Teatro & Pensata

À frente da produção de “Cinderella, o musical”, Renata Borges fala sobre lei Rouanet e mudanças na direção do musical: “Foi um processo difícil”

A diretora executiva e realizadora do espetáculo de Rodgers & Hammerstein's no Brasil falou sobre a substituição de diretor a 45 dias da estreia e adiantou novos projetos para 2017. Entre eles, um musical da banda Green Day ao lado de Mauro Mendonça Filho e “Peter Pan”. Vem saber tudo!

Publicado em 11/07/2016 | Por Karina Kuperman

Renata Borges comanda com mãos firmes toda a produção e direção executiva de “Cinderella, o musical”. Após se encantar com a peça de Rodgers & Hammerstein’s na Broadway, ela comprou os direitos e trouxe a montagem ao Brasil. Mas essa não é sua estreia no ramo. “É a minha terceira produção, fiz ‘Sim, eu aceito’ e depois ‘Como eliminar seu chefe’. ‘Sim eu aceito’ foi o primeiro musical da Broadway, então foi um desafio muito grande, um feito único. Era interpretado por dois atores apenas e foi muito difícil, um processo de dois anos para achar esse casal perfeito, que foi Silvia Massari e Diogo Vilela. Depois partimos pra um maior, o ‘Como eliminar seu chefe’, que fez turnê de quatro meses no Rio e parou porque comecei o processo de pré-produção de Cinderella”, lembrou.

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Renata Borges é realizadora e diretora executiva de “Cinderella – o musical” (Foto: George Magaraia – Miguel Sá Fotos)

Falando na produção do espetáculo, é impossível não lembrar dos acontecimentos nos bastidores. É que, como contamos por aqui, o diretor Ulysses Cruz foi desligado há pouco mais de um mês da data de estreia e Cássia Kiss, que interpretaria a madrasta má, quis sair em seguida. “Cinderella foi um processo complicado, mas nunca ninguém abandonou a montagem, se as pessoas não ficaram foi porque eu não quis. Eu sou extremamente exigente, se eu vejo algo no palco que eu não acho verdadeiro e que não justifica o apoio que eu tive e o dinheiro público eu não vou colocar”, destacou Renata, que foi além: “A substituição foi o seguinte: quando eu vi se queria negar Broadway ou criar algo experimental em um clássico, eu não pude permitir isso, porque não posso deixar os atores expostos no palco. Era uma transgressão, elementos loucos. Eles não tinham a ideia de que eu teria a coragem de mudar tudo a 45 dias da estreia, mas a minha direção musical estava completa, os atores todos preparados. Era só questão de conceito e o que eu buscava – que eu falo com toda humildade – era fazer melhor do que a Broadway. Tanto que muitos dos efeitos especiais, que custam uma fortuna aqui, não tinha lá. Quando trago um espetáculo, a minha ideia não é copiar, é fazer melhor. Meu grau de exigência é enorme, então sei que é difícil trabalhar comigo, porque ou se trabalha direito e faz uma entrega verdadeira, ou não. Eu contratei, como também posso demitir. O Ulysses Cruz não foi convite meu. Ele entrou porque eu queria a Cássia como madrasta e ela falou que só entrava com ele. Minha escolha era ela, não ele”, explicou.

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Quem assumiu a direção, então, foi a dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. “Eles dois sempre foram a minha primeira opção. Fiz um convite há três anos, mas eles não acreditaram que eu tinha adquirido os direitos. Quando mostrei minhas ligações, eles quase caíram para trás. Foi um reencontro que vai durar. Inclusive já chamei os dois para a direção de ‘Peter Pan’, meu próximo musical, e vamos trazer algo que nunca foi feito no Brasil, com vôo possibilitado pela mesma empresa dos vôos em Las Vegas e na Broadway. É um projeto audacioso que, assim como Cinderella, também passa a mensagem de não deixar a criança que mora em nós morrer”, adiantou ela, que acredita que a montagem da “terra do nunca” será histórica. “Está previsto para agosto de 2017 e será o grande espetáculo de 2017”, afirmou.

