Teatro & Pensata

Crítica Teatral: Rodrigo Monteiro analisa “Nós”. “Marcio Abreu dirige novo ótimo espetáculo do Grupo Galpão”

Em cartaz no Sesc Ginástico até o dia 10 de julho, a 23ª produção do mineiro Grupo Galpão, uma das mais importantes companhias de teatro do Brasil e do mundo, é uma oportunidade que o público carioca tem de celebrar com eles os 34 anos de constituição do coletivo

Publicado em 22/06/2016 | Por Junior de Paula

* Por Rodrigo Monteiro

Estreou no Rio de Janeiro, a 23ª produção do mineiro Grupo Galpão, uma das mais importantes companhias de teatro do Brasil e do mundo. O espetáculo “Nós” é uma oportunidade que o público carioca tem de celebrar com eles os 34 anos de constituição do coletivo. Em especial, é também um novo meio de se encontrar com um potente trabalho dirigido por Marcio Abreu, que recentemente assinou o excelente “Krum”, que voltará à cidade em breve. Construído coletivamente a partir das inquietações dos realizadores, o texto é assinado por Eduardo Moreira e pelo diretor. Trata-se de uma sinfonia cênica em que a justaposição de sons, ritmos, corpos e de reflexões diferentes por vezes se harmoniza, em outras coexiste, em algumas se atropela. No todo, paira a belíssima e essencial proposta de que a democracia se constrói no jogo cotidiano entre personalidades diferentes, ou seja, nos nós. Além de Moreira, estão no elenco Antonio Edson, Chico Pelúcio, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia e Paulo André ao lado da atriz Teuda Bara, essa um dos mais belos monumentos da cena teatral brasileira. A montagem fica em cartaz até o dia 10 de julho no Teatro Sesc Ginástico, na zona central do Rio de Janeiro.

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A importância dos diálogos, dos conflitos e das curvas narrativas, assim como da movimentação dos corpos e da composição dos quadros fica em segundo plano. Em “Nós”, o modo como tudo se articula é que é o mais importante. Um grupo de amigos está preparando uma sopa enquanto bate papo sobre questões que, para cada um, pode ter relevância. A memória de sonhos que sobreviveram ao dia, as inquietações sobre grandes acontecimentos públicos (como o assassinato do Rio Doce no fim de 2015) e também menores (o encontro com vítimas do preconceito e com histórias dolorosas de vida), bem como as diferenças que nutrem a relação entre os participantes ganham seu lugar na conversa. Porém, antes que um certo tom banal a la Tchékhov estique o ritmo, a direção de Marcio Abreu, assistido por Martim Dinis e por Simone Ordones, impõe uma nova ordem.

Aos poucos, o discurso dos corpos e das falas reduz o valor semântico das palavras e dos gestos. Em lugar disso, o quadro se movimenta pelo mérito do todo. Como uma imensa onda cuja força circular começa pequena, ganha contornos mais altos até que empurra a água sobre a areia da praia, a peça rasga personagens, falas e marcações, derramando-se do palco e podendo invadir o público. Se o espectador se render ao desejo da cena, – prestando menos a atenção nos significados das palavras e fazendo mais força para não identificar intenções nos movimentos – perceberá a imagem musical de uma sinfonia. Pelo modo como se apresenta, essa não é uma peça comum, com início, meio, fim e personagens em papeis opostos de cuja relação vem um conflito. É uma sensação que tem o poder de te atravessar sem que você reconheça exatamente de onde ela vem, quais suas razões e para onde irá.

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Estruturas frasais padrão dão lugar para uma justaposição extrassintática de palavras. Movimentos, gestos e expressões próximas do real além da narrativa são substituídas por partituras corporais absurdas. Na relação entre si, as cenas conservam alguma evolução, mas essa fica cada vez mais rara ao longo do espetáculo. A carismática interpretação da música “Maneiras”, de Sylvio da Silva Jr. (1947-2003), dá lugar a de “Balada do lado sem luz”, do Gilberto Gil, com belíssimo arranjo polifônico e essas se completam com a leitura do poema “Agradecimento”, da polaca Wisława Szymborska (1923-2012), sem que haja propriamente uma relação entre elas. O cenário de Marcelo Alvarenga, assim como o figurino de Paulo André e a luz de Nadja Naira, começa coerente, mas depois se subverte também, tudo com grande beleza. Ou seja, todos os signos, comportando-se de modo mais divergente que o contrário, deixam ver um espetáculo que fala de contemporaneidade através de uma estrutura regida também dentro desse sistema de valores.

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Denunciados por Nietzsche e por Foucault, passando por Hanna Arendt e por muitos outros filósofos antes e depois desses, os comportamentos de poder que vigiam e assim dizimam a possibilidade de uma verdadeira democracia nas relações pode ser o tema do espetáculo “Nós”. Diz-se que pode porque, inclusive através do desenho de som de Felipe Storino, a peça se organiza pelo modo aberto do público de exercer a sua interpretação. Em outras palavras, a liberdade da plateia de estabelecer o sentido daquilo que vê é valorizada aqui positivamente. No complexo quadro de personagens e de discursos, fica apenas, de modo claro, a absoluta força de conviver (até quando quiser) entre os diferentes. Eis um manifesto político inteligente, atual e necessário!

