*Por Brunna Condini
Junho é reconhecido mundialmente como o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, período que rememora a Revolta de Stonewall, ocorrida em Nova York, em 1969, considerada um dos marcos fundadores da luta contemporânea pelos direitos civis da população LGBTQIAPN+. No próximo dia 28, data que simboliza esse levante histórico, celebra-se o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, um momento de memória, resistência e reflexão sobre os avanços conquistados, e os desafios que permanecem.
Neste contexto, a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de São Paulo chegou à sua 30ª edição no início deste mês, lançando uma provocação que parece sintetizar uma nova etapa dessa trajetória: “A rua convoca, a urna confirma”. Em 2026, os brasileiros voltarão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados. Em um ano eleitoral, a maior manifestação LGBTQIAPN+ da América Latina parece direcionar seu olhar para uma questão que vai além da celebração da diversidade: quem ocupa os espaços onde as decisões são tomadas?

Em ano eleitoral, o Dia do Orgulho LGBTQIA+ lança uma pergunta: quem ocupa os espaços de poder? (Imagem: Pixabay)
Durante décadas, uma das principais bandeiras do movimento LGBTQIAPN+ foi a visibilidade. Existir sem precisar se esconder. Amar sem medo. Ocupar espaços historicamente negados. E é impossível negar o quanto o cenário mudou. Hoje, a comunidade está presente em novelas, séries, filmes, campanhas publicitárias, passarelas, festivais de música e redes sociais. Artistas, influenciadores, atletas e personalidades LGBTQIAPN+ conquistaram espaço e ajudaram a ampliar o repertório de referências de toda uma geração. Mas talvez a principal provocação dos 30 anos da Parada esteja justamente na compreensão de que visibilidade e representação não são a mesma coisa.
Uma sociedade pode celebrar a diversidade em campanhas publicitárias, consumir artistas LGBTQIAPN+ e acompanhar personagens queer nas novelas do horário nobre. Ainda assim, isso não garante que essa mesma diversidade esteja presente nos espaços onde se formulam leis, se definem políticas públicas e se tomam decisões capazes de impactar milhões de vidas. É fundamental que a representatividade também seja política e estrutural, senão ela pode produzir apenas uma sensação de inclusão. A visibilidade sozinha, não garante direitos nem combate desigualdades históricas. Quando a diversidade é celebrada na cultura, mas permanece sub-representada nas instâncias de poder, o debate sobre cidadania corre o risco de ser esvaziado, enquanto a violência, a marginalização e as barreiras ao pleno exercício da cidadania continuam fazendo parte da realidade de muitas pessoas LGBTQIAPN+.
Ao longo dessas três décadas, a Avenida Paulista se consolidou como muito mais do que um espaço de celebração. Tornou-se uma arena simbólica onde reivindicações históricas ganharam voz, mobilizaram a opinião pública e ajudaram a impulsionar transformações que mais tarde seriam reconhecidas pelas instituições brasileiras, como lembrou Matheus Emílio Pereira da Silva, diretor da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.
Todos os direitos que hoje temos da população LGBT+ passaram pela Avenida Paulista – Matheus Emílio Pereira da Silva
A declaração chama atenção para algo que muitas vezes passa despercebido: antes de chegarem aos tribunais, ao Congresso ou aos gabinetes, muitas das pautas ligadas aos direitos da população LGBTQIAPN+ passaram primeiro pelas ruas, que é onde a vida acontece:
Em 2005 tratamos sobre o direito à união estável e, uma década depois, isso foi reconhecido pelo STF. Já tratamos sobre a criminalização da LGBTfobia. Em 2006 trouxemos esse tema e, depois, o STF também veio a reconhecer isso equiparando a questão da LGBTfobia ao crime de racismo. Falamos sobre direitos da população trans, direito à doação de sangue, direito à adoção. Todos esses foram temas que, antes de estarem nos tribunais, passaram pela Avenida Paulista. Então, isso mostra a importância da Parada de São Paulo nessas três décadas de lutas – Matheus Emílio Pereira da Silva

Depois da visibilidade, a representação: a reflexão que o Dia do Orgulho LGBTQIA+ traz para o presente (Imagem: Pixabay)
Pensar nisso, ajuda a compreender a dimensão política da Parada. Ela nunca foi apenas uma celebração da identidade. Foi também um espaço de formulação de pautas, de pressão social e de construção de cidadania. Muitas das conquistas que hoje parecem consolidadas nasceram primeiro como reivindicação coletiva, muito antes de se transformarem em decisões judiciais ou políticas públicas. No entanto, a própria história recente mostra que direitos conquistados não são necessariamente direitos garantidos para sempre. Em diferentes partes do mundo, e infelizmente, também no Brasil, temas ligados à população LGBTQIAPN+ continuam frequentemente atravessados por disputas ideológicas, jurídicas e legislativas. O que leva a uma pergunta inevitável: quem está sentado à mesa quando essas decisões são tomadas? É importante saber e fazer parte dessa decisão.
A deputada federal Erika Hilton trouxe essa reflexão para o centro do debate ao lembrar que a luta continua sendo, ao mesmo tempo, uma celebração da existência e uma denúncia das violências que ainda atingem a comunidade.
A gente ocupa os espaços que são nossos por direito. Nós seguiremos denunciando a violência que ainda assola a nossa comunidade. São dez anos da execução brutal de Luana Barbosa. Nós temos Laura Vermont e uma série de outras vítimas dessa sociedade cruel, odiosa e LGBTfóbica – Erika Hilton

Erika Hilton discursa na 30ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo (Reprodução/Instagram)
Erika reforçou ainda, o caráter simbólico da manifestação. “Hoje nós tomamos esse lugar, como fazemos há 30 anos, para dizer: nossas vidas importam. Nenhum direito a menos, nenhuma vida a menos. Nós queremos amar, nós queremos viver, nós queremos celebrar, e nós vamos continuar”. A fala ecoa uma verdade fundamental. A luta por direitos não nasce apenas da reivindicação jurídica. Ela nasce do reconhecimento da humanidade daqueles, que durante muito tempo, foram empurrados para as margens. Mas talvez o trecho mais emblemático de seu discurso tenha sido justamente o encerramento, quando frisou: “A rua chama e a urna confirma”.
A frase resume uma mudança importante no horizonte do movimento. Durante décadas, a rua foi o principal palco da resistência. Foi nela que a comunidade conquistou visibilidade, reconhecimento e espaço na esfera pública. Agora, o desafio parece ser transformar essa presença social em participação institucional. Talvez essa seja a grande discussão proposta pelos 30 anos da Parada LGBT+ de São Paulo para o presente. Ser visto continua sendo uma forma de existir, mas passados mais de cinquenta anos de Stonewall e três décadas da maior Parada LGBT+ da América Latina, talvez a pergunta tenha mudado.

“A rua convoca, a urna confirma” (Imagem: Pixabay)
Se a luta do passado foi para ocupar as ruas, a do presente pode ser ocupar também os espaços de decisão. Porque aparecer importa e ser ouvido também. Mas participar da construção das leis, das políticas públicas e dos rumos do país talvez seja o caminho para transformar visibilidade em cidadania plena. E representação em permanência.
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