Teatro & Pensata

‘Fazer teatro para repetir o que veio antes não me interessa’, diz Jorge Farjalla sobre relação com o trabalho

Aos 41 anos, diretor, figurinista e ator atravessa uma das melhores fases da carreira com a montagem de nova peça em São Paulo e projetos para 2020 que incluem a montagem de um grande musical

Publicado em 07/11/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

O diretor, ator e figurinista Jorge Farjalla está vivenciando uma fase excepcional em sua carreira. No mês passado, a comédia “O Mistério de Irma Vap”, escrita por Charles Ludlam e apresentada pela primeira vez em Nova York há 35 anos, recebeu quatro prêmios Bibi Ferreira dos sete a que fora indicada: direção (Farjalla), cenografia (Marco Lima), desenho de luz (Cesar Pivetti) e atores (Luis Miranda e Mateus Solano). Em 2018, o encenador já havia recebido o Prêmio Shell de melhor figurino (ao lado de Ana Castilho) por “Senhora dos Afogados”, que também dirigiu. (Só para se ter uma ideia, o personagem do vendedor de pentes usa um paletó em que o forro é composto por cem pequeninos frascos de perfume.) Agora ele se prepara para estrear “Lagoa Bonita ou Café Paris” em São Paulo. O respeitável público pode esperar um espetáculo no mínimo original.

Em ‘O Mistério de Irma Vap’, críticas ao governo incomodaram espectadores (Foto de Priscila Prade)

“Acompanha a história de uma jovem chamada Edit Piaf da Silva, moradora de Lagoa Bonita, no interior de Minas Gerais. A mãe dela, personagem da Débora Duarte, ficou cega quando perdeu o marido e é apaixonada pelo prefeito. Edit tem o sonho de viver em Paris e se apresentar cantando as canções da Piaf. Mas canta extremamente mal. Ela acaba deixando tudo para trás, apesar da chantagem da mãe e do namorado, um pescador, e se muda para a capital da França, onde conhece um palhaço por quem se apaixona”, conta Farjalla. “O palhaço usa o figurino mais realista de todos, porque perdeu a ilusão sobre Paris. Não se engana mais com as luzes da cidade, sabe que o sonho não acontece”.

No palco, Paris é representada por um carrossel. De acordo com o autor da peça, Clovys Torres, a base da narrativa é a capacidade de sonhar e a Cidade Luz simboliza o brilho e o sucesso para a jovem Edit. A ideia do carrossel como símbolo da cidade ocorreu depois de uma temporada na capital francesa em 2018: “Passei o Natal lá. Olhei para a Torre Eiffel, mas o que realmente me encantava era o carrossel que fica nas proximidades. Eu simplesmente não saía de lá”.

Neste trabalho, que encerra o que o autor chama de Tríade Parque de Diversões (também composta por “Vou deixar de Ser Feliz por Medo de Ficar Triste?”, de Yuri Ribeiro, e “O Mistério de Irma Vap”), uma grande descoberta foi a atriz Debora Duarte, atualmente com 69 anos. “Estou totalmente apaixonado. Que atriz é essa? A personagem começa o espetáculo por baixo, pois a filha está indo embora, o marido morreu há muito tempo, tem a questão amorosa… O prefeito é a única pessoa que ela tem. A Debora consegue ir desse drama à comédia com uma habilidade inacreditável. É muito rápida”, admira-se Farjalla. “Os atores da geração dela são fantásticos. Eles têm um respeito pela arte imenso, encaram o fazer teatral como trabalho, como ofício. Vou dizendo o que eu quero e ela entra em mim sem pedir licença, me invade e entende tudo. A Debora é um presente. As pessoas vão enlouquecer”.

Em setembro, Jorge Farjalla recebeu o Prêmio Bibi Ferreira pela direção de “O mistério de Irma Vap” (Foto: Naira Messa)

O diretor pretende fazer com a atriz o mesmo que fez com Rosamaria Murtinho: desconstruí-la. Em 2016, Farjalla montou “Doroteia”, de Nelson Rodrigues, com a atriz, então com 79 anos, no papel de Dona Flávia, a vilã da história. Leticia Spiller fazia o papel-título, o da linda Doroteia, ex-prostituta que tenta destruir sua beleza para se igualar às três primas muito feias com quem mora de favor. Rosamaria comemorava seus 60 anos de carreira e foi Farjalla quem sugeriu a montagem do texto de Nelson. A princípio a atriz se assustou um pouco, mas acabou apostando na visão do diretor. Rosa, que começou a carreira interpretando uma empregada doméstica e emendou uma série inesgotável de mulheres ricas, finas e elegantes, deu um show de interpretação. Saiu rejuvenescida e premiadíssima ao encerrar a carreira do espetáculo. “Ali eu levei todo mundo para outro lugar. A Rosinha quis ser desconstruída por mim. E foi”.

