Edson Fieschi volta aos palcos e escancara os efeitos devastadores da internet na saúde mental e do julgamento etário


Com quase 40 anos de carreira como ator, e 20 como produtor, Fieschi que também capitaneia a produção do premiado ‘Prima Facie’, com Débora Falabella; fala ainda de ‘Vale Tudo’, sua primeira novela em 1988, e opina sobre o remake. Além disso, reflete sobre os efeitos da tecnologia na mente, a invisibilidade dos corpos maduros e o papel do teatro como provocador do presente. “A sociedade precisa ser chacoalhada. E o teatro é isso: você fecha as portas e liga o liquidificador”, diz

*Por Brunna Condini

Conhecido por trabalhos na TV e no teatro, Edson Fieschi está de volta aos palcos com ‘Job’. O espetáculo lança luz sobre um dos temas mais relevantes da contemporaneidade: o impacto da internet na saúde mental. Ao lado de Bianca Bin, que interpreta uma funcionária de uma grande empresa de tecnologia, responsável por moderar conteúdos no ambiente tóxico da internet, Fieschi vive o terapeuta que a atende após um colapso viralizado. Em conversa franca, o ator fala sobre os desafios de produzir e atuar, a superficialidade das redes, o julgamento etário e o papel do teatro em tempos de anestesia coletiva.

“Não sabemos mais quem é o vilão e quem é o mocinho na internet, que acabou dando voz aos idiotas, como diz Umberto Eco (1932-2016). A minha geração era focada no psicodelismo. Hoje, a dopamina que brota nos efeitos dos celulares tem o mesmo efeito, é lisérgica nas pessoas. É a cultura passada e a de hoje, mas as duas estão forjadas no egocentrismo, no prazer imediato, no dedinho passando no feed”, diz o produtor do premiado ‘Prima Facie‘, com Débora Falabella. 

Ele também opina sobre o remake de ‘Vale Tudo’, sua primeira novela em 1988, e comenta sobre as tramas na atualidade. Com quase 40 anos de carreira como ator, e 20 como produtor, Fieschi guarda com carinho as memórias de sua estreia no clássico de Gilberto Braga (1945-2021). O papel era pequeno, mas o convite veio do próprio autor, e marcou o início de uma amizade profissional que atravessaria décadas. “Foi o Gilberto quem me chamou. Depois disso, viramos amigos. Ele, inclusive, traduziu ‘O Estranho Casal’, um dos maiores sucessos que produzi no teatro. Brinquei com ele. “Agora você vai trabalhar pra mim!”, recorda.

Edson Fieschi volta aos palcos com 'Job', ao lado de Bianca Bin, e reflete sobre os desafios da era digital, saúde mental e o papel provocador do teatro (Foto: Robert Schwenck)

Edson Fieschi volta aos palcos com ‘Job’, ao lado de Bianca Bin, e reflete sobre os desafios da era digital, saúde mental e o papel provocador do teatro (Foto: Robert Schwenck)

A conexão com a novela voltou à tona com o remake, quando Adriana Esteves o avisou que seu personagem, Carlos, ganharia vida na atual versão através de Felipe Ricca, filho da atriz com Marco Ricca. “Ela me mandou mensagem dizendo: “Adivinha quem vai fazer seu papel?”. Quando fiz, o personagem era do universo da natação. Hoje ele está no universo da hípica”.

Fieschi também observa com atenção o atual momento da teledramaturgia brasileira, especialmente a releitura de ‘Vale Tudo’, trama que tem estado no centro de muitas críticas.  “No começo, confesso que fiquei reticente. Mas quando vi a Débora Bloch trazendo a Odete Roitman dela, entendi que aquilo já passou. Débora está incrível, trouxe a personagem para ela. Se passaram 40 anos. A novela original é de outra época”, reflete. Para ele, insistir em comparações entre versões, como entre Paolla Oliveira e Renata Sorrah (a primeira faz Helena Roitman hoje e a segunda fez na versão original), é um exercício cruel e pouco produtivo. “A comparação sempre exclui. Vejo ‘Vale Tudo’ hoje e acredito. Gosto como espectador”.

