Janeiro costuma vir carregado de promessas, balanços, resoluções e recomeços, um período em que somos quase convocados a rever quem fomos e quem queremos ser. É também quando o corpo entra em pauta de forma mais explícita: metas de saúde, projetos de mudança, retomadas de rotina, cobranças silenciosas por transformação. Por isso, propomos a reflexão: o que muitas das escolhas atuais e hypadas em relação à transformação (ou não) dos corpos, querem nos dizer sobre o tempo em que vivemos?
Talvez a pergunta central não seja o que está sendo feito com o corpo — explantar, definir, marcar, suavizar —, mas por que essas decisões têm se tornado cada vez mais visíveis e comentadas. Em 2026, o corpo continua a ocupar o centro do discurso público não apenas como superfície estética, mas como território simbólico, político e emocional. Ele atravessa debates sobre saúde e bem-estar, direitos reprodutivos, envelhecimento, performance, maternidade, tecnologia e exposição digital. Nesse cenário, cada escolha passou a carregar significado. Não é só sobre cirurgia, treino ou ausência de intervenção, mas sobre o que se comunica quando se mostra, ou quando se decide não mostrar. O corpo virou linguagem social: fala de pertencimento a certos grupos, de tentativas de controle em um mundo instável, de exaustão diante de padrões inalcançáveis e, ao mesmo tempo, de desejo por autonomia. Ele revela tensões entre o que se espera de nós e o que conseguimos sustentar.
A amplificação dessas decisões nas redes sociais não é casual. Vivemos uma cultura em que o corpo circula como imagem, dado e narrativa pessoal, atravessado por filtros, métricas e algoritmos. Tornar uma escolha estética visível, é, para além de uma opção individual, também uma forma de se posicionar diante do olhar coletivo. Por isso, essas decisões ganharam peso público: elas funcionam como respostas individuais a pressões coletivas, principalmente, quando a pessoa em questão é famosa. E mulher.

Antes e depois de Suzana Alves, que fez o explante de silicone (Foto: Reprodução / Instagram)
É nesse contexto que movimentos aparentemente opostos convivem. De um lado, mulheres que optam pelo explante de silicone, por exemplo, não como rejeição à estética, mas como recusa a sustentar versões antigas de si mesmas. Suzana Alves, que por mais de duas décadas teve sua imagem pública associada a um corpo hipersexualizado por conta da personagem Tiazinha; descreveu o explante como um gesto de libertação pessoal: retirar as próteses foi, para ela, romper com uma identidade construída para o olhar do outro e assumir um corpo que dialoga com sua fase atual de vida, valores e espiritualidade. Não se tratou de apagar o passado, mas de deixá-lo no tempo certo.
Já outra Suzana, a Pires chegou ao explante por necessidade. Dores persistentes e incômodos levaram à retirada das próteses, mas o processo acabou se transformando em algo maior do que uma correção médica. Ao relatar a experiência, Suzana falou de reconexão, de maturidade e de um corpo que não precisa mais ser moldado para corresponder a uma imagem fixa de feminilidade. A dor funcionou como ponto de virada, não apenas físico, mas simbólico.

Antes e depois de Suzana Pires, que também fez o explante de silicone (Foto: Reprodução / Instagram)
O que emerge desses relatos não é um ideal de ‘naturalidade’ nem uma negação da estética, mas a busca por coerência entre corpo, história e presente. O corpo deixa de ser um projeto contínuo de aperfeiçoamento para se tornar consequência do tempo vivido, um território que carrega marcas, escolhas e revisões, sem a obrigação de permanecer fiel a versões que já não representam quem se é agora.
Disciplina física, tecnologia estética e exposição digital
De outro lado, ganham força os chamados corpos híbridos, uma das expressões mais claras do nosso tempo: definidos, desenhados, performáticos, construídos na interseção entre disciplina física, tecnologia estética e exposição digital. Ludmilla trouxe esse debate à tona ao exibir um abdômen marcado ( além de aderir a um estilo de vida mais saudável e praticar exercícios, a cantora já se submeteu a uma lipoaspiração de alta definição, conhecida como LAD, Lipo HD ou Lipo LAD), e assumir que buscava um corpo que acompanhasse sua energia de palco e sua rotina intensa de shows, destacando que no caso dela, a definição aparece como extensão da performance artística, um corpo que comunica potência, resistência e presença cênica, mais do que exclusivamente um ideal de beleza.

