Teatro & Pensata

Crítica Teatral: Rodrigo Monteiro analisa “O Beijo no Asfalto – O musical”. ” Excelente nova versão do clássico de Nelson Rodrigues”

Claudio Lins e João Fonseca, através das canções inseridas na narrativa original, reforçam as tintas do melodrama que tão bem valoriza o desenrolar da trama. Os números musicais, quase todos solilóquios cantados pelos personagens, ficam com o encargo do elemento tragicômico.

Publicado em 18/11/2015 | Por Junior de Paula

* Por Rodrigo Monteiro

“O Beijo no Asfalto – O musical” é uma das mais gratas surpresas de 2015 no teatro carioca. Dirigido com habilidade e inteligência por João Fonseca e com belas canções originais de Claudio Lins e outras atualizadas na direção musical de Délia Fischer, a peça dá novo ar ao clássico texto escrito por Nelson Rodrigues há 55 anos. Com um elenco inteiramente constituído por excelentes participações, o drama rodrigueano está todo lá em sua plenitude, mas se destaca o modo como essa nova abordagem o recontextualiza. Além do próprio Lins, Laila Garin, Gracindo Jr., Yasmin Gomlesvky, Claudio Tovar, Janaína Azevedo e Jorge Maya estão no elenco em atuações bastante elogiáveis dentre outras participações. Os figurinos de Tovar são outros ótimos destaques. O espetáculo, cuja primeira temporada no Teatro Sesc Ginástico terminou na semana passada, reestreou no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, no dia 12 de novembro. Vale a pena ver!

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“O beijo no asfalto” foi escrito por Nelson Rodrigues (1912-1980), em 1960, sob encomenda do Teatro dos Sete. O grupo, formado em 1959, tinha como integrantes o diretor Gianni Ratto e os atores Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Britto e Ítalo Rossi (além de Luciana Petrucelli e de Alfredo Souto de Almeida). O quinto espetáculo do grupo estreou em 7 de julho de 1961, menos de dois meses antes da renúncia do Presidente Jânio Quadros. Foi a 13ª peça de Nelson Rodrigues, vinda logo após “Boca de ouro”.

Dirigida por Fernando Torres, a primeira montagem tinha, no elenco, Oswaldo Loureiro e Francisco Cuoco (Arandir), Fernanda Montenegro (Selminha), Sérgio Britto (Amado Ribeiro), Ítalo Rossi (Delegado Cunha), Mário Lago e Labanca (Aprígio), Suely Franco e Maria Esmeralda (Dália), Renato Consorte e Claudio Corrêa e Castro (Aruba), Zilka Salaberry (Dona Matilde), entre outros. A peça estreou no Teatro Ginástico e depois foi para o Teatro Maison de France, cumprindo no total sete meses de temporadas no Rio de Janeiro. Nelson Rodrigues ganhou o Prêmio Artur Azevedo, da Academia Brasileira de Letras, de Melhor Autor Nacional do ano de 1961.

A peça teve ainda duas versões cinematográficas, a primeira, “O beijo”, em 1964, foi dirigida por Flávio Tambellini e e teve Reginaldo Faria e Jorge Dória nos papéis de Arandir e de Mário Ribeiro (Amado). Bruno Barreto dirigiu, em 1980, outra versão bem mais próxima do texto original, embora adaptada para os anos 70. Ney Latorraca, Tarcísio Meira, Christiane Torloni e Daniel Filho interpretaram Arandir, Aprígio, Selminha e Amado Ribeiro. Em breve, está para estrear, com a direção de Murilo Benício, o filme “O beijo, o processo” em que um grupo de atores ensaiam a peça de Nelson Rodrigues.

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O texto de “O beijo no asfalto” é uma tragicomédia. Isto é, foi escrito originalmente em um estilo através do qual tanto o que há de melhor como o de pior no ser humano se valem da tragédia e da comédia para serem expressos. São treze cenas, divididas em três atos em que o autor inaugura as falas cortadas e marcadas por um ponto final. (Exemplo: “Eu quero te dizer que.”) Em termos de sua estrutura narrativa, a obra é muito próxima de “O idiota”, do russo Fiódor Dostoiévski. Nesse romance do realismo psicológico, há um ser cuja perfeição é tão absoluta que é capaz de refletir (ou de aumentar) toda a podridão daqueles que o cercam.

