Teatro & Pensata

Artistas levantam a bandeira de resistência durante o Prêmio Fita de Teatro: “Um viva aos vagabundos da Lei Rouanet!”, ironizou o autor Leandro Muniz

Realizada na noite desta terça-feira, a cerimônia homenageou o trabalho de Guida Vianna, Marcos Caruso, Amir Haddad e Tonico Pereira. O grande campeão da noite foi o espetáculo' Vou Deixar de Ser Feliz por Medo de Ficar Triste?'. Vem conferir!

Publicado em 28/11/2018 | Por Ana Clara Xavier

A 6ª edição do Prêmio Fita de Teatro começou com um clima super intimista, na noite desta terça-feira. Logo no coquetel de recepção, artistas consagrados como Marcos Caruso, Guida Vianna e Amir Haddad recebiam os seus colegas de profissão com abraços acalorados, mostrando a cumplicidade e parceria que existe no meio. No palco, a piada ficou por conta do ator Alexandre Lino, que apresentou a premiação e ainda recebeu o público trajando o figurino de porteiro para lembrar o seu espetáculo apresentado na 13ª Festa Internacional de Teatro de Angra, realizada entre os dias 17 e 30 de setembro, na região da Costa Verde do Rio de Janeiro, organizadora da premiação. Durante toda a cerimônia, a palavra de ordem foi resistência. “Quero dedicar este prêmio às pessoas que acreditam que nós, artistas, mamamos na teta do governo. Viva aos vagabundos da Lei Rouanet!”, ironizou Leandro Muniz, que recebeu o título de melhor autor pelo musical ‘A Vida não é um Musical’. Entre risadas e brincadeiras irônicas, os profissionais relembraram a importância da cultura e rebateram o bombardeio de críticas que a classe artística vem sofrendo nos últimos meses.

Com homenagens a Amir Haddad e Tonico Pereira, o grande campeão da noite, com três troféus, foi a peça ‘Vou Deixar de Ser Feliz por Medo de Ficar Triste?’ que, inclusive, ganhou na categoria Melhor Espetáculo pelo Júri Técnico. Embalada pela voz de Izabella Bicalho, a noite foi de resistência e exaltação de uma arte histórica. Vem conferir na íntegra esta celebração que o site HT acompanhou no Sesc Flamengo!

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Teatro como resistência

17 dias. 50 espetáculos. 50 mil pessoas na plateia. Assim foi a Festa Internacional de Teatro de Angra, idealizada por João Carlos Rabello, que culminou na cerimônia de premiação de ontem. O destaque foi para a homenagem do diretor Amir Haddad e do ator Tonico Pereira. Entre brincadeiras no palco e puxões de orelha, a dupla de velhos amigos foi aplaudida de pé pela classe artística, que habitou a plateia do Sesc Flamengo. No discurso de ambos, não faltaram palavras de amor e superação. “Dar não dói, o que dói é resistir. Teatro é uma doação constante. Apesar disto, devemos estar preparados para todas as resistências e a melhor forma de fazer isto é demonstrar sempre amor e alegria para qualquer ameaça de morte que possa estar nos rondando”, filosofou Amir Haddad que, inclusive, é diretor do espetáculo Rugas, premiado na categoria Revelação pelo trabalho de Herton Gustavo Gratto. Para complementar as sábias palavras do colega, Tonico Pereira finalizou: “A criatividade nasce fundamentalmente da dificuldade. Não importa o empecilho que aparecer, a mataremos no peito e faremos um golaço!”.

Tonico Pereira e Amir Haddad são homenageados no palco da premiação. Os dois brincaram muito e foram aplaudidos de pé (Foto: Thyago Andrade)

Teatro como fonte de cultura

A emoção continuou no palco com a entrega do Prêmio Especial do Júri, que era formado pelo ator Sergio Fonta, a atriz Stella Freitas, o diretor de arte José Dias e o diretor do Teatro Maison de France, Cédric Gottesmann. Os homenageados da vez foram os atores baluartes Guida Vianna e Marcos Caruso. “Nunca vi reconhecimento maior como tenho experimentado neste último ano, aos meus 64 anos. É um privilégio. Vivi momentos muito difíceis financeiros e psicológicos”, comemorou a atriz que recebeu o título pela primorosa atuação em ‘Agosto’.

