*Por Brunna Condini
Em cartaz com ‘Férias’, ao lado de Drica Moraes, o ator Enrique Diaz faz do palco um espelho das próprias transformações e de mais de 40 anos de carreira. Após o fim de um casamento de mais de duas décadas com a atriz Mariana Lima, com quem tem as filhas Elena, 21, e Antonia, 17, o ator e diretor resume o momento como um “buraco bonito” de reinvenção: “Todo rompimento é sempre um luto, mas também uma chance de renovação. Inclusive nesses vazios tem potência de vida. Uma separação, por melhor que seja, é sempre atravessada por perdas, mas também abre espaço para outras formas de afeto, para novas conversas com a própria vida”.
Na entrevista ao site, Enrique Diaz reflete sobre maturidade, desejo, humor e a necessidade de atravessar o tempo com ânimo: “A alegria é uma força vital que requebra todos os parâmetros. É o que me mantém vivo”. Para ele, inclusive, a dor carrega beleza: “O crescimento das filhas também é um luto, mas é um luto cheio de amor, porque é lindo vê-las indo para o mundo”. Aos 57 anos, ele fala sobre sexualidade e envelhecimento e não hesita em romper com padrões cristalizados: “Existe uma potência erótica que vai além da idade. A peça mostra isso com alegria, transbordamento, vitalidade”. Já sobre o riso, ele é enfático. “O humor é prova de vida. Ele só faz sentido quando nasce do amor e não da violência. Escrotizar não liberta ninguém”, pontua, ao pensar nos limites.
Entre a intensidade das perdas, filhas crescendo e a beleza dos encontros, o artista reencontra na arte o seu território de resistência e liberdade:
O teatro é a reserva ecológica do pensamento selvagem. É ali que a gente ilumina a humanidade – Enrique Diaz

Enrique Diaz: separação, reinvenção, maturidade, desejo, humor e a força do teatro como espaço de resistência (Divulgação/Globo)
Se no palco a ficção propõe uma viagem de casal em busca de redescobertas, na vida real Enrique também experimenta o impacto das transformações. Entre o luto da separação e o movimento das filhas deixando o ‘ninho’ (aos poucos ainda), ele enxerga a maturidade como um lugar de atravessamento e de contínua mudança. “Tenho sido muito exigido nas responsabilidades, no custo das coisas. Não está exatamente fácil ter certeza de onde eu estou, mas sinto que estou em processo, me transformando bastante nesses últimos tempos”.
A coincidência entre a vida e a cena não lhe passa despercebida. Em ‘Férias’, os personagens ganham dos filhos uma passagem para um cruzeiro, gesto que, para Enrique, dialoga com seu momento pessoal: “Na peça, os filhos dizem: ‘vão ter um momento só de vocês dois’. E na minha vida, ao contrário, são minhas filhas que estão indo viajar, fazendo intercâmbio, abrindo suas próprias histórias. É uma inversão bonita, que também me coloca em movimento”.

Enrique Diaz e Drica Moraes estão no espetáculo ‘Férias’ (Foto: Leo Aversa)
O ator reconhece que amadurecer é aprender a lidar com ganhos e perdas de forma mais lúcida: “Com a idade, a gente tende a acumular mais perdas. Mas também acumula mais consciência sobre elas. É duro, mas ao mesmo tempo tem beleza, porque a gente não nega, olha para isso de frente. E junto vem os acontecimentos de vida que continuam a pulsar, mesmo quando a gente se sente no meio de um ‘buraco’. Porque, no fundo, é nesse oco que cabem os encontros inesperados, a possibilidade de reinvenção. A beleza está em perceber que a vida não para de nos convocar, seja através do afeto dos filhos, das parcerias, do trabalho ou mesmo das perdas que nos obrigam a olhar para outros lugares”.
Sexualidade além dos padrões
Ao falar sobre a sexualidade no espetáculo, ele destaca como a peça rompe com clichês sobre o envelhecimento e propõe uma imagem vibrante da maturidade. “Na peça tem uma presença dessa coisa da sexualidade e dos corpos muito ligada a um certo transbordamento. Eles transam na proa do navio, numa imagem potente que dá uma caducada na visão socialmente composta do homem e da mulher de meia-idade”, explica. Para ele, a cena celebra vitalidade e liberdade: “Essa sexualidade é movimento, dinamismo, alegria, que está além dos desenhos, papéis e funções que a sociedade nos impõe. Existe uma potência erótica que vai além da idade. A peça mostra isso com alegria, transbordamento, vitalidade”.

