Consuelo em ‘Vale Tudo’ traz à cena dilema de casamentos longos: como reinventar desejo após décadas?


A atriz Belize Pombal, a Consuelo de ‘Vale Tudo’ reflete inquietações de muitas mulheres sobre rotina e paixão em casamentos de décadas. Para aprofundar o tema, ouvimos a psicanalista Luiza Scarpa, que aponta como a sobrecarga feminina, o excesso de intimidade e as expectativas irreais corroem o desejo. E lembra: “O amor romântico, do felizes para sempre, é uma fantasia que não se sustenta. O que mantém um casal é a capacidade de se reinventar”

*Por Brunna Condini

Na nova versão de ‘Vale Tudo’, Consuelo (Belize Pombal) traz à cena um dilema que atravessa a ficção e a vida real: depois de 25 anos de casamento com Jarbas (Leandro Firmino), como lidar com a rotina que ameaça apagar o desejo? A questão, que movimenta a trama do remake, também reflete inquietações de muitas mulheres contemporâneas, independentes, realizadas e cada vez menos dispostas a aceitar relações mornas. Para além do folhetim das nove da Globo, o tema abre espaço para discutir até que ponto é possível reinventar a paixão em relacionamentos longos.

A psicanalista Luiza Scarpa, que contribui com esta matéria, lembra que a intimidade a dois é atravessada por transformações inevitáveis do tempo e que repensar o vínculo pode ser tão necessário quanto desafiante. “Acho que tem uma questão importante que é: todo relacionamento longo se transforma porque os sujeitos se transformam. Então, basicamente, a reinvenção do desejo da intimidade é possível quando se aceita que o amor maduro não vai reproduzir aquela paixão inicial, mas pode se tornar um espaço de liberdade, de jogo, de reconhecimento mútuo. O desejo não se reacende por um esforço direto, mas pode emergir quando o outro volta a ser um ‘enigma’. Quando ambos encontram ali um espaço para serem, também, amantes de si mesmos. A Regina Navarro Lins, também uma psicanalista, diz uma coisa que acho legal, que é o seguinte: o desejo não se força. Ele existe ou não”.

Mas eu acrescentaria: o desejo não é uma constante, ele se movimenta, se desvia. E muitas vezes, se abstém, sobretudo diante de um excesso de uma intimidade. Ou de sobrecarga de uma expectativa – Luiza Scarpa

Belize Pombal vive Consuelo no remake de Vale Tudo: personagem enfrenta o dilema dos casamentos longos e provoca reflexão sobre desejo e rotina (Foto: Divulgação/Globo)

Belize Pombal vive Consuelo no remake de Vale Tudo: personagem enfrenta o dilema dos casamentos longos e provoca reflexão sobre desejo e rotina (Foto: Divulgação/Globo)

Essa percepção abre caminho para pensar que, no cotidiano, não é a ausência de amor que ameaça as relações duradouras, mas justamente o peso de expectativas pouco realistas. Muitas vezes, a gente espera que o casamento seja sempre prazer e emoção, como em um conto de fadas. Só que essa ideia do ‘felizes para sempre’ não se sustenta a longo prazo. O amor precisa transitar, mudar de forma e se reinventar na criatividade. Se não, a frustração aparece e a solução fácil passa a ser trocar de parceiro, quando, na verdade, talvez o que precise mudar é a própria ideia de amor que se construiu”, explica Scarpa.

A sobrecarga feminina e a morte do desejo

Para as mulheres, esse dilema ganha contornos particulares. Historicamente, o erotismo feminino esteve subordinado à função de esposa e mãe. Ainda hoje, muitas se veem aprisionadas na lógica do cuidado excessivo. As mulheres foram ensinadas a cuidar. Vemos em relacionamentos longos parceiras que perderam totalmente o tesão por seus companheiros justamente por esse excesso de cuidado. Elas maternam os maridos. E não há desejo possível quando, além do trabalho profissional e dos filhos, ainda é preciso cuidar de um homem que se comporta como adolescente. Tesão se sente de ver o parceiro dividindo a vida prática, lavando a louça, assumindo a parceria de verdade”, analisa, frisando: “Isso também existe nas relações homoafetivas, é importante destacar, mas acontece mais nas relações heterossexuais”.