Guida Vianna e Marcos Caruso foram aplaudidos de pé pelo público. Os dois ganharam o Prêmio Especial do Júri pelos espetáculos Agosto e O Escândalo de Philippe Dussaert (Foto: Thyago Andrade)

Na sequência, Caruso também comentou sobre a importância da valorização artística nos palcos ao traçar um paralelo com a sua própria história de vida. “Eu fazia teatro amador em um palco 7 por 4. Em um dado momento, percebi que aquele lugar estava pequeno para mim e, agora, volto para receber o Prêmio Especial do Júri em um palco deste mesmo tamanho”, salientou. Durante mais de 45 anos de carreira, o ator nunca havia recebido um prêmio de melhor ator até o texto de ‘O Escândalo Philippe Dussart’ cair em suas mãos. “A televisão nos carrega em uma onda maravilhosa, mas sempre voltaremos para a praia do teatro. Ou, então, pegamos uma novela terrível que nos leva em um caixote desastroso de volta para os palcos. Se não tivermos esta terra firme para retornar, ficaríamos à deriva. Sou um homem do teatro. E ele só vai continuar, frente a estas nuvens tenebrosas que se aproximam, caso tenhamos uma mensagem para passar. Continuemos na resistência com responsabilidade”, afirmou Marcos Caruso.

Teatro como amor

Além das homenagens, o espetáculo mais premiado da noite conta a história verídica do ator Yuri Ribeiro e da produtora Claudia Wildberger. Com 26 anos de diferença de idade, eles encontraram um no outro a paixão sem preconceitos. “Toda esta equipe conseguiu traduzir de uma maneira que eu jamais poderia esperar o meu sonho de amor”, afirmou Claudia. ‘Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?’ levou para casa os títulos de Melhor Espetáculo pelo Júri Técnico, Melhor Figurino e Melhor Direção. “Quero agradecer pela Claudia ter aberto a vida dela para mim. Este espetáculo é uma homenagem a ela, a esta mulher maravilhosa que tenho ao meu lado”, comemorou Yuri Ribeiro. Com atuação de Paula Burlamaqui, a montagem revela uma explosão de sentimentos que encanta o público. “Fico muito feliz de trazer uma peça que fala sobre amor em tempos tão conturbados onde a palavra de ordem é resistência”, salientou o diretor e figurinista Jorge Farjalla.

‘Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?’ levou o título de Melhor Espetáculo selecionado pelo Júri Técnico (Foto: Thyago Andrade)

Teatro como superação

A premiação ainda revelou uma dobradinha artística. Izabela Bicalho e Stella Maria Rodrigues levaram para casa o troféu de Melhor Atriz pela atuação em ‘Elizeth, a Divina’ e ‘Emilinha’. Em seu discurso, ambas falaram sobre a dificuldade de se fazer arte no Brasil. “Eu não tive patrocínio e escutei muito que o tema era velho e que as pessoas não querem mais ouvir isto. No entanto, a casa está sempre cheia”, criticou Izabela Bicalho.

Dobradinha artística! Stella Maria Rodrigues e Izabela Bicalho ganharam o Prêmio de Melhor Atriz por Emilinha e Elizeth, a Divina, respectivamente (Foto: Thyago Andrade)

Quem também falou sobre o assunto foi Letícia Isnard. Ela ganhou na categoria Melhor Atriz Coadjuvante pela sua atuação em Agosto. “De tudo o que está acontecendo, o mais triste é ver os teatros vazios. Nós conseguimos superar a falta de dinheiro e apoio, mas não ter o público é algo que me dói. Fiquei feliz de ver as platéias lotadas ao longo desta Festa de Angra”, afirmou a artista. No total, a Festa Internacional de Teatro de Angra, que deu origem ao Prêmio Fita, trouxe um público de mais de 50 mil pessoas durante 17 dias de evento e 50 espetáculos.

