Teatro & Pensata

Em papo exclusivo, a incrível atriz e cantora Simone Mazzer revela tudo sobre as duas carreiras e como conciliá-las

Após diversos pedidos, a artista volta ao local para mais shows de “Férias em videotape”. “Esse convite é meu troféu”

Publicado em 28/09/2015 | Por Karina Kuperman

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A cantora e atriz Simone Mazzer soltou sua voz potente nos palcos (Foto: Reprodução/Facebook)

Simone Mazzer nasceu em Londrina e já conquistou o país. Prova disso é o espetáculo que estreou nessa quinta-feira, 24, no Teatro Rival Petrobrás. A atriz e cantora, que já havia marcado presença nos palcos do local, voltou a convite da dona da casa, Ângela Leal. O pedido é facilmente explicável, já que as duas últimas apresentações de Simone lotaram a plateia. “Quando rolou o lançamento do meu disco em março já foi incrível, depois fiz outra apresentação em agosto e, agora, a Ângela nos convidou para ficar em cartaz até o final do ano. Para mim, isso é um troféu. A magia desse palco é impressionante”, declarou Simone. O disco a que ela se refere é “Férias em videotape”, seu primeiro álbum gravado em estúdio e um sonho antigo realizado. “Antes era mais possível, as gravadoras ajudavam. Hoje, para se gravar um disco precisa-se de parcerias. Quando finalmente conseguimos o patrocínio do edital de cultura da Petrobrás, foi um salto na minha história. Com eles, a produtora Cajá e a gravadora Pimba, fiz tudo da forma que eu quis, muito planejado. Demorei três anos para produzir. Quando consegui aliar tudo que a coisa andou”, explicou.

Filha de um mecânico e uma dona de casa, o interesse pela música nasceu com Simone. A mais nova de três irmãos contou que sua adolescência foi marcada por rock inglês. “A minha família não tem perfil artístico. Vivi a música intensamente nos anos 80, uma década que me serve de referência. Amava The Cure, Smiths, U2, David Bowie e outros”, enumerou. Foi quando começou a cantar que as canções brasileiras entraram de fato em sua vida. “Eu tinha uma banda em Londrina, a Chaminé Batom. Uma vez, o dono de um bar de lá nos convidou para homenagear os dez anos da morte de Elis Regina. Pesquisei muito, conversei com várias pessoas que viveram intensamente a época e que a conheceram e fiquei apaixonada. No final das contas o projeto durou 15 anos e ela se tornou uma das minhas grandes inspirações”. Além de Elis, ela destaca nomes como Elza Soares, Angela Maria, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethania, Luiz Melodia e outros. “Através dessa entrada, a banda foi abrindo o leque. Começamos a revisitar repertório de todos eles, que me influenciam até hoje”.

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A multitalentosa Simone Mazzer se apresenta no Teatro Rival após sucesso das temporadas anteriores (Foto: Divulgação)

Simone não para. Atualmente, se dedica a vários projetos em todas as plataformas. Além de se apresentar no Buraco da Lacraia, está gravando duas séries. “O ‘Buraco’ foi um acontecimento na minha vida. Fui assistir ao espetáculo de um grupo de atores e amei. Me tornei frequentadora até que sugeri montar um show de 40 minutos ao lado do meu diretor musical, Marcos Colari, para a abertura da peça. Era pra ficarmos meses, ser um teste, mas já estamos há dois anos, quase três e não pretendo sair tão cedo”. Na televisão, ela divide seu tempo entre as séries “Bruna” e “Ernesto”. A primeira, da Fox, contará a história da garota de programa Bruna Surfistinha. Ainda em pré-produção, Simone adiantou que sua personagem é bem densa. Já na história infantil da TV Brasil, ela será a bruxa Griselda. “Adoro vilões”, confessou.

Experiência com o público jovem ela já tem. Recentemente, Simone esteve em cartaz com a peça “Elvis, mas por quê?”, uma história sobre perdas pela ótica universo da infantil tendo o repertório de Elvis Presley como fio condutor. “Foi uma surpresa esse projeto. Eu aceitei pelo tema. É desafiador falar sobre morte para crianças. Explicar o que é a perda e fazê-las lidar com isso é sensacional. E tudo embalado por músicas de Elvis Presley. A aceitação foi tão incrível que acabamos a temporada em São Paulo mês passado e já vamos voltar para o Rio, onde começamos”, disse, emendando que o segredo para conquistar os pequenos espectadores é tratá-los como iguais. “Não pode lidar com a criança como se ela fosse burra. Tem que falar em uma linguagem normal, aí você ganha eles”, explicou.

