Teatro & Pensata

Escrita por Luisa Micheletti, peça traz “impeachment” de Deus: “É metáfora ao patriarcado e busca a sororidade”

A peça 'Soror' estreia sexta-feira, dia 5, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, e tem direção de Caco Ciocler. "Ele acompanhou o processo e foi muito parceiro o tempo todo, inclusive enquanto eu escrevia", afirma a autora e atriz

Publicado em 04/04/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

Atriz, escritora e apresentadora, Luísa Micheletti reuniu a verve artística para um projeto especial: “Soror”. “É minha primeira empreitada teatral como autora. Escrevi ao longo de nove meses. É uma peça que aborda elementos religiosos, mas não é sobre religião. Meu ponto de partida é a igualdade entre gêneros. A gênese bíblica é remontada como uma metáfora simbólica de forças que ‘regem’ nossa sociedade. Eva, a mulher bela, nutridora, delicada, que se esforça para se encaixar nos padrões; Lilith como a força de ruptura, de consciência, de insubordinação e independência; Adão como o homem médio, que não tem consciência dos próprios privilégios e Deus como o sistema no qual todos nós estamos inseridos. De uma maneira bem-humorada, poética e, às vezes surreal, a peça caminha para a união de Eva e Lilith, aparentemente antagônicas, mas na realidade, complementares”, explica Luísa, que vive Lilith. Já Fernanda Nobre é a responsável por dar vida à Eva. Na história, as primeiras mulheres do mundo se unem para julgar Deus e criar um novo universo. Lilith, a primeira mulher, criada do pó e a da lama, se recusa a ser submissa ao companheiro Adão, no Éden recém-inaugurado”.

Luisa Micheletti vive Lilith na peça Soror, escrita por ela (Foto: Hudson Senna)

“Essa história fala sobre a união dessas forças presentes em nós. Só a partir desta união é que um universo mais justo pode surgir. Elas julgam Deus e o tiram do trono. As figuras religiosas são pura metáfora para revelar a estrutura machista da sociedade. Deus simbolizao próprio patriarcado. Ele é um palestrante prolixo, sedutor, violento sem aparentar ser”, diz a autora, que resolveu falar do assunto de forma polêmica e sem medo. “O que me fez escrever sobre essas questões foi minha experiência de vida como mulher. Minha sensação existindo foi sempre a de que a sociedade espera que sejamos X ou Y. Por que não podemos ser X & Y? Se somos imprevisíveis não podemos ser confiáveis, se somos mães não podemos ser sexualizadas, se somos carinhosas não podemos ter autoridade… são muitas divisões! Fui estudar as deusas gregas e comecei a entender melhor os arquétipos (forças universais presentes em todos nós). Percebi que nossa sociedade patriarcal dificulta muito a coexistência de alguns arquétipos nas mulheres enquanto facilita para os homens. Um homem, quando assertivo, é tido como bom líder, enquanto a mulher é vista como mandona ou controladora. Um homem quando violento às vezes é tido como forte enquanto uma mulher é vista como histérica. E assim por diante”, analisa.

Os integrantes de “Soror” (Foto: Edson Kumasaka)

“Daí surgiu a ideia de colocar Lilith (a mulher criada antes de Eva, segundo algumas interpretações da gênese) e Eva dialogando. A sororidade, ou, irmandade entre mulheres, é sobre diálogo, sobre escuta. E se cada um dos nossos lados convivesse? Em geral exilamos um deles em nome de algo maior. Esse algo geralmente é aceitação. Aceitação de quem? Me perguntei muito até que entendi: aceitação do patriarcado. Ele é tão poderoso que na peça é representado por Deus”, explica ela, que não tem medo dos julgamentos. “A peça tem muito humor. Tudo isso é leve e divertido. A reflexão está no texto. Deus é uma metáfora para o patriarcado, não se trata de religiosidade. Acho que o público vai rir e pensar. Vai refletir e se divertir”.

