Drica Moraes volta aos palcos, celebra cura da leucemia e fala da invisibilidade das atrizes maduras e de sexualidade


Aos 56 anos, ela retorna aos palcos com a comédia ‘Férias’, ao lado de Enrique Diaz. Nesta entrevista, Drica fala do espetáculo que põe uma lente sobre as relações de longo prazo, celebra 15 anos de seu renascimento após se curar da leucemia com um transplante de medula, reflete sobre humor como resistência, analisa a invisibilidade das atrizes maduras no audiovisual, e fala do prazer de viver (e desejar) depois dos 50. “Sinto muito tesão, muito prazer com meus parceiros… botando já no plural. Mas eu nunca estou só, como diria Zezé Motta”, brinca. “É um privilégio conhecer o próprio corpo, saber onde e como é gostoso. Quando a gente é jovem, se acha feia, se critica, sofre para transar. Na maturidade, você surfa mais”

*Por Brunna Condini

Drica Moraes está em cena como quem renasce — e não apenas porque acaba de completar 40 anos de carreira ou porque, há 15, sobreviveu a uma leucemia e renasceu, literalmente, após um transplante de medula óssea. Ela está em cena porque quer viver com desejo, com humor e com verdade. E é assim que volta ao palco com a nova temporada da comédia ‘Férias’, agora ao lado de Enrique Diaz — ator, diretor e também seu ex-namorado. Juntos, eles dão nova forma ao casal protagonista da peça escrita por Jô Bilac, que reestreia no Teatro Claro Mais RJ, em Copacabana, no dia 8 de agosto. “Precisamos do humor como um contraponto. Vivemos tempos duros. A comédia é quase um remédio contra a absoluta falta de esperança”, diz Drica, que encomendou o texto justamente para marcar suas quatro décadas nos palcos, e pediu: “Quero rir”. Mais do que isso, queria rir com profundidade, falar de um amor que não se rompe, mas se reinventa com o tempo. Assim como ela própria. Aos 56 anos, a atriz está em plena “envelhecência”, termo que tomou emprestado de Mario Prata para falar, sem eufemismos nem clichês, sobre a beleza da maturidade:

Se você não botar sua punção de vida em jogo, morre mesmo no sofá da sala, com a boca escancarada, esperando a morte chegar – Drica Moraes

Nesta entrevista, Drica reflete sobre o humor como resistência e ferramenta de crítica, fala da reinvenção constante da mulher e da atriz depois dos 50, denuncia o etarismo no audiovisual e a invisibilidade das atrizes maduras. Celebra a liberdade de viver o desejo na maturidade e compartilha o que aprendeu sobre si após renascer de uma leucemia e um transplante de medula. Fala também da cumplicidade de mais de 40 anos com Enrique Diaz — dentro e fora da cena, e da importância de manter os pés no chão em meio à fama.

Drica reflete sobre o humor, a reinvenção da mulher após os 50, o etarismo no audiovisual, a liberdade de viver o desejo na maturidade, e diz o que aprendeu após renascer de uma leucemia (Foto: Flávia Canavarro)

Drica reflete sobre o humor, a reinvenção da mulher após os 50, o etarismo no audiovisual, a liberdade de viver o desejo na maturidade, e diz o que aprendeu após renascer de uma leucemia (Foto: Flávia Canavarro)

O riso como antídoto

‘Férias’ não é apenas uma comédia de casal. O espetáculo pretende ser uma lente sobre as relações de longo prazo, o desejo que persiste e o tempo que transforma. Em cena, Drica vive uma mulher que, após anos de casamento, precisa reinventar a convivência, as conversas, os códigos do afeto e da intimidade. Um espelho da vida real, mas com o humor como lubrificante da dor. “A comédia é uma espécie de remédio contra a absoluta falta de esperança nas coisas. Com ela, você consegue tocar em assuntos belicosos, controversos, de maneira leve. O humor desarma o público”, reflete.

“Não vivo sem dar gargalhada de tudo. Passei pelas piores fases da minha vida, sempre com um olhar gaiato, sabendo que por mais dura que fosse a situação, havia um lugar onde poderia colocar as coisas em relatividade. Com o humor, você se vê ridícula também nas situações, se vê em jogo, vê quanto sofrimento desproporcional passou por amor, ou por falta disso, ou falta daquilo, ou por se achar feia, ou por se achar mal amada. Passamos por situações muito tristes e dramáticas, mas quando temos esse olhar distanciado, ganhamos um leque de possibilidades muito maior para enfrentar as dificuldades”.

Drica Moraes e Enrique Diaz reestreiam o espetáculo 'Férias' (Foto: Leo Aversa)

Drica Moraes e Enrique Diaz reestreiam o espetáculo ‘Férias’ (Foto: Leo Aversa)

A peça, dirigida por Debora Lamm e Diaz, que substitui Fabio Assunção em cena, é também uma espécie de manifesto artístico contra o apagamento da maturidade. A decisão de Drica em protagonizar uma história centrada em personagens de 50 anos não é casual.