Arandir está casado com Selminha há um ano e, segundo ela, ele é um ótimo amante. Quando a peça começa, ele está indo ao banco para penhorar uma joia a fim de obter dinheiro para manter a esposa fisicamente em forma. No caminho, um acidente com um ônibus mata um transeunte que, nos segundos derradeiros, pede a Arandir um beijo na boca, o que ele concede. O fato é testemunhado pelas pessoas ao redor, entre elas, Aprígio, sogro de Arandir; e Amado Ribeiro, que escreve para um jornal sensacionalista. Dias antes, Ribeiro havia espinafrado Delegado Cunha, em sua coluna no jornal, dizendo que ele havia agredido uma mulher grávida, levando-a ao aborto. O caso d”O beijo no asfalto” interessa a Amado e Cunha porque pode atribuir a eles a marca de defensores da moral e dos bons costumes. Onde já se viu, afinal de contas, um homem beijar outro, na rua, durante o dia, na frente de pessoas de bem? (sic)

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Ao longo da peça, o texto revela várias questões pertinentes à reflexão do comportamento social. As relações familiares (incesto), profissionais (fofoca entre colegas, conchavos) e políticas (a imprensa e o poder público) são iscas para se tratar da fragilidade humana. Discutida a partir das reflexões dos filósofos da Escola de Frankfurt e de seus pares, a capacidade da imprensa de criar um fato e não apenas divulgá-lo é outro assunto discutido em “O beijo no asfalto”. Eis uma pérola da dramaturgia brasileira e universal que ganha excelente lugar na sociedade hoje por tratar, principalmente, da questão do preconceito em relação à orientação sexual.

Claudio Lins e João Fonseca, através das canções inseridas na narrativa original, reforçam as tintas do melodrama que tão bem valoriza o desenrolar da trama. Os números musicais, quase todos solilóquios cantados pelos personagens, ficam com o encargo do elemento tragicômico. O público, que assiste a um só tempo peça e música, se envolve fluidamente com as cenas, mergulhando no pesadelo rodrigueano em cujo fundo poderá se encontrar com Arandir (e resgatá-lo de lá). Aos poucos, o ritmo mais lento que o do original vai envolvendo tal qual a versão primeira, provando que não há jeito certo nem errado de fazer teatro, mas meios mais e menos qualificados de se adaptar um texto. Lins e Fonseca, com enorme coragem, ousam participar com Nelson Rodrigues da autoria da peça, mas se saem muito bem. Quem ganha é o público!

Todos os trabalhos de interpretação são bastante bons, mas é possível identificar alguns destaques. Os mais visíveis se referem às participações de Claudio Tovar e de Janaína Azevedo, interpretando o Delegado Cunha e a vizinha Dona Matilde. É fácil perceber o quanto esses dois excelentes atores alçam seus personagens pequenos a lugares definitivos através da sutileza de cada expressão, do ótimo aproveitamento de cada respiro, da mais sutil nuança. Thelmo Fernandes (Amado Ribeiro), que repete o mesmo papel já visto em “A arte da comédia” e em “S’imbora”, está em lugar bastante confortável. Yasmin Gomlevsky igualmente repete seu papel em “Anti-Nelson Rodrigues”. Jorge Maya (Aruba), Pablo Áscoli (O Morto), Juliane Bodini (A Viúva), Gabriel Stauffer (Werneck), Ricardo Souzedo (Barros e Pimentel) e Juliana Marins (Dona Judith) fazem boas participações dentro dos limites possíveis positivamente. São vibrantes as atuações de Laila Garin (Selminha), Gracindo Jr. (Aprígio) e de Claudio Lins (Arandir). Partes da estrutura mais fundamental da peça, por onde bailam os demais personagens e a própria história, suas interpretações mantêm a tensão latente, o drama preservado e a crítica mais inteligente. Com talento, habilidade, carisma e enorme beleza, esses trabalhos são ímpares!

