Teatro & Pensata

Crítica Teatral: Rodrigo Monteiro analisa o espetáculo “Santa”, com Ângela Vieira. “Belo trabalho sonoro e visual”

Em cartaz desde o fim de julho no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico no Rio de Janeiro, a peça trata de questões que giram em torno do fim de um relacionamento amoroso

Publicado em 19/08/2015 | Por Junior de Paula

*Por Rodrigo Monteiro

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Angela Vieira

“Santa” é o novo espetáculo com texto de Diogo Liberano, direção de Guilherme Leme Garcia e com Angela Vieira no elenco, três nomes frequentemente ligados a projetos bastante interessantes no cenário teatral carioca. Em cartaz desde o fim de julho no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico no Rio de Janeiro, a peça trata de questões que giram em torno do fim de um relacionamento amoroso que foi vivido, em cena, pelos personagens de Garcia e de Vieira. Dentre os destaques mais positivos dessa montagem, estão a instalação cenográfica de Bia Junqueira e o modo como essa se articula com a luz de Tomás Ribas e com trilha sonora de Marcello H. e de Marcelo Vig. A peça fica em cartaz nesse local até 4 de outubro.

O maior problema de “Santa” é que, quanto mais a peça avança, mais superficial ela fica. A promessa de densidade, anunciada inicialmente pelo discurso coberto de imagens e jogo de palavras no texto de Diogo Liberano, e pela fala pausada, os tempos longos e todo um quadro sonoro-visual impactante na direção de Guilherme Leme Garcia e de Gunnar Borges dá lugar para uma situação tola de um casal se conhecendo nas cenas finais. Em outras palavras, se “Santa” for pensada de trás para frente, ficarão expostas suas maiores fragilidades. Ao trilhar o caminho menos difícil, expressando no começo a natural complexidade que a situação de conflito facilmente oferece, os méritos ficam mais raros quando a mesma complexidade não surge nas cenas mais pueris. O ritmo cai na medida em que o conflito desaparece e em que as marcas iniciais mais belas – o movimento, o cenário, a luz e a trilha sonora – vão aparentemente justificando mais a produção do que a situação defendida pelos personagens. Se no teatro o ator é aquele que torna teatral o que está no palco, lá pelas tantas, nesse espetáculo, ele parece ter ficado inútil.

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Guilherme Garcia Leme e Angela Vieira

O modo como a instalação cenográfica de Bia Junqueira, a iluminação de Tomás Ribas e a trilha sonora de Marcello H. e Marcelo Vig se unem na construção de um quadro é de grande beleza e alta potência significativa. A capacidade de transparência ao lado da habilidade em refletir a luz do material plástico usado em abundância no cenário faz desse lugar – não propriamente um espaço – uma filial das locações mais usadas pelo cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007). É um frio que pode também ser calor, uma vastidão que pode ser claustrofóbica, um movimento que pode ser estagnação. É lá, nesse contexto de isolamento, que os homens se encontram com deus na medida em que convivem consigo próprios. (Talvez venha daí o título.) Situada como que diante de um quadro impressionista/expressionista, a plateia vê os contornos das figuras borrarem e suas formas ganharem subversão enquanto recebe o convite para olhar para dentro de si. Em articulação harmônica, o cenário baila ao lado das luzes, dos sons, das melodias e dos atores em que se destaca a bela performance de Ângela Vieira, essa que, durante anos, foi parte profissional do Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A meritosa direção de movimento e coreografia é assinada por Luar Maria e o figurino em colaboração mais discreta mas igualmente positiva é por Rui Cortez.

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Escrito e produzido em regime colaborativo, com todos os elementos sendo inspirados com conjunto, “Santa” revela um processo, um intervalo de tempo refletido no espelho (por isso, ao contrário) que talvez não tenha a intenção de dar conta do todo. Ainda que um tanto frustrante pelo acanhado desenvolver do quadro surgido na abertura, a experiência é positiva. Toda ela é.

*

Ficha Técnica:
Elenco: Angela Vieira e Guilherme Leme Garcia (e Antonio Negreiros (em setembro))
Dramaturgia: Diogo Liberano
Instalação/Cenografia: Bia Junqueira
Iluminação: Tomás Ribas
Figurino: Rui Cortez
Concepção e Direção
Guilherme Leme Garcia
Codireção: Gunnar Borges
Direção de Movimento e Coreografia: Luar Maria
Direção Musical: Marcello H.
Trilha Sonora: Marcello H. e Marcelo Vig
Programação Visual: Alexandre de Castro
Assessoria de Imprensa: LAGE Assessoria – Fernanda Lacombe
Fotos: Dário Jr Foto e Artes e Pedro Damasio

Música “Solidão”
Intérprete: Mart’nália
Versão: Miguel Paiva
Arranjo: Bruce Henry

Criação solo Guilherme/ Antonio: Gunnar Borges e Guilherme Leme Garcia
Assistente de Cenografia: Zoé Martin-Gousset
Assistente de Figurino: Claudia Sin
Assistente de Produção: Pyetro Ribeiro
Realização da Cenografia: Zoé Martin-Gousset e Bruno Jacomino
Operação de Luz: Leandro Alves
Design e Operação de Som: André Cavalcati
Contrarregra: Pyetro Ribeiro e Thiago Hortala
Camareira: Maria Lucia Belchior
Produção Executiva: Maria Albergaria
Direção de Produção: Sérgio Saboya

Serviço:

Onde: Galpão das Artes – Espaço Tom Jobim, Jardim Botânico
Quando: sábado às 21:00h / domingo às 19:00h
Quanto: R$40,00 (inteira) / R$20,00 (meia)

* Rodrigo Monteiro é dono do blog “Crítica Teatral” (clique aqui pra ler) , licenciado em Letras – Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, bacharel em Comunicação Social – Habilitação Realização Audiovisual, com Especialização em Roteiro e em Direção de Arte pela mesma universidade, e Mestre em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor no Curso de Bacharelado em Design da Faculdade SENAI/Cetiqt. Jurado do Prêmio de Teatro da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) desde 2012.

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