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Simone Mazzer no palco apresentando o infantil sobre Elvis Presley (Foto: Reprodução/Facebook)

Além de todos esses projetos, está prestes a lançar o filme “Nise – O coração da loucura” no Festival do Rio. Protagonizado por Glória Pires, o longa conta a história de vida da doutora Nise Silveira. Simone vive uma das pacientes. “O filme está lindo, vimos esses dias. Eu vivo uma esquizofrênica e foi muito rico mergulhar nesse universo em uma época que ser diferente da sociedade em qualquer aspecto era motivo de isolamento em manicômios”, analisou.

Quem pensa que ela, que por sua atuação já foi indicada a diversos prêmios como Shell, APCA e outros, vai aposentar a voz, está enganado. Apesar de tantos trabalhos, Simone Mazzer guarda um lugar especial para a carreira de cantora. “Vou me dedicar à circulação do show. Por mais que já tenhamos feito 20 espetáculos desse disco, está só começando. Ainda vai render muito, quero transformar em DVD. As emoções de fazer diferentes interpretações me completam. Ao cantar, não tenho um personagem. Claro que a música nos leva a emoções, mas é diferente do processo teatral, em que criamos um personagem. Eu amo esse poder criador, é muito instigante construir uma pessoa, mas, por outro lado, não vislumbro a possibilidade de parar de cantar. Me viro para fazer os dois”, garantiu.

E se vira em mil. Com uma cabeça que não para, já pensa no próximo disco. “Tenho várias ideias para os próximos, mas não posso falar nenhuma delas, infelizmente. É um projeto embrionário”. No show atual, Simone divide o palco com seu convidado especial, Jards Macalé. “Nesse show eu canto todas as músicas do meu disco, duas do Macalé e outras que incluí no repertório. É um prazer tê-lo comigo no palco”, disse ela, acostumada a dividir a cena com estrelas. “Tenho um projeto com o Adriano Garib, já estamos até selecionando repertório. Queremos falar sobre essa galera que ficou à margem do mercado musical e que tem obras riquíssimas. Eu e Adriano somos atores e amamos música, então isso vai sair do papel muito em breve”, contou.

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Simone Mazzer no palco do Teatro Rival Petrobrás (Foto: Andrea Nestrea)

Com toda humildade, Simone mostra que, apesar da rotina atribulada, sua vida não é só glamour. Ela ajuda na produção e não se importa em atender telefones e responder e-mails. “Não me considero uma diva, isso é uma brincadeira. A diva é intocável e eu não me encaixo no perfil. Sou mais uma tentando viver do que faz com dignidade e movida pela paixão”, disse ela, que se divide entre o underground e o glamour dos shows. “Transito por todos os meios, gosto de circular”, declarou.

A artista acredita que a glamurização da arte pode formar barreiras. “Na verdade há um contrasenso. É paradoxal, porque existem muitas opções, como programas na web, televisão paga, aberta, cinema, teatro… mas ao mesmo tempo o mercado está inflado, então fica muito difícil cavar um espaço significativo”, opinou. Ainda assim, fez questão de dizer que é possível se firmar no meio. “Principalmente com essa onda de musicais, escolas, disciplinas para aperfeiçar, técnica, figurino, cenário. Atualmente se estuda mais, existem cursos, tem preparo”, disse.

Simone contou que não sente diferença entre apresentar seu disco em um show e cantar sem um trabalho por trás. “Eu levo muito a sério sempre. Lógico que existe uma pressão diferente pela expectativa que as pessoas criam, mas não encaro com peso”, disse. A exposição, para Simone, é sempre um risco. “É punk meter a cara. Tem que estar preparado. Mas eu amo essa sensação, a adrenalina, o ao vivo, shows, ver as pessoas perto. Gosto de me apresentar em lugares pequenos onde sinto a energia do público. Aí o jogo funciona perfeitamente bem”, declarou, antes de subir ao palco para fazer o que sabe bem e ser aplaudida mais uma vez.

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