Edson Fieschi e Renata Castro Barbosa em 'Vale Tudo' (Reprodução/ Globo)

Edson Fieschi e Renata Castro Barbosa em ‘Vale Tudo’ (Reprodução/ Globo)

O ator enxerga um desafio nas novelas contemporâneas: a tentativa de emular o formato das séries, perdendo, muitas vezes, sua identidade. “Série é série, novela é novela”, afirma, ressaltando que o consumo mudou drasticamente e o público jovem já não assiste à televisão como antes. “Minha geração ainda vê novela. A garotada, quando vê, é no streaming”. Apesar de defender a renovação de elenco e linguagens, Fieschi aponta a importância de preservar rostos e nomes que construíram a história da televisão brasileira:

As pessoas querem ligar a TV e ver a Suzana Vieira. Novela é aquilo que entra na sua casa. E quem você quer que entre no seu lar? Quem te acompanhou a vida inteira. É memória afetiva. É claro que essas pessoas não vão ficar pra sempre. É importante ir introduzindo novos atores. Mas acho que está faltando equilíbrio, entre o espaço para quem fez a história da TV, e para quem chega – Edson Fieschi

Etarismo

Ao longo da conversa, Edson Fieschi toca em um ponto sensível, e que precisa ser debatido com profundidade no meio artístico: o etarismo. Aos 61 anos, ele percebe que, apesar da longa trajetória, nem sempre há papéis disponíveis para atores de sua faixa etária, especialmente quando se trata de personagens que fogem do estereótipo do ‘idoso’. “Às vezes, aquele papel era para um ator de 60 anos, mas vai para alguém de 80. Parece que estão espremendo ao máximo os mesmos nomes, enquanto outros ficam num limbo”, aponta.

Ele ressalta, no entanto, que a situação é ainda mais dura para as mulheres, sobretudo para as atrizes que seguem lindas e ativas nos 60+. “Eles ainda não sabem o que fazer com essas mulheres. Às vezes tem uma só na novela”, observa. O etarismo, segundo ele, se manifesta tanto na escalação quanto no tipo de narrativa que se permite contar com corpos maduros. E quando esses corpos ousam viver afetos, desejos ou relações fora da curva — como ele mesmo viveu ao se envolver com um parceiro mais jovem (o modelo Alexandre Vesper, de 19 anos) — o julgamento social se intensifica. “Tudo pode, até a página dois. As pessoas aceitam o moderno só até onde não as incomoda”. Sobre a repercussão de fotos suas publicadas em um site com o modelo em maio deste ano, diz: “Pegaram na minha rede social e publicaram fora de contexto para ter cliques. Não sou influencer, minha vida pessoal não tem a menor importância. E isso é velho, esse namoro nem existe mais. Estou solteiro. Gosto mesmo é de falar do meu trabalho, isso tem relevância”.

“Produzir me tornou um ator melhor” (Foto: Robert Schwenck)

“Produzir me tornou um ator melhor” (Foto: Robert Schwenck)

O produtor e o espetáculo

Além de atuar, ele também assina a produção de ‘Job’, e destaca que produzir é mais do que viabilizar um espetáculo: é mergulhar em todas as etapas do processo, do edital à estreia, passando pela Rouanet, planilhas, transporte de cenário e até vestir o colega de cena, se for preciso. “Você vai ganhando uma certeza de que é um trabalho coletivo. Se não tiver você, não anda. Se não tiver o cara da luz, também não anda”. Esse envolvimento com os bastidores, afirma, o transformou em um artista mais completo: “Produzir me tornou um ator melhor”.

Em ‘Job’, dirigido por Fernando Philbert com texto de Max Wolf Friedlich, Fieschi vê mais do que um espetáculo, enxerga uma ferramenta de provocação social. Segundo o ator, a peça escancara um comportamento coletivo adoecido, evidenciando o abismo entre a promessa de conexão das redes e o impacto real que elas podem causar na saúde mental. “O espetáculo aborda esse buraco da saúde mental que muitas vezes está associado ao uso desenfreado da tecnologia”. Para ele, o teatro atinge sua máxima potência quando dialoga com o presente e não se esquiva do desconforto. “Não que a gente não deva fazer Shakespeare, pode, claro, deve. Mas a sociedade está precisando ser chacoalhada. E o teatro é isso: você fecha as portas e liga o liquidificador. Não tem como escapar.” Depois do sucesso de ‘Prima Facie’ , Fieschi ele acredita que ‘Job’ também cumprirá esse papel de estremecer o público:

A rede social precisa ser repensada, regulada. E o teatro é um bom lugar para continuar esse tipo de conversa – Edson Fieschi

Bianca Bin e Edson Fieschi estrelam 'Job' (Divulgação)

Bianca Bin e Edson Fieschi estrelam ‘Job’ (Divulgação)