Os atores de 50 vão saindo das histórias, do audiovisual. As atrizes, então, somem. Não fazem mais a gatinha, nem a mãe jovem, nem a amante. Sobram os papéis de mulher abandonada, da sofredora É só desgraça em cima da mulher de 50. Mas eu me sinto no auge de tudo, da minha sexualidade, totalmente reinventada – Drica Moraes

E é nesse ponto que a atriz acende uma das discussões mais instigantes da conversa: o prazer feminino na maturidade, ainda tabu para muitos. “Fiquei na menopausa com 39 anos, quando estive doente (Em 2010 ela descobriu uma leucemia mieloide aguda e realizou um transplante de medula óssea que a curou). Hoje, aos 56, é como se eu tivesse resetado. Sinto muito tesão, muito prazer com meus parceiros… botando já no plural. Mas eu nunca estou só, como diria Zezé Motta”, brinca. “É um privilégio conhecer o próprio corpo, saber onde e como é gostoso. Quando a gente é jovem, se acha feia, se critica, sofre para transar. Na maturidade, você surfa mais. E completa:

Acho lindo se conhecer. Dá um tesão enorme continuar nessa coisa de se jogar, mas se conhecendo nesse ‘jogo da vida’. É tão bonito amadurecer. Só tenho a agradecer mesmo, acho uma bênção estar viva com tanta energia – Drica Moraes

“Não vivo sem dar gargalhada de tudo. Passei pelas piores fases da minha vida, sempre com um olhar gaiato" (Foto: Flávia Canavarro)

“Não vivo sem dar gargalhada de tudo. Passei pelas piores fases da minha vida, sempre com um olhar gaiato” (Foto: Flávia Canavarro)

Ao lado de Enrique Diaz, Drica divide a cena com cumplicidade de quem já se reinventou junto muitas vezes também. “Ele é a pessoa que mais sabe de mim. Sabemos tudo um do outro, temos muita semelhança na maneira de interpretar, na fisicalidade, no tempo de cena. É um reencontro bonito, potente”, diz sobre o parceiro de palco e vida, com quem compartilhou, inclusive, os primeiros passos no teatro, ainda nos anos 80. Eles fundaram, juntos, a companhia teatral Cia. dos Atores, onde permaneceram até 2013.

Segunda vida

Drica hoje não abre mão de viver com presença. “É preciso se jogar, amar ilimitadamente, conhecer o mistério da vida. Porque senão, você morre na cadeira do sofá da sala mesmo, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”, dispara, citando parte da música ‘Ouro de Tolo’, de Raul Seixas.

Há um mês a atriz usou suas redes sociais para relembrar uma data super importante, que considera a do seu renascimento, já que o transplante de medula que fez tinha apenas 25% de chance de sucesso. “Vou sempre celebrar a data. É sempre muito emocionante, miraculoso. Muita gente não sobrevive, então, vibro, agradeço. Fico feliz com coisas tão bobas hoje, que tenho até vergonha de falar. Eu realmente acordo e olho para o céu e acho um espetáculo, fico muito deslumbrada com a vida. Acho tudo um prazer muito profundo”.

“Precisamos do humor como um contraponto. Vivemos tempos duros. A comédia é quase um remédio contra a absoluta falta de esperança” (Foto: Flávia Canavarro)

“Precisamos do humor como um contraponto. Vivemos tempos duros. A comédia é quase um remédio contra a absoluta falta de esperança” (Foto: Flávia Canavarro)

Toda essa experiência deu contornos definitivos ao modo como ela encara suas escolhas:

Não tenho mais tempo para não estar inteira nas coisas. E com muito amor. O amor justifica tudo. O amor  pelo trabalho, pelas pessoas, pelo outro, pelo desconhecido. Ter esse amor e respeito também pelas coisas que não são suas, principalmente nesse mundo tão abusado, onde a gente se sente dono da mata, da praia…não abro mão – Drica Moraes

Um olhar no mercado e outro nas pessoas

O amor pelo ofício também inclui o olhar crítico sobre a indústria que a consagrou. Drica não poupa o mercado audiovisual de sua crítica ao etarismo estrutural. “Ainda soa como cota. Vejo poucos atores com mais de 70 com narrativas contundentes, por exemplo. É como se fosse para inglês ver. A gente precisa de histórias reais, potentes, com diversidade de idade também”. E completa: “Tem muita vida depois da vida que a gente achava que era a melhor parte da vida”.

Com uma carreira bem-sucedida, a atriz mantém os pés no chão e se recusa a habitar o universo paralelo da fama. Foi andando de metrô, por exemplo — um gesto absolutamente cotidiano — que viralizou ano passado. “É uma cafonice tupiniquim. Na Europa você posta que está de metrô. Aqui, viraliza. O artista precisa estar na rua. A rua é o nosso campo de pesquisa. Não sou herdeira, não casei com homem rico, minha vida foi construída com minhas batalhas. Me afastar disso seria perigoso. E cafonérrimo”.

E se pudesse conversar com a jovem Drica dos anos 1980, recém-chegada ao teatro, o recado seria direto e afetuoso: “Diria para não perder tanto tempo com autocrítica, com perfeccionismo. De resto, acho que fui muito corajosa. Tenho orgulho de ter bancado minhas vontades cedo. E diria: tenha paciência, o tempo coloca tudo no lugar certo”. Drica, hoje, fala com a leveza de quem atravessou o caos e escolheu a alegria como trilho. Em ‘Férias’, ela oferece ao público um reflexo possível: de que sim, é possível rir, amar, desejar e recomeçar , mesmo depois do que parecia ser o fim.

“Tem muita vida depois da vida que a gente achava que era a melhor parte da vida" (Foto: Leo Aversa)

“Tem muita vida depois da vida que a gente achava que era a melhor parte da vida” (Foto: Leo Aversa)