessa conversa, a relação íntima (e até dependente) que algumas pessoas já estabelecem com o Chat GPT, por exemplo?

Por que Marisa Maiô agrada e influencia? (Imagem: Reprodução)
O que Márcia diz faz sentido. Os anos 1990 foram, sim, um celeiro de personagens únicos. De Ratinho a Cristina Rocha, de talk shows explosivos a apresentadores que, gostando-se ou não, sabiam conduzir um palco e a plateia, com algum estilo, mesmo que imperasse o sensacionalismo. Mas reduzir Marisa Maiô a uma cópia saudosista seria ignorar o que, de fato, faz dela um fenômeno: ela não é só uma paródia do que existiu no passado, é um reflexo certeiro sobre o presente. Em tempos de discursos enlatados, personalidades pasteurizadas e influenciadores que mais parecem departamentos de marketing ambulantes, Marisa surge como caos, ruído, exagero. E acerta. Porque estamos exaustos da positividade fake e sedentos por alguma autenticidade, mesmo que ela venha do irreal.

Márcia Goldschmidt em seu programa nos anos 1990 (Imagem: Reprodução)
O sucesso de Marisa também se espalha. Fabiana Karla a homenageou nas redes, brincando ser “a inteligência verdadeira”. Otaviano Costa levou uma réplica dela para o programa que apresenta na Band. Marisa foi parar até em pauta do ‘Fantástico‘. Na internet, como sempre, a influenciadora criada por IA rendeu memes, likes e compartilhamentos. Mas talvez o mais interessante seja pensar: por que ela nos impacta tanto, mesmo sem existir? A resposta pode estar na forma como estamos nos relacionando com o virtual hoje. O Chat GPT, por exemplo, começou como uma ferramenta de pesquisa, e virou confidente, terapeuta improvisado, diário emocional e até consultor para assuntos de saúde. Está ali, disponível sempre pronto para responder, sem julgar, sem exigir, sem cobrar o que um ser humano normalmente cobraria.
Vivemos uma nova forma de vínculo: com o que é idealizado. Marisa funciona porque reflete nossa histeria social com precisão cirúrgica. Exagera como a gente, se expõe como a gente gostaria (ou não) de se expor, erra livremente. E de quebra, ainda nos dá uma válvula de escape diante do excesso de discurso motivacional nas redes e de identidades digitais polidas, entregando o puro suco do caos com humor do absurdo. Mas vamos pensar juntos: quando uma personagem virtual atrai mais do que muita gente real, e quando achamos que uma IA como o Chat GPT, ouve melhor do que um amigo ou até do que um terapeuta, ainda seremos capazes de reconhecer o valor das trocas humanas?

Talvez estejamos nos acomodando em relações que não exigem esforço, vulnerabilidade, frustração ou contrapartida emocional. Porque dá trabalho, cansa. E porque o mundo anda pedindo descanso, mesmo que seja no colo de um algoritmo. Marisa Maiô não é o problema. Talvez seja só o sintoma. Ela não veio substituir o humano, veio mostrar o quanto o humano anda deixando espaço vago. O Chat GPT, por exemplo, entrega algo que o mundo real nem sempre consegue: atenção constante, respostas rápidas, ausência de debate. Acolhem sem pedir nada em troca. E isso, num tempo de relações líquidas, cansaço afetivo, “parece” um sossego merecido da realidade.
Marisa Maiô nos diverte e provoca, mas sua existência também nos convida a refletir sobre o que estamos terceirizando para o que é artificial. É importante lembrar que, se não fosse um homem guiando a criação da apresentadora virtual, ela não teria o mesmo resultado. Ele deu os comandos, idealizou. No fim das contas, tudo volta para as identidades humanas.
Isso nos lembra da importância de voltarmos o olhar para as conexões reais, aquelas que envolvem escuta, frustração, afeto e transformação. Em um mundo onde a inteligência artificial cresce em alta velocidade a cada dia, é essencial que a gente reivindique nosso espaço: o da empatia, da imperfeição, da criatividade espontânea e da diversidade de vivências. A saúde mental também passa pelo reconhecimento de que, por mais encantadora que seja a companhia de uma figura virtual, o que nos sustenta ainda é o vínculo, as relações e as trocas humanas. E que assim permaneça. O que tudo isso evidencia é que a tecnologia (ainda) não está nos roubando nada. Somos nós que estamos entregando. E, às vezes, com gosto.

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