Teatro & Pensata

Com segunda obra adaptada ao teatro, Raphael Montes reflete sobre as relações modernas e faz planos para o futuro

'Dias Perfeitos', livro que alavancou a carreira de Raphael Montes, agora é levado aos palcos sob a direção de César Baptista. O autor faz planos para o futuro e conta sobre seus novos projetos, que incluem uma série nova na Globo. Entenda!

Publicado em 27/03/2017 | Por Suzany Alves

Se a literatura brasileira tivesse um nome nos últimos anos, esse nome seria Raphael Montes. O carioca, considerado um dos mais brilhantes ficcionistas jovens da atualidade por um dos autores de literatura policial de mais prestígio no mundo, Scott Turow, hoje afirma seu lugar no mercado e colhe os louros do seu aclamado trabalho em obras como O Jantar Secreto (2016). Dividindo seu tempo em sua coluna no jornal O Globo, o escritor agora vê pela segunda vez uma obra sua tomando conta do teatro. Agora é Dias Perfeitos (2014), romance policial, que invade os palcos do Rio de Janeiro, com direção de César Baptista, que também foi responsável pela adaptação de Suicidas, primeiro romance do autor, batizada para o teatro sob o nome de ‘Roleta Russa’.

Mas apesar de ser o criador da história original, Raphael deixa claro que não vê problema em pequenas mudanças. “A peça de teatro é uma adaptação, uma leitura de alguém sob aquilo que eu escrevi. Na época da montagem de Suicidas, acompanhei o processo e assisti à estreia antes do público, dei algumas sugestões, e como foi uma versão que fiquei bastante feliz, quando decidiram fazer do mesmo modo em Dias Perfeitos, eu dei total liberdade. Eu acho importante ter esse diálogo, se não fica tudo concentrado em minhas mãos e eu não gosto dessa ideia. Sempre acho que trair um pouco faz bem, e adaptar é trair, não tem jeito. Cada uma dessas plataformas de teatro, cinema, entre outras, pede modificações naturais”, explicou.

Com segunda obra adaptada ao teatro, Raphael Montes reflete sobre as relações modernas e faz planos para o futuro

Foto: Divulgação

O suspense é protagonizado por Teo, um futuro médico que se vê dividido entre os cuidados com sua mãe paraplégica e a faculdade, quando conhece Clarice, uma aspirante à cineasta. O estudante então passa a fazer de tudo para desvendar os mistérios da jovem, estabelecendo um cenário de tortura psicológica e obsessão. Enquanto estava envolvido no processo criativo da obra, Raphael buscou inspiração em autores clássicos, mas a preocupação maior era inserir uma outra visão do amor obsessivo. “Já existem muitas histórias com essa mesma temática, de autores como Stephen King, Almodôvar… Foi interessante pois ao ler todos eles, encontrei algo que ainda não tinha sido feito, ao contar uma história de obsessão e amor da visão do psicopata, sem preocupação com os julgamentos morais, emergindo na lógica de uma pessoa louca e enxergando a história da visão dela. Todas as histórias anteriores são de uma era pré smartphone, pré mundo moderno. Entendi então que falar de amor obsessivo hoje é diferente, porque hoje as relações são estabelecidas através de aplicativos como o Tinder, são descartáveis, quase produtos.”

E a mensagem que a história busca contar vai além do que se lê. “Trouxe a discussão da sexualidade, com personagens homofóbicos e bissexuais. O livro permite a discussão do que é amor, os relacionamentos, com uma visão contemporânea, brasileira, pop. Eu costumo brincar que a história de Dias Perfeitos nada mais é do que a visão exagerada de várias relações que vemos por aí, que fazem parte do nosso ciclo social, que vemos com os nossos amigos por exemplo. É muito comum, ainda que disfarçado, que uma pessoa queira mudar a outra e o desejo de adaptação vem se perdendo, então o livro por ser ficção permite uma hipérbole, mas no fim das contas a intenção é que seja promovida uma discussão sobre as relações amorosas atuais” refletiu o autor.

A montagem, que estreou no dia 3 de março no teatro Cândido Mendes, não é a única empreitada de Raphael a alçar novos rumos – sua mais recente obra, Jantar Secreto, está prestes a ser adaptada às telonas. Apesar de preferir não criar expectativas e se ausentar do processo, o autor espera que tudo corra bem. “É um misto de expecativa pra ver o que vão fazer em cima da minha história, mas eu tenho consciência de que se eu quisesse escrever um filme, teria feito um roteiro. Eu espero que seja ótimo, incrível, tudo o que eu espero é que a adaptação seja ainda melhor que o livro. Mas é cinema brasileiro, é demorado e não adianta alimentar expectativas. Prefiro me prender a coisas que eu posso controlar.”

(Foto: Divulgação)

Apesar de todas as suas obras pertencerem ao gênero policial, o escritor não tem receio de flertar com outros estilos e modelos de texto. Ele garante que tudo é só uma questão de tempo. “Pra ser sincero, a literatura que não é de suspense me dá muito mais inspiração. Ainda tenho muitos anos de trabalho e muitas ideias, em todas as plataformas. Tenho uma vontade de escrever textos para o teatro, então é possível ter uma fase me arriscando em outras áreas, outros estilos. No meu romance O Vilarejo, eu flerto de maneira bem sutil com o sobrenatural, mas também quero fazer uma história que seja só sobre esse tema, ou de terror.”

Dando um tempo nas aventuras do mundo literário, Raphael Montes adiantou detalhes dos novos projetos para 2017, que tem direito a uma nova pegada. “Geralmente, quando eu publico um livro novo, já tenho outro começado. Mas dessa vez foi diferente. Apesar de já ter flertado com algumas ideias, nenhuma me empolgou de verdade para seguir em frente, então esse ano tenho me dedicado mais ao audiovisual. Estou escrevendo um roteiro de cinema, e, junto com Matheus Souza, estou escrevendo uma série para a Globo, cujo protagonista é um sujeito um tanto atípico: é um padre investigador, que tem um lado de fé muito forte. Apesar disso, não é uma série religiosa.” adiantou. Estamos ansiosos!

Teatro Cândido Mendes

Sexta e Sábado 20h30 || Domingo 19h30

03 de Março a 30 de Abril de 2017

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