*Por Brunna Condini
Quando Sabrina Sato anunciou nesta segunda-feira (22), aos 45 anos, que está grávida novamente de seu primeiro filho com o ator Nicolas Prattes, a notícia rapidamente ocupou as manchetes. E não poderia ser diferente. Depois de um caminho marcado por uma perda gestacional e pela esperança de realizar novamente o sonho da maternidade (ela já é mãe de Zoe, de 7 anos), Sabrina recebeu uma onda de carinho, comemorações e torcida nas redes sociais. Que ela tenha uma gestação tranquila e feliz, assim como todas as mulheres que desejam viver esse sonho, em qualquer idade.
Mas talvez o aspecto mais interessante dessa repercussão não seja apenas a gravidez em si, e sim a reflexão que ela desperta. Afinal, será que toda mulher que engravida aos 45 anos recebe o mesmo acolhimento? Ou muitas ainda precisam lidar com olhares desconfiados, julgamentos e perguntas que jamais seriam feitas se tivessem seguido o chamado ‘tempo certo’ esperado peal sociedade? Ainda existe uma espécie de calendário invisível que paira principalmente sobre as mulheres. Até determinada idade, espera-se que elas estudem. Depois, que construam uma carreira. Em seguida, que encontrem um parceiro ou parceira. Casem. Tenham filhos. Comprem uma casa. Consolidem uma profissão. Envelheçam discretamente. Como se a vida obedecesse a um roteiro previamente aprovado.
Quem foge desse cronograma costuma ser visto como alguém que chegou cedo demais ou tarde demais. “Já passou da idade de ter filhos”. “Está muito velha para mudar de profissão”. “Nessa altura da vida vai começar do zero?”. São frases, que repetidas, revelam o peso das expectativas e da pressão exercida, sobretudo sobre as mulheres, para que vivam cada etapa da vida no momento ‘esperado’. Mesmo hoje, depois de tantas conquistas em termos de autonomia, participação no mercado de trabalho e liberdade de escolha, continuamos submetidas a uma espécie de patrulha permanente. Curiosamente, ninguém parece perguntar se aquela pessoa simplesmente estaria vivendo o tempo que faria sentido para ela. Durante décadas, fomos educadas para acreditar que existe uma sequência correta para a felicidade. Como se o sucesso dependesse menos das escolhas e mais do relógio. Mas o mundo mudou. E ainda bem que continua mudando todos os dias.

Sabrina Sato, Nicolas Prattes e Zoe anunciam gravidez: celebrar Sabrina também é refletir sobre a liberdade de viver no próprio tempo (Foto: Reprodução/Instagram)
Vivemos mais, estudamos por mais tempo, mudamos de carreira várias vezes ao longo da vida. Há muito tempo divórcios deixaram de representar fracassos e passaram a significar recomeços. Pessoas de 50 anos iniciam novos negócios. Mulheres engravidam depois dos 40. Avós voltam à universidade. A aposentadoria deixou de ser, para muitos, o último capítulo da história. Ainda assim, a mentalidade de algumas pessoas continua presa a um calendário que já não representa a realidade. A própria maternidade ajuda a revelar essa transformação.
Além de Sabrina, outras brasileiras conhecidas desafiaram a ideia de que existe uma idade limite para viver esse desejo. Claudia Raia tornou-se mãe novamente aos 55 anos. Gisele Bündchen deu à luz seu terceiro filho aos 44. Ivete Sangalo teve as gêmeas aos 45. Eliana foi mãe de sua filha caçula aos 43. Viviane Araújo viveu a maternidade aos 47. Cada uma com sua história, suas circunstâncias e suas escolhas. Elas exerceram o direito de viver a maternidade quando ela fez sentido, ou quando simplesmente se tornou possível. E isso deveria ser cada vez mais naturalizado, respeitado e celebrado.

Ivete Sangalo grávida das gêmeas Marina e Helena em 2017, com o filho Marcelo (Foto: arquivo pessoal)
É claro que a medicina lembra, que uma gestação após os 40 exige mais acompanhamento e envolve riscos maiores do que em idades mais jovens. A fertilidade diminui, aumentam as chances de hipertensão, diabetes gestacional e alterações cromossômicas, o que torna o pré-natal ainda mais importante. Mas esses dados convivem com outra realidade: graças aos avanços da medicina reprodutiva e ao acompanhamento especializado, esse tipo de gestação tornou-se muito mais frequente do que há algumas décadas. Talvez a pergunta mais importante nem seja a respeito da idade em que uma mulher engravida, mas por que a sociedade ainda se sente no direito de julgar quando ela decide viver esse sonho.
Talvez porque fomos ensinados a acreditar que o tempo é uma linha reta. Mas ele nunca foi. Existem mulheres que descobrem o amor aos 60. Pessoas que encontram sua vocação aos 50. Gente que recomeça depois de uma falência, de um luto, de uma doença ou de uma grande transformação pessoal. A vida real raramente respeita planejamento rígidos. E talvez seja justamente isso que a torne tão bonita. Há uma diferença enorme entre o tempo biológico e o tempo social. O primeiro impõe limites que merecem ser conhecidos e respeitados. O segundo, muitas vezes, é apenas uma construção cultural que insiste em dizer quando devemos amar, produzir, casar, engravidar, mudar ou descansar. Em outras palavras, tenta nos dizer como devemos existir. Mas quem conhece melhor o nosso tempo do que nós mesmos?

Viviane Araújo grávida de Joaquim em 2022, aos 47 anos (Foto: Agnews)
Felizmente, não existe um cronômetro invisível determinando quando cada sonho perde a validade. Sonhos não vencem. As pessoas é que amadurecem, mudam de ideia. Descobrem novos desejos. Ganham coragem e perdem medos. Às vezes, aquilo que parecia impossível aos 30 torna-se inevitável depois dos 40. E aquilo que parecia indispensável na juventude deixa de fazer sentido décadas depois. Crescer também é reconhecer que nossos projetos de vida podem mudar junto conosco.
Possivelmente seja justamente essa a maior conquista do nosso tempo: entender que uma trajetória bem-sucedida não é necessariamente aquela que segue um roteiro previsível, mas aquela que faz sentido para quem a vive. Há quem encontre realização formando uma família cedo. Há quem só descubra esse desejo mais tarde. Há quem nunca queira ter filhos e construa uma vida igualmente plena. Há quem se reinvente de muitas formas depois de décadas, quando todos diziam que já era tarde demais.
Não existe uma única forma correta de viver. Existem histórias, tempos e prioridades diferentes. É importante ter liberdade para rever esse calendário quando preciso. Porque, no fim das contas, a única idade realmente errada é aquela em que deixamos de fazer algo apenas para atender à expectativa dos outros. A vida nunca chega atrasada. Cada porção dela chega quando estamos prontos para vivê-la. Em nosso tempo, que é sempre o certo.

Gisele Bündchen e Joaquim Valente são pais de River, que nasceu em fevereiro de 2025. Ela também é mãe de Benjamin, de 16 anos, e Vivian, de 13 (Foto: Reprodução/Instagram)
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