Letícia Isnard recebeu o Prêmio de Atriz Coadjuvante por sua atuação em Agosto (Foto: Thyago Andrade)

Teatro como afirmação

Como afirmou Marcos Caruso, o artista precisa passar uma mensagem nos palcos para o público. E foi exatamente por isto que o elenco de ‘A Vida não é um Musical – O Musical’ foi reconhecido pela crítica na Categoria Especial. “Neste momento esquisito e sombrio, é uma honra podermos dizer aquilo que acreditamos e do jeito que mais amamos com um espetáculo que toca o coração do público”, adiantou a atriz Daniela Fontana.

A atriz do elenco de A Vida Não É Um Musical, Daniela Fontana, ao lado de Izabella Bicalho, Alexandre Lino e Tony Lucchesi  (Foto: Thyago Andrade)

Um pouco antes, outro ator também havia sido reconhecido pela bandeira que levanta ao subir no palco. O próprio apresentador da cerimônia, Alexandre Lino, foi dado como destaque pelo Prêmio Fita de Teatro por construir um teatro voltado para as pessoas invisíveis da sociedade. “Tenho um orgulho imenso de ser nordestino e pernambucano. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, cheguei a sofrer preconceito por causa das minhas origens. Julgamentos estes que só voltei a escutar no período das eleições deste ano. No entanto, foram estas críticas que me inspiraram a trazer as domésticas para o teatro. O meu desejo com este trabalho era dar voz aos trabalhadores do nosso país. O lugar do povo nordestino é na frente dos holofotes”, explicou Alexandre Lino.

O ator Alexandre Lino recebeu o Prêmio de Destaque por seu papel de dar voz a diversidade (Foto: Thyago Andrade)

Teatro como continuidade

Se podemos tirar alguma conclusão desta noite premiada é que o teatro está longe de morrer. Apesar de todas as adversidades que enfrenta, ainda é uma arte respeitadíssima na qual vale apostar sempre. “As pessoas estão comentando que existe uma nuvem negra no teatro. Há uma ideia de perspectiva negativa. No entanto, ao longo da minha vida, já vi diversas vezes que, apesar de todas as dificuldades, o teatro resiste e é na crise que ele mais brilha”, reafirmou o idealizador do evento João Carlos Rabello, um grande responsável por incentivar esse movimento artístico.

Idealizador do Fita, João Carlos Rabello, fala sobre a importância do teatro e a força de superação da classe artística (Foto: Thyago Andrade)

Atriz homenageada: Regina Duarte

Ator Homenageado: Tonico Pereira

Diretor Homenageado: Amir Haddad

Melhor Espetáculo – Júri popular: “Confissões de um senhor de meia idade”

Melhor espetáculo: “Vou Deixar de ser Feliz por Medo de Ficar Triste?”

Melhor Espetáculo Infantil (júri infantil): “Lololendi”

Melhor Atriz: Izabella Bicalho – “Elizete, a Divina”

Melhor Atriz: Stella Maria Rodrigues – “Emilinha”

Melhor Atriz Coadjuvante: Letícia Isnard – “Agosto”

Melhor ator: Flávio Migliaccio – “Confissões de um senhor de meia idade”

Melhor ator Coadjuvante: Fabricio Negri – “Emilinha”

Melhor autor: Leandro Muniz – “A Vida não é um musical – O Musical”

Melhor Diretor: Jorge Farjalla – “Vou Deixar de ser Feliz por Medo de Ficar Triste?”

Prêmio especial do júri: Marcos Caruso pela atuação em “O Escândalo de Philippe Dussaert”

Melhor Figurino: Jorge Farjalla – “Vou Deixar de ser Feliz por Medo de Ficar Triste?”

Prêmio Especial do Júri: Guida Vianna – pela atuação em Agosto

Melhor Cenário: Carlos Alberto Nunes – Agosto

Categoria Especial: Elenco de A Vida não é um musical – O Musical

Revelação: Herton Gustavo Gratto – Autor do espetáculo Rugas

Melhor Música: Miguel Briamonte – Forever Young

Destaque FITA 2018: Alexandre Lino – pela trilogia na FITA

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