Brunna Gonçalves e Ludmilla: escolhas para o corpo sonhado (Foto: Reprodução/Instagram)
Sua mulher, a bailarina Brunna Gonçalves, que também já realizou a lipoaspiração de alta definição; chamou atenção ainda durante a gestação, quando imagens de seu abdômen definido circularam amplamente nas redes. Após o nascimento da filha Zuri, a repercussão continuou, reacendendo discussões sobre maternidade, expectativa corporal e limites do corpo feminino. Sua imagem passou a simbolizar um novo imaginário: o da mulher que atravessa a gravidez sem abrir mão de uma estética associada à performance e ao preparo físico, misturando naturalidade biológica e intervenção estratégica. E isso se mantém no pós-parto também, na pressão implícita para que a imagem mantenha esse padrão.

Brunna Gonçalves fala abertamente sobre a importância da valorização dos cuidados com o corpo (Foto: Reprodução/Instagram)
Já a influenciadora Virginia Fonseca transformou o próprio processo corporal em narrativa contínua. Ao surgir com o abdômen definido poucos meses após a última gravidez (foram três gestações praticamente seguidas: Maria Alice, 4; Maria Flor, 2; e José Leonardo, 1); ela compartilhou etapas, cuidados e procedimentos, tratando o corpo como projeto acompanhado em tempo real. A transparência, ainda que cuidadosamente editada, reforça um modelo em que a estética não é segredo, mas conteúdo, engajamento e capital simbólico. A influenciadora fala constantemente sobre a pressão estética nas redes, divulgando que o corpo atual é resultado da sua rotina intensa de exercícios, tudo potencializado por alguns procedimentos estéticos. Antes da primeira gestação, também compartilhou ter realizado uma Lipo LAD, e após o nascimento do terceiro filho, passou por cirurgias para correção de uma hérnia umbilical e uma mastopexia, procedimento que envolve a troca de próteses de silicone.

Virginia Fonseca e a pressão nas redes socias que acompanha as transformações de seu corpo (Foto: Reprodução/Instagram)
O que essas trajetórias revelam não é apenas uma valorização do corpo definido, mas uma mudança na forma de lidar com a intervenção estética. Treino, cirurgia e tecnologia deixam de ser vistos como caminhos opostos e passam a coexistir sem hierarquia moral. O corpo híbrido fala de um tempo que exige performance constante, visibilidade e controle, um corpo que não apenas existe, mas funciona como vitrine de disciplina, sucesso e atualização permanente.
Corpo como posicionamento
Entre esses dois polos existe ainda um campo menos ruidoso, mas igualmente revelador. Há quem opte por intervenções mínimas, quase invisíveis, usadas como manutenção da imagem. E há quem escolha não fazer nada, nem retirar, nem acrescentar, e reivindique o direito de atravessar o tempo sem ajustes ou explicações. Essas decisões raramente viralizam, mas talvez sejam as mais radicais: elas desafiam a lógica de que todo corpo precisa ser constantemente editado para continuar válido no espaço público.
O que une todas essas posturas não é a estética em si, mas a centralidade da decisão. O corpo deixou de ser apenas algo a ser moldado por padrões externos e passou a ser um lugar de posicionamento. Ele responde à biografia, ao contexto, ao cansaço, às ambições e aos limites de cada um. Não há mais um modelo único a seguir, há tentativas de fazer sentido dentro de um mundo que muda rápido demais.
No fundo, o corpo, agora expressa o esforço contínuo de alinhar imagem, identidade e tempo vivido. Em meio a tantas possibilidades técnicas e simbólicas, escolher o que fazer, ou não fazer, com o próprio corpo tornou-se uma das formas mais diretas de dizer quem se é, onde se está e até onde se quer ir. E se “nosso corpo é nossa casa”, talvez a pergunta que fique seja menos sobre fachada e mais sobre morada: que tipo de ‘casa’ a sua identidade tem conseguido habitar no mundo?

O corpo como posicionamento: o que as escolhas atuais dizem sobre o nosso tempo?(Imagem: Pixabay)
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