*Por Brunna Condini
De volta aos palcos em estado de entrega total, Danielle Winits vive um dos momentos mais intensos de sua trajetória com o monólogo ‘Choque: Procurando Sinais de Vida Inteligente’. O espetáculo, dirigido por Gerald Thomas, marca uma virada na carreira da atriz, que buscava há anos um texto capaz de dialogar com suas inquietações pessoais e artísticas. “É um momento mais do que especial da minha história. Batalhei muito por esse projeto, porque queria um monólogo que coubesse dentro daquilo que eu gostaria de falar no palco agora”, resume. Com a bênção de Miguel Falabella seu grande parceiro de vida e trabalhos; e de Fernanda Montenegro, que estiveram na estreia, Winits define o espetáculo como um reencontro com sua própria essência: “Busquei esse texto por dois anos. No fundo, era uma busca por mais de mim. O que eu posso dar de mim que os outros ainda não viram? Não tem atalho. É a gente que se provoca, que se desafia”, diz a artista, que também esteve recentemente no Festival do Rio na pré-estreia do filme ‘Querido Mundo’, dirigido por Falabella e estrelado por ela.
Nesta entrevista exclusiva, Dani fala do mergulho no monólogo, de reinvenção artística e da repercussão das suas declarações recentes sobre maternidade solo. E mais: os ganhos da maturidade profissional.
Na peça, uma adaptação contemporânea da obra de Jane Wagner, escrita nos anos 1980, a atriz interpreta Trudy, uma ex-consultora criativa que abandona o mundo corporativo para se tornar uma “catadora de sinais de vida inteligente”. A personagem, metáfora da própria humanidade, vive um riso nervoso diante do absurdo cotidiano. “A realidade é o absurdo vestindo um terno executivo”, provoca Dani, citando uma frase do texto, que celebra seu reencontro com o teatro como uma forma de cura e questionamento coletivo.
“O público sai emocionado. A peça poderia ser uma comédia franca, mas o Gerald trouxe o riso de nós mesmos, aquele que também é dor”. Aos 51 anos, a atriz reflete sobre fazer o que esperavam e, também, o que não esperavam dela, ao longo da carreira. “As ‘prateleiras’ que a gente conquista se tornam lugares seguros, mas também é bom sair delas. Podíamos ter colocado a minha veia cômica neste espetáculo, através de várias personagens, algo de mais fácil digestão, mas não quisemos isso, vão me ver em outro registro”.

Danielle Winits brilha em monólogo em reencontro radical com o teatro, fala da saída das ‘prateleiras’ confortáveis, de reinvenção artística e de maternidade solo (Foto: Robert Schwenck)
Quero poder escolher. Faço ‘Os Farofeiros’ — longa de grande bilheteria da comédia nacional; mas também trafego por outros lugares. Fui furando ‘bolhas’, de forma consciente. Sabia onde queria chegar – Danielle Winits
Procurando desafios
Winits expõe o ‘preconceito disfarçado’ que ainda ronda mulheres que produzem seus próprios projetos e tentam sair dos padrões que insistem em enquadrá-las. “Algumas pessoas apenas vibram, mas outras perguntam: ‘Como você juntou essas pessoas todas?’. Essa pergunta me parece carregar um tom preconceituoso…pode até não ser consciente, mas está lá. Você perguntaria isso para alguma outra atriz que não fosse reconhecida pela televisão? Ou pelo humor? Ou que não tivesse o meu estereótipo? Sou uma atriz, uma trabalhadora autônoma, tenho vários interesses. Como artista estou aberta para o mercado e como produtora também. Aliás, como produtora da minha vida, estou aberta. Ganhei alguns ‘nãos’ na minha vida, mas eles não me paralisaram, fui em frente, conquistando meus espaços pelas bordas possíveis”.
Eu estar aqui, fazendo esse monólogo hoje, me sentindo realizada, mostra para tantas outras mulheres, artistas, que somos capazes de escrever nossa história, e não apenas ficarmos aguardando sermos escolhidas para o que sonhamos fazer” – Danielle Winits

