Teatro & Pensata

Da série espetáculo obrigatório: O Jornal – The Rolling Stone tem como pano de fundo a violência contra os homossexuais na Uganda e como esta realidade não é muito distante do Brasil

O enredo foi inspirado em fatos reais que aconteceram, principalmente, entre 2010 e 2014. Em dois jornais do país africano foram divulgadas duas listas que estimulavam o público a condenar a comunidade LGBT. A montagem esteve em cartaz em Londres e teve sucesso de público com direito a diversas indicações

Publicado em 16/11/2017 | Por Ana Clara Xavier

O elenco conta com Guian, Heloísa, Andre, Marcella, Danilo e Indira (Foto: Jorge Bispo)

Imagina uma peça que possui como pano de fundo uma publicação de um jornal que lista 100 nomes de homossexuais com a proposta de incitar os leitores a enforcar os mencionados. Parece até mentira, mas o enredo do espetáculo O Jornal – The Rolling Stone, com direção de Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos, foi baseado em fatos reais. A listagem saiu em 2010, no periódico ugandense The Rolling Stone. Quatro anos depois, a lei anti-gay, que permitia a denúncia de homossexuais e a punição para quem omitisse os nomes, foi revogada. Mas o fato voltou a se repetir no dia seguinte no diário RedPepper com, dessa vez, 200 pessoas na tabela. Apesar da lei ter caído na Uganda, a orientação sexual ainda pode ser um crime punível com prisão no país. “Isto se assemelha à realidade de muitos lugares onde, mesmo não sendo algo criminalizado, coisas parecidas acontecem. O Brasil é o país que mais mata gays e lésbicas no mundo, apesar de não haver uma lei que incentive isto. Não teria como não trazer para a nossa realidade”, afirmou o ator Danilo Ferreira. Portanto, além de trazer um episódio chocante da história do país africano, a montagem possui um papel social muito importante que visa conscientizar os espectadores para a violência sofrida por esta minoria.

O amor do casal interpretado por Marcos Guian e Danilo Ferreira irá emocionar o público (Foto: Jorge Bispo)

Na peça, Danilo Ferreira e Marcos Guian interpretam um casal que teme ser denunciado pela população, na época em que havia estes tipos de publicações no jornal, ou seja, há três anos. Este amor proibido acaba afetando a vida e o destino de todos ao redor dos dois. Condenados pela sociedade e pela religião, eles precisam optar entre se separar ou arriscar a vida para viver este sentimento. “A montagem deste texto é fundamental para os dias de hoje, porque dialoga com a realidade do nosso país. O preconceito está tomando conta de toda a sociedade, não gosto de citar religião, mas vemos que a bancada evangélica vem ganhando uma força muito grande no meio político. Isto faz com que a censura se torne algo normal. Os artistas, assim com várias outras profissões, acabam não tendo direito e liberdade que ser quem é. Vemos vários gays sendo mortos por nada, simplesmente pela orientação sexual. Estamos vivendo um momento onde as pessoas não têm liberdade de mostrarem quem são”, lamentou Marcos Guian.

Dentre as muitas cenas que mostram o desespero que ambos os personagens vivem, Marcos destacou uma favorita. Nela, o apartamento de Sam é invadido e depreciado por pessoas que julgam a sua orientação. “Admiro muito o meu papel, é uma pessoa muito corajosa. Neste momento, ele fala que não permitirá que ninguém o impeça de ser quem é”, explicou o ator. Momentos como estes mostram a relevância da peça e o papel das artes de contestar os problemas do cotidiano. “Como artista, sempre quero falar de temas atuais que reflitam a nossa sociedade. É muito bacana expor pensamentos através da arte, mesmo que esta esteja sendo vista como inimiga da sociedade. Acho que não existe momento mais oportuno do que este para falar destes temas. O amor está cada vez mais escasso, estamos brigando muito sem conseguir trocar ideias. Temos uma pretensão de ter um papel social frente à população com esta peça. Queria que o maior número de pessoas possíveis pudesse assistir a este material, porque estamos falando de amor próprio e ao próximo”, lamentou Danilo Ferreira. Durante a preparação do elenco, os diretores Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos repetiam a todo o momento para os atores a necessidade de fazer um teatro para quem não queria assistir aquele espetáculo.

Os diretores Lázaro e Kiko estão a frente desta produção (Foto: Jorge Bispo)

O enredo não se baseia apenas na homofobia. Existem várias camadas de críticas muito bem construídas, entre elas existe a discussão do racismo. “Esta ideia está na figura da irmã do protagonista, que é uma menina super estudiosa e inteligente que tem o sonho de se mudar para Londres e se formar em medicina. No entanto, o irmão mais velho determina que ela irá interromper os estudos para começar a trabalhar, devido a dificuldades financeiras que a família está passando. A discussão envolve o questionamento de porque a menina é escolhida. Neste caso, é simplesmente pelo fato de ser mulher, o que também dialoga com a realidade do nosso país”, lamentou Marcos. Os dois atores deixaram claro que, mesmo eles interpretando o casal principal, todos os personagens são protagonistas desta história. Todos possuem o seu motivo de existir e colocam isto de forma muito aparente.

