*por Vítor Antunes
O humor vive, há algum tempo, um movimento de segmentação e de valorização de diferentes linguagens, sobretudo daquilo que dialoga com experiências reconhecíveis pelo público. Paralelamente, cresce o número de mulheres ocupando o protagonismo da cena cômica. Nesse contexto, muitas acabam enquadradas sob o rótulo de “humoristas feministas”. Uma delas é Carol Delgado, que reúne 1,2 milhão de seguidores nas redes sociais e estreou o espetáculo Energia Feminina. A atriz e comediante, no entanto, rejeita a definição de “humor feminista”.
“Quando comecei meu show, sempre detestei esse termo que o pessoal usa: ‘humor feminista’. Quando um homem faz comédia, ninguém diz que é ‘humor masculino’. É simplesmente humor”, frisa. Ao mesmo tempo em que celebra o crescimento da presença das mulheres na comédia, Carol reconhece que elas continuam enfrentando desafios particulares dentro da profissão. Cita episódios recentes de violência contra humoristas, como o caso da atriz catarinense Fernanda Arantes, que foi alvo do arremesso de uma cadeira durante uma apresentação e a censura sofrida por Rafaela Azevedo, impedida de estrear um espetáculo. Para ela, esses acontecimentos evidenciam que a reação ao humor ainda passa por questões de gênero.
Em seus textos, Carol também satiriza discursos radicais que ganharam força nas redes sociais, especialmente os difundidos por grupos conhecidos como redpills, que propagam ideias misóginas e hostis às mulheres. “Eu sempre trago esse tema no meu trabalho de forma pontual, ridicularizando esses discursos, porque acredito que eles são completamente ridículos. São ideias produzidas dentro de microbolhas que não correspondem à realidade material da vida das pessoas nem às relações reais. Muitas vezes, são baseadas em frustrações, seja nos relacionamentos, no trabalho ou na vida, e que acabam levando algumas pessoas a um lugar de insatisfação não elaborada. Na minha cabeça, não faz sentido debatê-los como se fossem algo racional. No momento em que você coloca uma ideia tão absurda para um debate de igual para igual, acaba validando aquele discurso. Acho que o papel da internet, nesse caso, é justamente ridicularizar completamente esse tipo de fala.”
A violência pode acontecer independentemente do assunto que você aborda. As pessoas se sentem muito confortáveis para interromper ou agredir artistas. No caso das mulheres, isso está muito ligado às questões de gênero. Eu também já passei por situações de violência. Quando é uma mulher falando, muitas pessoas não querem entender que aquilo é ironia, que é uma piada. Se você faz uma piada sobre o Neymar, por exemplo, aparecem pessoas se identificando e até fazendo ameaças de morte. Em algumas cidades onde entendemos que seja necessário, fazemos os shows com segurança reforçada e detectores de metais – Carol Delgado

Carol Delgado debate a questão feminina e o combate à ideologia redpill (Foto: Bruna Bonini)
Em seu espetáculo, a comediante também transforma em humor as inquietações que atravessam a vida adulta, especialmente as pressões impostas às mulheres após os 30 anos. Entre casamento, maternidade, carreira e estabilidade financeira, Carol observa que muitas vivem uma sensação permanente de atraso, alimentada pela comparação constante nas redes sociais. Para ela, compartilhar a própria experiência no palco é uma forma de acolher quem se reconhece nessas angústias.
“Acho que existe, obviamente, essa pressão sobre as mulheres: casar, ter filhos, comprar um apartamento, ter um carro. Parece que há um prazo para cumprir todas essas etapas da vida. Essa é uma pressão muito comum. Recebo muitas mensagens de meninas dizendo: ‘Tenho 23 anos e já me sinto superatrasada’. Acho que a internet também reforça essa falsa realidade de que você precisa cumprir determinados papéis em momentos específicos da vida, como ter 30 anos e estar solteira. Gosto de falar sobre trabalho e sobre a minha própria vida para mostrar que existem outras coisas a conquistar em diferentes momentos”.