Belize Pombal e Leandro Firmino são Consuelo e Jarbas em 'Vale Tudo' (Foto: Divulgação/Globo)

Belize Pombal e Leandro Firmino são Consuelo e Jarbas em ‘Vale Tudo’ (Foto: Divulgação/Globo)

Rotina, mistério e o enigma do desejo

Outro ponto destacado pela psicanalista é o risco do excesso de intimidade. Saber ‘tim-tim por tim-tim’ da rotina do outro pode parecer trivial, mas mina o espaço do mistério. “O desejo nasce onde há falta. Quando tudo já está dado e previsível, o erotismo se dissolve. O parceiro se torna quase uma figura fraternal, o que favorece um amor terno, mas enfraquece a pulsão erótica”, diz Scarpa, apoiando-se também em reflexões de Sigmund Freud sobre a familiaridade excessiva. “Freud vai dizer que o desejo tende a se distanciar daquilo que se torna excessivamente familiar. É esse ponto também, muito delicado, que é uma construção que cada casal precisa fazer para que não morra o desejo”.

Reinvenção não é repetição

Diante desse cenário, reinventar a paixão não significa voltar à euforia da fase inicial, mas sim cultivar novos modos de encontro. E isso exige, antes de tudo, que cada sujeito se reconcilie consigo mesmo:

Reacender o desejo não passa por estratégias externas mirabolantes, mas por um reposicionamento interno. É reencontrar o corpo, o tempo próprio, o direito ao prazer. Só assim o amor pode se reconfigurar sem se perder – Luiza Scarpa

Consuelo (Belize Pombal) e sua família em 'Vale Tudo': personagem identifica a necessidade de reinventar o amor (Foto: Divulgação/Globo)

Consuelo (Belize Pombal) e sua família em ‘Vale Tudo’: personagem identifica a necessidade de reinventar o amor (Foto: Divulgação/Globo)

Da ficção à vida

No remake de ‘Vale Tudo, Consuelo encarna esse dilema ao perceber que a rotina ameaça sua relação com Jarbas. Ao expor essa inquietação em horário nobre, a novela toca em uma questão íntima e universal: afinal, como sustentar o amor depois que a paixão se transforma? A resposta, como lembra Luiza Scarpa, talvez não esteja em reproduzir o passado, mas em construir novas formas de presença, desejo e parceria, dentro e fora da ficção. O amor romântico, do felizes para sempre, é uma fantasia que não se sustenta. Ainda bem. Porque seria insuportável viver em constante êxtase. O que mantém um casal é a capacidade de transitar, de se reinventar e de sustentar o enigma do desejo”, provoca a psicanalista.

Consuelo quer reinventar a relação. “Reacender o desejo não passa por estratégias externas mirabolantes, mas por um reposicionamento interno” , diz Luiza Scarpa (Foto: Divulgação/Globo)

Entre desistir e permanecer: o desafio de reinventar o amor no tempo

Talvez a pergunta que fique, seja menos sobre a possibilidade de reacender o desejo e mais sobre o que fazemos com o tempo. Por que tantas vezes parece mais simples abandonar um relacionamento longo, um projeto de vida a dois, mesmo quando ainda existe amor, do que insistir em buscar novos caminhos de conexão?

A verdade é que, em algum momento, todo casal vai se deparar com a rotina, com o peso das expectativas e com a dificuldade de manter viva a comunicação. E nesse ponto há duas escolhas possíveis: trocar de relação, acreditando que o próximo trará a novidade perdida, ou reinventar a forma de estar junto. O paradoxo é que todo novo relacionamento, cedo ou tarde, também envelhece. Basta que o tempo e a história se acumulem.

Talvez o desafio maior seja, então, cultivar a coragem de cuidar do vínculo, de revisitar a intimidade, de abrir espaço para que o outro permaneça um enigma. Amar, nesse sentido, não é repetir o começo, mas sustentar a reinvenção. É escolher permanecer, mesmo quando tudo parece convidar a desistir.