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Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André mas principalmente Teuda Bara apresentam belíssimos trabalhos de interpretação. Eles ampliam a capacidade comunicativa dos signos sonoros e visuais, tornando-os não apenas cênicos, mas políticos, filosóficos e sociais na medida em que estão em cena entregues ao contato humano, abertos às possibilidades e habilidosos no ofício de representar. É através disso que “Nós” deixa de ser sobre suas inquietações enquanto Grupo Galpão e se oferece como possivelmente aquilo que toca o público.

Como uma espécie de leitmotiv que identifica a sinfonia, a frase cênica “É pra refrescar!” situa o valor do encontro humano em um mundo tão virtual. Se um nó é um conflito, ele pode ser também a concentração de força. Há movimento na inércia e pode haver inércia no movimento. E é lindo encontrar essa reflexão na grade de programação do teatro carioca. Vida longa ao Grupo Galpão! Aplausos!

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SERVIÇO:

Onde: Teatro Sesc Ginástico
Quando: Quarta a sábado, 19h. Domingo, 18h
Quanto: R$ 5 (associados Sesc), R$ 10 (meia-entrada) e R$ 20.

FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO

Elenco
Antonio Edson
Chico Pelúcio
Eduardo Moreira
Júlio Maciel
Lydia Del Picchia
Paulo André
Teuda Bara

Equipe de criação
Direção: Marcio Abreu
Dramaturgia: Marcio Abreu e Eduardo Moreira

Cenografia: Play Arquitetura – Marcelo Alvarenga
Figurino: Paulo André
Iluminação: Nadja Naira
Trilha e Efeitos Sonoros: Felipe Storino
Assistência de Direção: Martim Dinis e Simone Ordones

Preparação musical e arranjos vocais/instrumentais: Ernani Maletta
Preparação vocal e direção de texto: Babaya
Colaboração artística: Nadja Naira e João Santos
Assistência de Figurino: Gilma Oliveira
Assistência de Cenografia: Thays Canuto

Cenotécnica e construção de objetos: Joaquim Pereira e Helvécio Izabel
Operação e assistência de luz: Rodrigo Marçal
Operação de som: Fábio Santos
Assistente técnico: William Teles
Assistente de produção: Cleo Magalhães
Confecção de figurino: Brenda Vaz
Técnica de Pilates: Waneska Torres
Fotos de divulgação: Guto Muniz
Fotos do programa: Fernando Lara, Gustavo Pessoa e Guto Muniz
Imagens escaneadas: Tibério França e Lápis Raro
Registro e cobertura audiovisual: Alicate
Projeto gráfico: Lápis Raro
Design web: Laranjo Design (Igor Farah)

Direção de produção: Gilma Oliveira
Produção executiva: Beatriz Radicchi
Produção: Grupo Galpão

FICHA TÉCNICA GRUPO GALPÃO

ATORES
Antonio Edson
Arildo de Barros
Beto Franco
Chico Pelúcio
Eduardo Moreira
Fernanda Vianna
Inês Peixoto
Júlio Maciel
Lydia Del Picchia
Paulo André
Simone Ordones
Teuda Bara

CONSELHO EXECUTIVO
Beto Franco, Eduardo Moreira, Fernando Lara e Gilma Oliveira

EQUIPE GRUPO GALPÃO
Gerência executiva – Fernando Lara
Coordenação de produção – Gilma Oliveira
Coordenação de planejamento – Aline Pereira
Coordenação de comunicação – Beatriz França
Coordenação administrativa – Wanilda D´Artagnan
Coordenação técnica e iluminação – Rodrigo Marçal
Produção executiva – Beatriz Radicchi
Cenotécnico – Helvécio Izabel
Sonorização – Fábio Santos
Analista de comunicação – Ana Carolina Diniz
Assistente de planejamento – Soraya Monteiro
Assistente financeiro – Cláudio Augusto
Assistente administrativa – Andréia Oliveira
Auxiliar técnico – William Teles
Auxiliar administrativo – Jonathas Santos
Recepção – Cídia Santos
Serviços gerais – Sandra Bacelar
Gestão financeira de projetos – Artmanagers
Assessoria jurídica – Drummond & Neumayr Advocacia
Assessoria contábil – Maurício Silva
A Petrobras é patrocinadora do Grupo Galpão

* Rodrigo Monteiro é dono do blog “Crítica Teatral” (clique aqui pra ler) , licenciado em Letras – Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, bacharel em Comunicação Social – Habilitação Realização Audiovisual, com Especialização em Roteiro e em Direção de Arte pela mesma universidade, e Mestre em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor no Curso de Bacharelado em Design da Faculdade SENAI/Cetiqt. Jurado do Prêmio de Teatro da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) desde 2012.

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