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A sintonia de Charles Möeller e Renata Borges (Foto: George Magaraia – Miguel Sá Fotos)

Pensa que é só? Pois Renata nos contou, em primeira mão, que tem um projeto para assinar ainda antes. “Eu tenho uma sociedade com o Mauro Mendonça Filho e a gente vai lançar, em janeiro, ‘American idiot’, que terá, no elenco principal, Thiago Fragoso e Gabriel Leonne, escolhidos pelo Maurinho, fora grande elenco, claro, porque é um musical baseado nas letras do Green Day. O Mauro quer trazer a garotada para dentro do teatro. Ele é visionário e quer proporcionar quase que um concerto toda noite”, adiantou. Com tantas histórias, Renata não perde de vista nenhuma de suas produções. “Eu quero sempre fazer entregas verdadeiras, que os meus patrocinadores vejam ali, no palco, e já saibam tudo em que foi gasto”, explicou.

Renata Borges, o diretor Charles Möeller e Totia Meirelles(Foto: George Magaraia - Miguel Sá Fotos)

Renata Borges, o diretor Charles Möeller e Totia Meirelles(Foto: George Magaraia – Miguel Sá Fotos)

Coisa que quem já esteve “do lado de lá”. “Eu sempre gostei de teatro, vim de captação de recursos, ajudei diversas empresas em vários espetáculos”, lembrou. Falando em captação, Renata disse que os ataques à Lei Rouanet são completamente descabidos. “A lei, quando é mantida de forma transparente, só agrega valor. Ela gera, precisa de isenção fiscal. Assim como uma montadora, que quando vai se instalar no ABC paulista recebe isenção porque gera emprego, a cultura também. Mas nós somos 0,8% de toda a verba – nem 1%. Então eu, sinceramente, não entendo esses ataques desnecessários. Existe algo que o público não entende: às vezes temos autorização para captação, mas até captar a história é outra. Se antes eu batia na porta de 100 empresas hoje bato na de 300. O publico quando lê ‘autorização de captação’ acha que o dinheiro já está no meu bolso. Dá vontade de rir”, destacou ela. “O governo me dá autorização para captar e eu me viro. Tanto que, de 100 projetos que são autorizados, 80 são arquivados por falta de captação. Vale ressaltar que ‘Cinderella’ mesmo, foi captado R$7 milhões e eu e meu sócio, Douglas (Carvalho Junior), estamos aportando R$3 milhões dos nossos bolsos para dar continuidade a 80 pessoas na minha folha de pagamento. Isso só no Rio de Janeiro, onde eu tenho, de empregos diretos e indiretos gerados, 350. Então, durante oito messes, demos dignidade a mais de 80 famílias ao lado dos patrocinadores e do Ministério da Cultura”, destacou.

Com opinião forte, Renata acredita que a “classe artística é desunida”. “Poderíamos ter um passaporte cultural, em que se pagasse um valor X para ver três ou quatro espetáculos. Na Broadway existe a ‘Liga da Broadway’ e aqui, enquanto não nos unirmos, vamos ter teatros vazios. A crise financeira está aí, então temos que tornar o acesso mais fácil. Mas ninguém senta na mesa, todo mundo quer competir entre si. Então é um mercado que não participo, porque enquanto um não estiver olhando para o outro eu não vou a estreia de nada, lugar nenhum. Faço o meu sem olhar para os lados”, disse ela que, com “Cinderella – o musical”, quer resgatar “a essência boa das pessoas”. “A vida lá fora já é uma luta. O ser humano está cansado de tragédia. É bom que os críticos entendam quando a gente faz arte para a família, teatro musical da melhor qualidade. Queremos ver entretenimento, mensagens bacanas”, afirmou. Como discordar?

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