Em ‘Doroteia’, o diretor ‘desconstruiu’ a imagem chique de Rosamaria Murtinho (Foto de Carol Beiriz)

Farjalla acredita que sua posição no meio artístico se firmou com a comédia romântica “Vou deixar de Ser Feliz por Medo de Ficar Triste?”, em 2018. “Antes eu era muito Lado B”, brinca. “O Yuri (Ribeiro) me convidou para dirigir uma peça que falava da relação de uma mulher com um homem muito mais jovem. Transportei o texto para o picadeiro, botei um palhaço tocando a trilha ao vivo e mudei o nome, que era ‘Débito ou Crédito’”, revela. “A partir daí comecei a ser notado pela classe. Mas o Rio de Janeiro ainda não me engole. Sinto que me olham estranho”.

Desconfiança à parte, “Irma Vap” foi um imenso sucesso na cidade: lotou o Teatro Oi Casa Grande, com 926 lugares, durante um mês e meio. “A montagem é totalmente diferente do que a Marília (Pêra) fez com o Marcos Nanini e o Ney Latorraca em 1986. Era um espetáculo dos atores, eu fiz uma peça do diretor. O que os dois faziam nas coxias, como as trocas de figurinos, o Luis Miranda e o Mateus Solano fazem diante do público. Botei mais quatro atores no palco, eliminei um ato inteiro, que se passava no Egito e era muito chato”, conta, lembrando que a única exigência do autor é não tirar nenhum dos muitos personagens.

Farjalla acredita que ‘Vou Deixar de Ser Feliz…’ firmou seu nome como diretor (Foto de Carol Beiriz)

Apesar do sucesso, Farjalla conta que muita gente não gostou do espetáculo: “Fiz com um teor bastante crítico. A música critica os musicais montados no Brasil, que são uma chupação dos da Broadway. Critica o próprio fazer teatral. E faz críticas ao governo. Nesses momentos tinha gente que se levantava e ia embora. A verdade é que podia ser qualquer governo. Eu poderia estar falando da minha avó no poder que essas pessoas iriam embora do mesmo jeito. Elas não entendem que a gente coloca as questões mas não julga. Só que não dá para fazer ‘O Mistério de Irma Vap’ em 2019 sem politizar. Fazer teatro para repetir o que veio antes, sem ousar, não me interessa”.

O diretor também faz suas incursões pelo cinema. A prova de fogo foi o projeto “EnCURTAndo Nelson”, de 2008, em que homenageou o autor de “Vestido de Noiva” com 11 filmes curtos inspirados em suas peças. Em março do ano passado, ele lançou o documentário “O Cravo e A Rosa”, sobre as mais de seis décadas de carreira do casal Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça. O documentário mostra ainda parte da trajetória de amigos artistas e, assim, percorre boa parte da história do teatro, da TV e do cinema nacionais. “O pano de fundo é o nascimento da televisão no país e o teatro brasileiro. O filme me deu muito. Entrevistei Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, Toni Ramos, Bárbara Paz, Nicette Bruno, Ary Fontoura… Você assiste como se estivesse sentado na sala da casa da Rosa”, resume.

Conforme dissemos lá no começo, Jorge Farjalla está vivenciando uma fase excepcional em sua carreira: para o ano que vem já estão planejados uma webserie policial envolvendo uma máfia de comissários de bordo que lida com tráfico de drogas, prostituição e seu primeiro grande musical, que ainda é segredo de estado. Aos 41 anos, a vida pessoal também não vai nada mal. Uma semana antes da estreia de “Irma Vap”, Farjalla deu fim a um relacionamento de mais de cinco anos com um namorado que já estava entrando em terreno minado. Passado o trauma, saboreia a libertação. Outra descoberta importante veio durante a temporada de “Doroteia” e tem feito muito bem ao moço: “Antes dessa peça, eu pensava muito em ‘alcançar’. Queria ‘atingir’, ‘chegar lá’. A questão é que não precisamos alcançar nada. É apenas trabalho e estamos aqui para viver o dia a dia, para trabalhar sem buscar glórias e honrarias”.

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