Teatro & Pensata

‘Fazemos espetáculos para as pessoas de hoje’, diz Marcos Malafaia, do Giramundo, sobre críticas às inovações

Diretor do tradicional teatro de bonecos mineiro, que estreia no CCBB do Rio seu mais novo espetáculo, ‘O Pirotécnico Zacarias’, afirma que incluir atores em cena faz parte da evolução natural do grupo, que tem a mudança como tradição: ‘Como fazer uma peça tradicional num mundo em constante mutação?’

Publicado em 28/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

O tradicional grupo mineiro de teatro de bonecos Giramundo está de volta ao Rio com o espetáculo inédito “O Pirotécnico Zacarias”, que estreou nesta semana no Teatro II do CCBB. Conhecido por suas experimentações e por estar em constante mudança, o Giramundo radicalizou na peça nova: misturou os bonecos com atores, algo nunca tentado na história do grupo, que completa 50 anos em 2020. Mistura de cinco contos do escritor mineiro Murilo Rubião (1916-1991), pouco conhecido pioneiro na literatura fantástica brasileira, a montagem joga com a combinação de linguagens tão díspares quanto cinema, animação, música, dança, máscaras, artes plásticas e teatro de objetos.

‘O Giramundo é uma antena sensível à realidade externa’, diz o diretor Marcos Malafaia (Foto de Elmo Alves)

Segundo o diretor Marcos Malafaia, a decisão de trabalhar com os bonecos-atores foi pensada e trabalhada ao longo de muito tempo – como, por sinal, são todos os processos do Giramundo. “Nossos passos são dados lentamente, depois de muita reflexão, de muita experimentação. Mesmo que sejamos um grupo habituado a discutir as formas que os bonecos podem assumir, essa não foi uma mudança consciente”, explica o diretor. “Já houve experimentos similares a esse na Europa da Bauhaus, no século passado. Nós não havíamos tentado e isso gerou muitas controvérsias”.

Os 33 contos de Murilo Rubião foram escritos e reescritos ao logo da vida do autor (Foto de Elmo Alves)

As controvérsias ficam por conta dos puristas, que acreditam que a trupe deveria se manter fiel às suas raízes como teatro de bonecos. “Acontece que a nossa tradição é a da experimentação. A mudança faz parte da nossa trajetória. Foi assim, por exemplo, quando percebemos a importância das marionetes, lá atrás”, diz Malafaia. “O Giramundo é uma antena sensível à realidade externa. As transformações vêm em função de uma mistura de impulsos endógenos e exógenos diante dessa mudança avassaladora trazida pela internet, por exemplo. Fazemos espetáculos para as pessoas de hoje”.

O clima onírico domina a cena em ‘O Pirotécnico Zacarias’ (Foto de Elmo Alves)

Nada mais atual, aliás, que a temática de “O Pirotécnico Zacarias”. Malafaia conta que a reunião dos contos do autor mineiro trata da incapacidade do ser humano de lidar som a realidade, de saber o que é sonho e o que não é. “Os jovens vivem na pele as contradições entre os mundos real e virtual. Veja os suicídios, as questões de gênero, as relações líquidas de que fala Bauman. (Zygmunt Bauman, 1925-1917, sociólogo e filósofo polonês criador da expressão relações líquidas, superficiais que “escorrem entre os dedos”, nas palavras do pensador). Como podemos fazer um espetáculo tradicional num mundo em constante mutação?”, pergunta-se o diretor do Giramundo.

As máscaras usadas em cena são feitas artesanalmente (Foto de Elmo Alves)

Interessante buscar inspiração para tratar da realidade atual na obra de um autor que começou a produzir nos anos 1940. Seria uma contradição? “O Rubião tem um aspecto universal como o Kafka, o Cortázar. Não é regional ou datado”, opina. “Ele escreveu apenas 33 contos e, ao longo da vida, os alterou minuciosamente, lapidou um por um nos detalhes. Coisa de mineiro. Nós não mudamos uma linha, sabia? Os contos estão todos lá, com alguns cortes. Mas as palavras são todas originais do autor. Mexer nisso seria perder beleza”.

As máscaras usadas em cena são feitas artesanalmente (Foto de Elmo Alves)

Na verdade, o Giramundo acrescentou mais beleza e vida às palavras do escritor através de uma sofisticada mistura de técnicas narrativas. “Os contos possuíam um potencial imagético e poético, um tanto quanto filosófico ou psicanalítico, que poderia ser abordado por um viés cinematográfico”, diz Malafaia. “Tentamos criar uma cena em que o espectador fosse dragado por uma sensação mental semelhante ao sonho. Uma cena onírica. Os atores e os bonecos interagem de uma forma tão sincronizada com as projeções que tenho dúvida se estamos fazendo teatro, balé, ópera ou cinema. O rigor do movimento dos atores nos aproxima do balé. As telas de projeção nos colocam perto do cinema. Não consigo definir. Temos dois tempos: o pré-gravado funciona como um metrônomo, enquanto os seres vivos transitam dentro desse universo”.

O ator Antonio Rodrigues em meio às projeções de imagens em vários níveis (Foto de Elmo Alves)

No Rio, Marcos Malafaia diz estar se sentindo em uma nova estreia, como se estivesse apresentando um outro espetáculo. “Começamos em Belo Horizonte, onde ficamos em cartaz por dois meses. Seguimos para São Paulo e agora estreamos no CCBB do Rio. Daqui vamos para Brasília. O espetáculo foi muito modificado para a cidade, é algo totalmente diferente do que foi visto antes. Tem um momento em que a coisa foge do controle. Eu costumo dizer que isso é um sinal de saúde do projeto”, encerra o diretor.

Ao todo, o Giramundo fará 107 apresentações, na maior turnê de sua história desde a fundação, em 1970, pelos artistas plásticos Álvaro Apocalypse, Tereza Veloso e Madu. Merece, não é?

SERVIÇO

“O Pirotécnico Zacarias”

CCBB (Teatro II): Rua Primeiro de Março 66, Centro – 3808-2020

Quinta a segunda, às 19h. R$ 30 e R$ 15 (meia)

Até 16 de setembro.

14 anos. 70 minutos. 116 lugares

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