*Por Brunna Condini
Vera Fischer volta aos palcos com a peça O casal mais sexy da América, em turnê pelo Brasil. No espetáculo, a atriz divide a cena com Leonardo Franco, trazendo para o palco temas contemporâneos como etarismo, sexualidade na maturidade e igualdade de gênero: “A peça mostra que dá para ser feliz depois dos 60. Dá para fazer sexo depois dos 60. Dá para a gente fazer tudo”, afirma.
Estrela de sucessos como Mandala (1987), Laços de Família (2000) e Caminho das Índias (2009), além de minisséries marcantes como Desejo e Riacho Doce (1990), Vera reflete também sobre os rumos da televisão. Para ela, a falta de equilíbrio na escalação de elencos, com o protagonismo cada vez mais concentrado em nomes menos experientes, empobrece narrativas e contrasta com a realidade do país:
É um paradoxo. O Brasil está envelhecendo, mas só se valoriza a juventude. A gente joga luz nisso através da peça – Vera Fischer

Aos 74 anos, Vera Fischer encara o palco em ‘O casal mais sexy da América’ e fala sem filtros sobre etarismo, sexualidade e maturidade (Foto: Callanga)
Etarismo e mercado de trabalho
Para Vera, o espetáculo O casal mais sexy da América toca em um ponto sensível: a exclusão dos mais velhos. “O público se reconhece e vem falar comigo depois: ‘É exatamente isso que eu vivo no trabalho, no casamento, na cama’. A peça gera identificação de uma forma leve, mesmo ao tratar dessas questões”.
A atriz também reflete sobre a preparação para o ofício: “Os atores da minha geração tinham bagagem cultural. Eu lia muito porque nem televisão havia na minha cidade até os 16 anos. Hoje, os jovens quase não leem, não vão muito ao teatro. Querem fazer mais TV, streaming, coisas rápidas. Enquanto isso, os veteranos estão no palco, fazendo muito teatro”. E opina, de forma contundente:
As novelas de hoje são rasas. As histórias são meio vazias. Tem muito remake. Falta criatividade. Falta equilíbrio entre jovens e veteranos – Vera Fischer

“A peça mostra que dá para ser feliz depois dos 60. Dá para fazer sexo depois dos 60. Dá para a gente fazer tudo” (Foto: Callanga)
Assédio: da ficção à vida
Um dos pontos mais fortes da peça é a revelação de que sua personagem abandonou o auge da carreira por causa de assédio sexual. A atriz confirma que a cena ecoa experiências reais de tantas mulheres, inclusive suas:
Eu também passei por situações deste tipo. Para escapar, inventava histórias, usava minha criatividade. Graças a Deus consegui sair de muitas. Mas é uma violência terrível, uma invasão. Hoje as mulheres podem falar, denunciar. Muitos já foram punidos, outros ainda serão. Isso não pode mais ser escondido – Vera Fischer

“O Brasil está envelhecendo, mas só se valoriza a juventude. A gente joga luz nisso através da peça” (Foto: Callanga)
Sexualidade e solitude
Vera fala sem filtros sobre prazer e autonomia na maturidade. “Minha vida mudou muito. Eu era de festas, boates, jantares, tinha um sítio cheio de gente. Hoje, moro em um apartamento menor, com meus gatinhos. Tenho poucos amigos, queridíssimos, e adoro ficar sozinha. Não é solidão, é solitude. Eu faço tudo no meu tempo, do meu jeito”.
Paquerar de vez em quando é gostoso, mas ficar sozinha está melhor. Existe a masturbação, que é saudável. Estou em paz. Cada idade tem sua beleza – Vera Fischer

“Vivi intensamente cada década. Trabalhei, me diverti, criei meus filhos. Tenho muito mais orgulho do que arrependimentos” (Foto: Callanga)
Beleza e envelhecimento
Sobre o corpo e o passar do tempo, Vera é categórica: “A única coisa que não gosto é do cabelo grisalho, porque sou muito branca. Coloquei silicone depois que meu filho nasceu e fiz uma lipo há muito tempo. Só. Não gosto de quando a pessoa muda tudo no rosto e vira outra. Gosto da minha cara. Tenho meu dermatologista, que cuida da minha pele, e pronto”.
Orgulho, maturidade e futuro
A atriz se mostra em paz com a própria trajetória, tanto a profissional, com mais de 55 anos de percurso, quanto a pessoal:
Vivi intensamente cada década. Trabalhei, me diverti, criei meus filhos. Tenho muito mais orgulho do que arrependimentos. Talvez hoje eu fizesse algumas coisas de forma diferente, com a lucidez que tenho, mas não me arrependo. A maturidade traz leveza: você se livra do que não precisava – Vera Fischer
Sobre os próximos passos, não hesita: “Nunca vou parar de fazer teatro. Depois de São Paulo, a peça vai ao Rio, ao Nordeste, e no ano que vem voltamos a várias capitais. Eu adoro estar no palco. É meu lugar”.

“A maturidade traz leveza: você se livra do que não precisava” (Foto: Callanga)
O casal mais sexy da América
Vera explica que o enredo da peça acompanha dois atores que fizeram enorme sucesso em um seriado nos anos 1990 e se tornaram o par romântico mais famoso da televisão. Hoje se reencontram e precisam confrontar as diferenças, reavaliar o passado e lidar com as transformações. “A peça começa 30 anos depois, quando eles se encontram em um hotel para um enterro. Começam a falar das dificuldades que têm agora, do fato de que só querem gente jovem no trabalho, então eles acabam fazendo papéis menores ou comerciais para sobreviver, entre outras coisas”.
Com humor e sinceridade, o espetáculo também aborda o desejo e a intimidade na maturidade. “Eles tinham um crush um pelo outro, só que não tiveram nada no passado porque eram casados. Agora, eles têm uma cena de cama divertidíssima: ela apaga a luz porque não quer mostrar o corpo, mas dá tudo errado. Ele pisa na perna dela, tem cãibra, e ela solta: ‘Ai meu Deus, cadê meu lubrificante?’. O público ri muito. Depois, eles percebem que podem viver esse amor. É uma comédia romântica, mas também reflexiva”.
Na primeira cena de sexo apagam as luzes. Depois, deixam acesas. Isso mostra que não precisam ter vergonha do corpo mais velho. Cada idade tem sua beleza – Vera Fischer

Vera Fischer no camarim do espetáculo ‘O casal mais sexy da América’, peça que estrela ao lado de Leonardo Franco (Foto: Reprodução/Instagram)
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