Heloisa e Marcella também fazem parte da peça. Heloisa é angolana (Foto: Jorge Bispo)

A complexidade desta dramaturgia conquistou a dupla de diretores na mesma hora. “Antes do Lázaro ler o roteiro, ele já tinha animado de fazer parte deste projeto devido aos temas relevantes abordados”, garantiu Marcos Guian. O Jornal – The Rolling Stone foi escrita por um jovem britânico chamado Chris Urch. “Só de o autor ter escrito esta peça com 23 anos já é possível entender a genialidade dele. É um cara que está muito à frente do seu tempo e do que os brasileiros estão vivendo atualmente”, completou Marcos. A primeira montagem estreou em Londres, em 2015, e automaticamente ganhou o coração do público e da crítica, chegando a receber o prêmio Bruntwood, seis indicações ao Off West End e uma nomeação ao prêmio Evening Standart. “Não tenho pensado muito no destaque que a peça teve lá fora porque isto é muito pequeno à frente do que este texto representa, da mensagem que passa. O que o teatro tem que fazer é torcer para que as pessoas reflitam sobre o que nós estamos falando, para que nós possamos tocar o público. Queremos reverberar estes assuntos”, garantiu o ator.

O elenco foi selecionado através de uma oficina de atores (Foto: Jorge Bispo)

Além de Kiko e Lázaro trabalharem com um texto muito importante, os dois resolveram fazer ainda mais diferente e apostaram em uma oficina para selecionar os atores que participariam do espetáculo. Atualmente, esta proposta está cada vez menos usada no teatro tradicional, sendo restrita à montagem de musicais. “Isto foi outro tiro dos diretores, porque deram oportunidade para nós, atores negros, termos espaço no mercado. O lugar não é o mesmo entre os atores negros e os brancos, então foi muito positivo que os diretores fizessem uma oficina para escalar o evento. A maioria dos espetáculos em cartaz são de cias que já existem ou de pessoas que já estão na mídia há bastante tempo. O processo de seleção foi muito poderoso nesse sentido de proporcionar aos atores, que normalmente não possuem esta abertura do mercado, uma chance mostrar que são capazes, que possuem formação e talento”, afirmou Marcos Guian que foi um dos cinco integrantes selecionados por via deste processo. A dupla de diretores utilizou recursos próprios para escalar os atores, idealizando uma oficina que contou com o apoio da Rede Globo e a ajuda do coreógrafo José Carlos Arandiba e do preparador vocal Wladimir Pinheiro. O resultado foram mais de cinco mil inscritos que foram afunilado até chegar aos nomes dos finalistas: André Luiz MirandaHeloísa JorgeIndira NascimentoMarcella Gobatti.

Andre e Indira (Foto: Jorge Bispo)

Dentre estes atores, o único que não passou por este processo todo foi o Danilo Ferreira. O profissional já havia feito uma leitura inicial do texto antes de acontecer a oficina, totalmente sem compromisso, mas acabou sendo convidado para fazer no final. “Depois disso, eles ainda precisaram se organizar para viabilizar a peça. Não consegui participar da seleção por conta de um trabalho que estava fazendo na época. Eles já estavam com o elenco montado quando me convidaram mais uma vez para a leitura, por ainda não terem encontrado nenhum ator que encaixava no meu personagem. Vi que aquela era a minha oportunidade de fazer parte do grupo, já que na época estava ocupado com um projeto que não me estimulava tanto. Queria falar de temas que considero relevantes para a sociedade e consegui isso quando fui convidado”, contou Danilo. Quando ele foi incorporado ao elenco, a turma já estava ensaiando há duas semanas o que acabou sendo um desafio para ele chegar até o ritmo de todos. Principalmente, se tratando de um personagem tão importante. “Tive muito receio no início. Precisei correr muito para dominar o texto, mas todos me receberam super bem. Fiquei muito emocionado com o quanto os atores se empenharam neste trabalho”, agradeceu.

 

Serviço:

 

Teatro Poeira: Rua São João Batista, 104, Botafogo, Rio de Janeiro.

Bilheteria de terça a sábado, das 15h às 21h, e domingo das 15h às 19h. Tel. 21 2537 8053. Capacidade: 160 lugares.

Duração e classificação: 90 minutos / 14 anos

Quando? De 03 de novembro a 25 de fevereiro, de quinta a sábado. às 21h, e domingo às 19h, exceto feriados de Natal, ano novo e carnaval.

Ingressos? R$80 inteira e R$40 meia. À venda na bilheteria do Teatro Poeira ou por meio do site www.tudus.com.br.

Observações: Descontos de meia entrada previstos pela Lei e 20% de desconto do ingresso no valor de inteira para os clientes do Clube Eu sou + Rio

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