Danielle Winits é dirigida por Gerald Thomas: “Esse espetáculo é uma provocação geral” (Foto: Dalton Valerio)
Procurando provocar
Ela conta que ‘Choque: Procurando Sinais de Vida Inteligente’ nasceu do texto de Jane Wagner — ‘Procurando Sinais de Vida Inteligente no Universo’ — que ganhou adaptação e encenação de Gerald Thomas. “Foi sincronicidade. Sonhava trabalhar com o Gerald, ele também era apaixonado pelo texto, e trouxe uma roupagem contemporânea para um material dos anos 80, para que a gente falasse das questões contemporâneas”, diz. “A gente se fixou no pilar do espetáculo, que é a minha personagem, que entra em transes, conversa com ela mesma e com alguns ‘seres’, e com a plateia, sempre com o objetivo de investigar: ‘ainda existem sinais de vida inteligente no mundo? Esse espetáculo é uma provocação neste sentido”.
Em cena, temas como fome, distorções de valores, tecnologia (de drones à inteligência artificial) e os limites do nosso tempo aparecem como gatilhos de questionamento. “A proposta é o público se perguntar o tempo todo e fazer parte. A cada sessão, as pessoas saem emocionadas”, completa a atriz, que fica em cartaz no Rio de Janeiro até 2 de novembro, pausa para filmar ‘Os Farofeiros 3‘ e retoma o monólogo em circuito nacional”.

“Quero poder escolher. Faço tanto ‘Os Farofeiros’, filme de grande bilheteria de comédia nacional, como também trafego por outros lugares” (Foto: Dalton Valerio)
Maternidade solo: voz, responsabilidade e rede
Em conversa franca, Winits — mãe de Noah, 17 anos (com o apresentador Cássio Reis), e de Guy, 14 (com o ator Jonatas Faro) — comenta o impacto de suas falas recentes em entrevista sobre a maternidade solo e o desejo de dar voz a outras mulheres. “Divido a minha vida entre antes e depois de ser mãe solo. Existe uma ‘rachadura’. Mesmo com rede de apoio, já duvidei da minha sanidade. Mas falar sobre isso transforma. Há ‘órfãos’ muitas vezes até com o pai dentro de casa, e o abandono afetivo é uma das piores dores. Um adulto são, cria uma criança sã. Falei da minha experiência porque sei que, apesar dos meus privilégios e rede de apoio, também é uma vivência que ecoa em muitas mulheres. Recebi muitos feedbacks. Mas acima disso tudo, é preciso reforçar que meu filho é uma criança feliz e amada”.
Ela trata o tema com cuidado e também explica por que hoje usa o termo ‘mãe solo’ em sua vida com parcimônia: há alguns anos, conta com um parceiro (André Gonçalves, com quem está desde 2016, com alguns momentos de pausa e reinvenções na relação), que ocupa papel afetivo real na vida do caçula, algo que, diz, também o transformou como pai de três. “Ele revisitou lugares da própria história e ocupou esse lugar de forma natural, com maturidade. Se não fosse assim, a gente nem estaria junto”.

“Ainda existem sinais de vida inteligente no mundo? Esse espetáculo é uma provocação neste sentido” (Foto: Robert Schwenck)
Independente desde cedo, “com 17, 18 anos já trabalhava e me sustentava”, a atriz evita romantizar o percurso: “Quantas vezes estive de salto alto, gravando, ou chorando de costas no teatro por dores pessoais. Nós, mulheres, já nascemos com uma força que não sabemos explicar.” Daí a divisão que faz da própria biografia:
Abrir essa minha experiência com a maternidade me conecta a outras mulheres, que com ou sem privilégios, reconhecem essa dor e essa potência que temos dentro de nós para seguir. Precisamos falar sobre isso, nos unir – Danielle Winits
Ainda sobre o tema, ela reafirma um princípio: “É importante lembrar que a escolha de um filho é responsabilidade de duas pessoas. Sempre foi e sempre será”. Por fim, reconhece o papel do parceiro atual na vida de Guy — “como pai, como homem, como tudo” — e encerra com um desabafo-manifesto: “Ao falar, quero que outras mulheres se sintam capazes e pertencentes. Não sou ‘pãe’: sou mãe, talvez com peso duplo, mas mãe”.

“Somos capazes de escrever nossa história, e não apenas ficarmos aguardando sermos escolhidas para o que sonhamos fazer” (Foto: Robert Schwenck)
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