MULHER EM CENA
Ao refletir sobre a transformação do stand-up brasileiro, Carol Delgado destaca que a presença feminina no gênero vive um momento de expansão, impulsionado por artistas que romperam barreiras e ajudaram a ampliar as possibilidades para outras mulheres. Segundo ela, durante muito tempo, as personagens femininas na comédia eram limitadas a estereótipos — a mulher “gostosa”, a ingênua, a pouco inteligente ou aquela cuja aparência era o centro da piada. Hoje, afirma, esse cenário começa a mudar. Para Carol, Bruna Louise foi decisiva nesse processo ao demonstrar que uma mulher poderia protagonizar espetáculos, formar plateias e construir uma carreira de sucesso no stand-up.
“Quando comecei, foi muito por causa da Bruna Louise. Ela abriu essa porta para que outras mulheres também pudessem fazer comédia ou se sentissem pertencentes a esse espaço. A Bruna foi a primeira mulher que realmente ganhou muito dinheiro com o stand-up. Sempre existiram mulheres na comédia, mas nunca foi algo tão mainstream, a ponto de alguém pensar: ‘isso aqui pode dar uma carreira muito bem-sucedida’. A partir desse espaço, outras mulheres também estão começando. Acho ótimo que isso se pulverize cada vez mais, porque teremos menos desse estereótipo de ‘mulher na comédia'”.

Carol Delgado recusa o selo de humor feminista e expõe cobranças que marcam a chegada aos 30 (Foto: Tamires Guimarães)
A artista ainda que esse mesmo universo digital alimenta uma série de manuais de comportamento voltados às mulheres, estabelecendo padrões do que seria uma “mulher perfeita” ou “virtuosa”. Entre as recomendações difundidas por esses grupos, cita como exemplo a ideia de que mulheres não deveriam ter tatuagens — especialmente uma borboleta no ombro. Para Carol, essas tentativas de enquadrar o comportamento feminino acabam se tornando matéria-prima para a comédia justamente por exporem o caráter contraditório e anacrônico desses discursos.
Eu nunca encontrei um cara que deixou de ficar comigo porque eu tinha tatuagem. Se deixou, também não comunicou, e isso não fez a menor diferença na minha vida. Acho que é sobre dar a importância que isso realmente tem, que é nenhuma. Isso não é absolutamente relevante na minha vida e acredito que também não seja relevante para quem está minimamente fazendo o seu corre, trabalhando de manhã, estudando à noite e vivendo a própria vida – Carol Delgado
Embora suas apresentações atraiam, majoritariamente, mulheres, Carol Delgado afirma que o público de Energia Feminina está longe de ser exclusivamente feminino. Segundo a humorista, muitos homens também assistem ao espetáculo, geralmente convidados pelas parceiras. Para ela, a identificação do público masculino acontece de forma natural, já que as situações abordadas no palco fazem parte do cotidiano de qualquer relacionamento. “O show é majoritariamente feminino, mas é um público bem misto. Muitas mulheres levam os namorados para assistir, porque é um espetáculo muito tranquilo. Não tem nada ali que um homem razoável não vá entender. Mas é uma plateia predominantemente feminina. Costumo dizer que é quase uma ‘noite das garotas’.”

Carol Delgado: A peça acaba sendo um “clube de garotas” (Foto: Tamires Guimarães)
Carol também reflete sobre os julgamentos estéticos que ainda cercam a trajetória de mulheres na comédia. Para ela, durante muito tempo, humoristas consideradas bonitas precisaram provar repetidamente que seu talento ia além da aparência. Hoje, no entanto, acredita que existe uma discussão ainda mais urgente: a dificuldade enfrentada por mulheres que fogem dos padrões de beleza para conquistar espaço e visibilidade no stand-up. “Demoramos muito tempo para que mulheres bonitas fossem reconhecidas como excelentes comediantes, sem serem encaixotadas apenas como ‘a mulher bonita que faz humor’. Ainda existe uma necessidade constante de provar o próprio valor. Tudo vira motivo para invalidar o trabalho: é bonita demais, é bonita de menos, é isso, é aquilo. Mas não acredito que essa dualidade entre beleza e talento seja hoje o principal problema da comédia. A maioria das mulheres que alcançaram grande projeção no stand-up está, de alguma forma, dentro de um padrão de beleza. Tenho colegas tão talentosas quanto eu que estão fora desse padrão, que são gordas, por exemplo, e que não têm o mesmo espaço que eu tenho.”