“Na peça eles transam na proa do navio, numa imagem potente que dá uma caducada na visão socialmente composta do homem e da mulher de meia-idade” (Foto: Leo Aversa)
Humor e amor de mãos dadas
Esse entusiasmo aparece também na relação com Drica Moraes, ex-namorada, parceira de cena e de tantas décadas de amizade e cumplicidade. Para ele, estar em cena ao lado da atriz é mais do que um exercício artístico: é uma espécie de inventário afetivo. “Ali estão as conversas de uma vida inteira, sobre arte, filhos, afetos, saúde, dinheiro, discordâncias. É uma métrica de afeto que se renova em cena. Cada apresentação é também um reencontro com tudo isso”, afirma. Enrique lembra que essa troca já atravessou fases muito distintas de suas trajetórias: companhias que formaram juntos, períodos de afastamento, doenças, trabalhos em parceria com Mariana Lima, ex-mulher e amiga de Drica. “É uma conversa longa e de muitas qualidades, que agora se atualiza no palco, misturando nossas histórias pessoais com a ficção. Estar juntos em cena é retomar tudo isso com afeto, amizade e simplicidade, renovando o sentido da nossa parceria a cada apresentação”.

“Agora estamos no palco misturando nossas histórias pessoais com a ficção” (Foto: Leo Aversa)
Ao falar sobre o humor em ‘Férias,’ Enrique destaca a força de uma comicidade que não diminui, mas amplia, por tocar em zonas delicadas sem reduzir a experiência. “O humor é uma prova de vida. Quando nasce do amor, ele liberta. Quando nasce da violência, ele aprisiona”. Para ele, o riso funciona como ponte com o público: “Ele quebra resistências, acessa temas complexos de outro jeito”. E ao comentar os limites do humor hoje, ele diz: “O perigo é quando ele vira exercício de poder, de preconceito, de clichê. Aí, em vez de libertar, oprime”.
Essa visão o leva também a refletir sobre a cultura digital atual e a pressão das redes sociais, especialmente depois do episódio em que foi filmado ao cobrir o rosto com um jornal diante de um paparazzo. “Foi um gesto totalmente espontâneo, porque eu sou uma pessoa, estou ali no meu caminho. Se alguém viesse e me desse um empurrão, eu tentaria me proteger. Então, quando vi alguém vindo para cima de mim, a reação foi essa. Aí tentei estabelecer a conversa: ‘Se você quer isso, então me pede’. Dei um sorriso, dei bom dia e fui”. E falou da repercussão: “Recebi muita mensagem agressiva, foi chato à beça”. Mas também se surpreendeu com os comentários positivos: “Muita gente disse: ‘Ele foi super educado, explicou, conversou’”.

“O humor é uma prova de vida. Quando nasce do amor, ele liberta. Quando nasce da violência, ele aprisiona” (Foto: Divulgação/Globo)
Vivemos um tempo de cancelamento e ressentimento. As pessoas despejam uma energia muito agressiva no outro, como se ele fosse o problema. Eu prefiro a conversa, prefiro responder com educação para abrir outra possibilidade de olhar. Às vezes, basta devolver com calma para a pessoa ver que pode existir outra forma de se relacionar – Enrique Diaz
“Se encaretar demais, morre”
Apesar de transitar por televisão e cinema, Enrique reafirma o teatro como o lugar onde encontra sua expressão mais genuína. “Não tem efeito especial, só o encontro vivo entre atores e público. Isso é revolucionário”, afirma. Mais do que um espetáculo, ‘Férias’ é para ele um gesto de resistência: contra o tempo que apressa, contra os rótulos da idade, contra a lógica do ressentimento. “A alegria, com ‘A’ maiúsculo, é o que me mantém vivo. É o que faz a vida continuar pulsando”.
Ao completar quatro décadas de carreira, Enrique afirma que o maior risco é “se encaretar”:
Se encaretar demais, morre. O que me mantém em movimento é renovar, seja na aventura, no cotidiano ou no palco. Até na hora de tampar a pasta de dente para não ressecar existe uma oportunidade de reinventar o afeto. É isso que me faz ficar vivo e alegre, continuar alegre – Enrique Diaz
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