Luísa, aliás, garante ter essa preocupação na vida: iluminar caminhos e revelar estruturas nas quais o mundo está imerso e, às vezes, sem consciência. “Espero que a peça seja uma espécie de maçã neste ‘paraíso’ atual. Nossa cultura nunca foi tão negligenciada. É triste viver em um país que vem cortando direitos de todos os lados. Um país digno precisa investir na cultura para a criação de uma identidade e de uma história. Os países de primeiro mundo têm verba investida em cultura, não só porque gera empregos mas porque cria pensamento, educa, faz pensar, provoca e diverte. E a cultura precisa dar voz a todos. Se pudermos tocar as pessoas com essa peça, ótimo. Se ela fizer pensar, refletir, sensibilizar, melhor ainda. Espero que ele crie um pensamento crítico, além de divertir, claro”.

(Foto: Hudson Senna)

E como será que é estar em cena com um texto próprio? “Eu precisei desapegar de ideias pré-concebidas que tinha sobre como seriam as coisas em nome das parcerias artísticas que valeram muito a pena. Cada um contribuiu muito ali com ideias e composições. Conversamos muito. Os homens da equipe, às vezes, não tinham a dimensão do que estávamos falando por não sentirem na pele algumas opressões como a de sermos constantemente interrompidas, termos nossos corpos regulados, medidos e julgados, sermos criadas para competir umas com as outras, ou simplesmente menstruar e isso ser um tabu”, revelou ela, que começou a escrever essa história durante uma oficina de dramaturgia. “Fui desenvolvendo o texto ao longo do tempo, lendo com alguns amigos atores, ouvindo, trabalhando. A Fernanda Nobre (que faz a Eva) gostou da sinopse desde o início e praticamente topou fazer desde sempre. Fomos procurando outros atores, juntando as forças, até que se concretizou. Hoje, além de nós duas, estão no elenco Daniel Infantini (Deus) e Geraldo Rodrigues (Adão)”, conta.

Elenco da peça com o diretor Caco Ciocler (Foto: Edson Kumasaka)

Além do elenco especial, por trás do espetáculo tem Caco Ciocler, ex-namorado e amigo de Luísa, que a dirige no palco. “O Caco foi uma das pessoas que mais me estimulou a escrever este texto. Ele acompanhou o processo e foi muito parceiro o tempo todo, inclusive enquanto eu escrevia. Era uma época que alguns trabalhos meus tinham sido cancelados, eu estava sem contrato… Ele foi essencial para que eu pudesse sentar e escrever. Segurou a onda geral. Ser artista é viver na instabilidade e ele me dizia para depender menos dos outros e criar minhas próprias obras. Além dessa importância, ele tem focado muito na carreira de diretor, gosta do assunto da peça, se abriu para isso. Acho bom ser um homem na direção também para atrairmos o público masculino. Não adianta pregar para convertido. Quero trazer os homens pra discussão”, garante Luisa.

Luísa e Caco (Foto: Reprodução)

E ela não deixa de falar do feminismo na arte. “É delicada a fronteira entre encenar algo poeticamente crítico e fazer palanque. Admiro muito quem faz palanque, tese, texto acadêmico. Voto nessas mulheres e compro seus livros. Mas sou atriz e dramaturga, não sou acadêmica e nem quero entrar para política (embora toda arte seja política). A poética não poderia ser deixada de lado em nome de um discurso. Então estive atenta em criar uma dramaturgia que desse conta do outro lado também. Que humanizasse os lados, argumentasse como o patriarcado argumenta, mas que conduzisse a um olhar revelador do lado de quem quer igualdade de gênero. Mas voltando à pergunta original: o feminismo tem criado mais espaço, o fato desta peça estar sendo encenada é um bom sinal. O feminismo é bom para mulheres e homens. Livra os homens de uma série de cobranças de uma masculinidade tóxica que só os atormenta. Os que já entenderam isso estão do lado certo”. A gente assina embaixo.

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