Teatro & Pensata

Em cartaz com texto de Oscar Wilde, Karin Roepke afirma ver muitas semelhanças com o cenário atual: “A peça é um reflexo de hoje, a sociedade não mudou”

'Marido ideal' já foi reproduzido pelos estudios norte-americanos em 2000 com direito a Cate Blanchett no papel de Karin. A peça que volta no dia 5 de julho, no Teatro Dulcina, depois de uma curta temporada em maio, fala sobre ambições e falsidade

Publicado em 30/06/2017 | Por Ana Clara Xavier

Podemos comparar um texto do final do século XIX com a nossa realidade atual? Karin Roepke afirma que sim e vê mil e uma semelhanças. O texto do irlandês Oscar WildeMarido ideal’ retrata a burguesia da época em que o mundo estava iniciando sua industrialização. A comédia dirigida por Gilberto Gawronski abrange todo o humor irônico e faz o público refletir sobre os limites da ambição, lealdade e amor. A atriz interpreta Gertrude Chivas, a mulher do ministro Robert, e ambos vivem sobre as aparências que apresentam à sociedade. O passado de seu marido vem à tona ao descobrirem que construiu sua fortuna vendendo segredos de Estado sobre o Canal de Suez e, agora, ele precisa decidir entre sua reputação e a verdade. Um simples escândalo poderia arruinar a vida que ambos vem levando. “Ela é esposa do marido ideal e seria o que chamamos hoje de ‘bela, recatada e do lar’. É uma personagem forte que tem conceitos morais muito arraigados e rígidos. Mas, ao longo da peça, o público percebe que não é exatamente assim. Essa dualidade é muito interessante para qualquer personagem. Funciona como um retrato das pessoas, uma crítica aos nossos costumes e formas de agir”, informa Karin. Gertrude, no fim, acaba mostrando que não segue tão à risca este padrão, expondo suas verdades e insatisfações, deixando de ser a ‘esposa perfeita’.

Karin Roepke interpreta a principal da peça, a mulher do ‘Marido ideal’ (Foto: Vinicius Mochizuke)

Como o texto fala sobre a situação política da época, a atriz não pode deixar de comparar ao que estamos vivendo no momento. A sociedade de aparências, cheia de mentiras e desvios de dinheiro, é muito similar ao que temos hoje no âmbito nacional. “Vejo uma relação enorme com a política. Enquanto nós estávamos ensaiando fazíamos paralelos direto com Brasília e, agora, os espectadores fazem isto. O que nós vemos no noticiário é o que o Oscar escreveu no final do século XIX, é muito atual. As pessoas continuam as mesmas, corruptas e desonestas. A peça é um reflexo de hoje, a sociedade não mudou. Não evoluímos nada”, lamentou a atriz que afirma não perder uma notícia sobre a situação política do país.

Apesar das fortes comparações feitas por ela mesma, a peça não deixa de ser uma comédia que promete fazer todo o público rir.  “Quem for assistir não vai se sentir pressionado, porque vai se deparar com um retrato do que somos. A identificação vai ser através do riso”, tranquilizou. Para quebrar o gelo, inclusive, a atriz cita o início do espetáculo que busca envolver o espectador desde o princípio. “O legal é que nós recebemos as pessoas. A primeira cena se passa em uma festa e a ideia é que todos entrem com a gente. Então, servimos champanhe e bem-casado”, comentou.

Mesmo trazendo críticas de maneira suave, de acordo com a atriz, a peça traz uma aproximação maior com espectador do que no filme produzido nas telonas. A produção dos Estados Unidos é do ano de 2000 e reúne grande elenco como Cate Blanchett, Rupert Everett, Julianne Moore, Oliver Parker e Jeremy Northam. “A linguagem que o diretor estabeleceu é completamente diferente, pois é irreverente. Já nas telonas é clássica e careta, porque se preocuparam apenas em retratar a obra, não há uma crítica ou opinião como o nosso diretor faz. O Gilberto usa cores mais quentes ao contrário da produção de Hollywood que usa apenas tons pastéis, trazendo algo bem fino e caro. Isso influi até nos personagens já que os nossos são mais picantes”, avaliou a atriz. Dessa forma, é possível sentir uma maior proximidade dos eventos com a atualidade.

(Foto: Alex Santana)

Mesmo interpretando uma mulher reservada como Gertrude, Karin mostrou não ser nen um pouco parecida com sua personagem, já que a atriz batalhou desde pequena até chegar a sua carreira atual. Mesmo tendo se formado em arquitetura primeiro em Brasília, na cidade aonde cresceu. “Desde pequena fazia teatro e dança. Mas na época de escolher a profissão, tive receio de não conseguir me virar como atriz. Acabei achando na arquitetura algo que me alimentasse artisticamente, mas nunca foi o suficiente. Só que não estava feliz, então, fui para São Paulo fazer um curso e passei para um musical de Wolf Maya. Desde 2005, sou uma atriz. Foi o destino me mostrando que meu lugar era nos palcos”, contou. Mesmo nunca tendo amado arquitetura como acontece com as artes cênicas, Karin ainda gosta de ver construções de prédio e visitar museus sobre o tema.

(Foto: Alex Santana)

Batalhar por sua atual profissão trouxe a dificuldade de mudar de cidade. A artista saiu da capital do país para viver em cidades maiores e mais povoadas que a antiga. “No início, achava São Paulo e Rio caóticos, porque Brasília é toda setorizada e o comportamento das pessoas é diferente porque a cidade não proporciona muitos encontros. Aqui é o contrário. Mas no Rio encontrei um meio termo”, indicou Karin que hoje vive no Rio de Janeiro ao lado do marido, Edson Celulari. O casal se conheceu durante o musical ‘Hairspray’, em 2010. “Tenho um marido ideal, mas que não é como o da peça porque o da ficção é fajuto. O meu é perfeito para mim. Temos uma vida muito bacana juntos, está tudo certo”, garantiu.

Ainda este ano, a atriz pretende continuar viajando com a peça que volta a entrar em cartaz no dia 5 de julho, no Teatro Dulcina, no Rio . “Além de ‘Marido ideal’, tem um outro trabalho que se chama ‘Mulheres da Casa’ que são quatro monólogos de quatro atrizes diferentes nos quais vamos falar sobre o universo feminino, ainda este ano. Está sendo bem interessante fazer a pesquisa e ver o que quero falar enquanto artista, porque nesta peça vamos colocar nossas opiniões sobre temas distintos”, informou.

 

 

Serviço

Local: Teatro Dulcina (Rua Alcindo Guanabara, 17 – Centro, Rio de Janeiro/RJ)

Temporada: De 06/07 a 28/07 – Quartas, Quintas e Sextas as 19h

Ingressos: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia)

Classificação: 14 anos

Duração: 80 min

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