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O cenário de Nello Marrese é uma variação do que já foi visto em “Doroteia” (ao invés de transparências, aqui há telas de alumínio onde folhas de jornais são penduradas) com cadeiras Gruvyer pretas . O único momento relevante dessa opção é quando as placas vão para o centro do palco, apertando o espaço cênico. Em contrapartida, o figurino de Claudio Tovar é excelente. Ricamente explorado e expresso em detalhes bem afinados, ele finca o espetáculo no gênero musical. A iluminação de Luis Paulo Nenén, atuando sem a ajuda do cenário, colabora com a evolução da narrativa. As canções de Claudio Lins e a direção de Delia Fischer tem excelentes momentos em “Não foi o primeiro beijo”, “Faz tempo…”, “Ainda aqui/Quem sabe de si”, “Toda noite” e em “A noite do meu bem”. As belíssimas vozes, principalmente de Janaína Azevedo e de Laila Garin ecoam plateia afora para além do fim do espetáculo lindamente.

“O Beijo no Asfalto – O musical” mantém todos os valores do texto de Nelson Rodrigues e acrescenta outro mais. É um dos melhores espetáculos de 2015. Aplausos!

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Ficha técnica:
Direção Geral : JOÃO FONSECA
Trilha Original : CLAUDIO LINS
Direção Musical : DÉLIA FISCHER
Figurinos : CLAUDIO TOVAR
Cenário : NELLO MARRESE
Iluminação : LUIS PAULO NENÉN
Direção de Movimento: SUELI GUERRA

ELENCO:
Arandir – CLAUDIO LINS
Selminha – LAILA GARIN
Dália – YASMIN GOMLEVSKY
Amado Ribeiro – THELMO FERNANDES
Cunha – CLAUDIO TOVAR
Aruba – JORGE MAYA
D. Mathilde – JANAÏNA AZEVEDO
Werneck – GABRIEL STAUFFER
Morto – PABLO ÁSCOLI
Pimentel – RICARDO SOUZEDO
Viúva – JULIANE BODINI
D. Judith – JULIANA MARINS
Ator convidado : GRACINDO JR. como Aprígio

Engenheiro de Som: CARLOS ESTEVES
Assistente de direção: LUCAS MASSANO
Assistente de Figurino: THIAGO DETOFOL
Assistente de Cenografia: LORENA LIMA
Programações Eletrônicas e Orquestrações : HEBERTH SOUZA
Pianista Regente e Assistente Direção Musical : EVELYNE GARCIA
Arranjos Vocais: AUGUSTO ORDINE
Preparação Vocal: JANAÍNA AZEVEDO
Assessoria de Imprensa : HORÁCIO BRANDÃO e ALEX DAYRELL – Midiorama Marketing/ apoios: GHEU TIBÉRIO
Produção Executiva : ANA BEATRIZ FIGUERAS
Produtora assistente: TAIANA STORQUE
Direção de Produção : ISABEL THEMUDO

Serviço:
Onde: Teatro das Artes, Shopping da Gávea
Quando: Até 12 de Dezembro de 2015. Quintas, Sextas e Sábados às 21h e Domingos às 20h
Quanto:Quintas e Sextas, R$ 80,00 (INTEIRA) e R$ 40,00 (MEIA) Sábados e Domingos.R$ 90,00 (INTEIRA) e R$ 45,00 (MEIA)

* Rodrigo Monteiro é dono do blog “Crítica Teatral” (clique aqui pra ler) , licenciado em Letras – Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, bacharel em Comunicação Social – Habilitação Realização Audiovisual, com Especialização em Roteiro e em Direção de Arte pela mesma universidade, e Mestre em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor no Curso de Bacharelado em Design da Faculdade SENAI/Cetiqt. Jurado do Prêmio de Teatro da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) desde 2012.

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