REDES
Ao falar sobre redes sociais, a comediante diz que evita acompanhar tanto os elogios quanto as críticas para não perder sua referência artística: “Eu não leio muito o que as pessoas falam. Procuro dizer o que quero dizer e fazer o meu trabalho. Hoje em dia, não leio nem os comentários positivos nem os negativos. Acho que o artista também pode se perder nos elogios. Nem o muito bom nem o muito ruim servem para me guiar.
Não procuro agradar quem me ama muito e também não tenho razão de agradar quem me odeia – Carol Delgado
Em um cenário marcado por debates instantâneos e polêmicas que se sucedem diariamente nas redes sociais, Carol Delgado diz que faz uma escolha consciente: prefere construir sua comédia a partir da própria vivência, em vez de transformar cada assunto do momento em material para o palco. Segundo a humorista, seu processo criativo nasce da observação do cotidiano e das experiências pessoais, e não da necessidade de comentar todos os temas que dominam a internet. “Procuro não entrar na pilha de achar que preciso falar sobre todo assunto, opinar sobre tudo ou comentar o cancelamento de fulano ou ciclano. São temas que, daqui a um ano, ninguém mais vai lembrar. Prefiro focar no que realmente quero falar: a minha comédia, o meu trabalho e aquilo que tenho vontade de escrever a partir do que estou vivendo. Se estou me mudando, falo sobre a mudança. Se estou viajando, falo sobre a viagem. Se estou vivendo um relacionamento, falo sobre o meu relacionamento.”

Carol Delgado: Não preciso agradar quem me odeia (Foto: Bruna Bonini)
A comediante também questiona a expectativa de que artistas sejam obrigados a se manifestar publicamente sobre temas políticos e sociais. Para Carol, o posicionamento deve partir de uma convicção genuína, e não de uma cobrança imposta pelas redes sociais ou pelo público. Ela observa que essa pressão costuma recair com mais intensidade sobre a classe artística do que sobre os próprios representantes eleitos. “Acho que as pessoas devem se posicionar sobre aquilo a respeito do qual realmente querem se posicionar e que faça sentido para suas vidas. Vejo uma pressão muito grande colocada sobre os artistas, uma cobrança que muitas vezes não é feita aos próprios políticos. As pessoas acabam exigindo mais posicionamentos de artistas do que dos representantes em quem votaram. Acho importante refletirmos sobre isso, principalmente porque muitos artistas dependem de patrocínios para exercer a sua profissão e podem acabar sendo prejudicados por causa de um posicionamento político. Além disso, nem todo mundo tem conhecimento ou formação para se manifestar sobre todos os temas. Por isso, considero um desserviço essa cobrança para que todas as pessoas tenham, obrigatoriamente, um posicionamento político público.”
Mais do que arrancar risos, Carol Delgado parece interessada em transformar o palco em um espaço onde a experiência cotidiana ganha voz, sem a obrigação de representar todas as causas ou responder a todas as polêmicas do momento. Em um tempo marcado pela velocidade dos julgamentos e pela efemeridade das redes sociais, a humorista escolhe outro caminho: o da observação, da ironia e da autenticidade. Entre gargalhadas e reflexões, reafirma que a comédia talvez encontre sua maior força justamente quando nasce daquilo que permanece – as inquietações humanas, as contradições do presente e as histórias que sobrevivem ao barulho passageiro da internet.
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