*Por Brunna Condini
Arlete Salles está de volta aos palcos ao lado de Edwin Luisi, Pedro Medina e Alexandre Barbalho, os dois últimos, neto e filho da atriz, respectivamente, com o espetáculo ‘Ninguém Dirá que é Tarde Demais‘. O texto escrito por Pedro especialmente para avó, conta a história de Luiza (Arlete) e Felipe (Edwin), vizinhos de prédios diferentes que se estranham durante a pandemia de Covid-19, acabam se aproximando e se relacionando. A atriz bateu um papo com site para falar do projeto, da carreira, das novelas hoje e de amor aos 86 anos. “Foi uma temporada muito feliz. Não vou me despedir só desta peça, mas de um momento profissional raro, com meu neto e meu filho. Eles estão dentro do meu coração de forma profunda. E não só porque somos família, mas por nos damos muito bem. Nunca tivemos um ‘arranhão’ em nossa relação. Ir para o palco juntos era um sonho nosso. Estreamos na pandemia, foi sofrido, tumultuado. Depois saímos por aí com o espetáculo, que está muito divertido e emocionante. O teatro tem a função de iluminar as pessoas de alguma forma”, diz Arlete.
Se no palco ela retrata uma relação mais madura, aqui ela nos fala sobre sua vida afetiva. “Já descartei. Se uma pessoa da minha idade me falar que está apaixonada ou namorando, vou achar maravilhoso. Acredito que uma pessoa mais velha pode ter uma vida sexual satisfatória, só não é o que quero para mim hoje. Mas sei lá se vou esbarrar em alguém por aí, que vai me fazer desejar esse lugar do amor romântico novamente, não é mesmo?”.
O teatro é algo tão potente que, às vezes, chego cansada para fazer o espetáculo e depois de alguns minutos atuando, me sinto revitalizada, revigorada, rejuvenascida e até mais bonita. Sinto muita felicidade – Arlete Salles

Arlete Salles está em espetáculo com o filho e o neto, fala da carreira, de vitalidade e de amor aos 86 anos (Foto: Divulgação/Globo)
De onde vem tanta vitalidade e energia? “É preciso ter coragem e alegria para viver diariamente. Tenho buscado isso e vem dando certo. Também sou geminiana (de 17 de junho). Gêmeos é um signo muito jovial. E gosto tanto da minha profissão! Tenho saúde para trabalhar, então isso me permite continuar sonhando aos 86 anos”.
Às vezes penso que seria legal ter alguém para sair, viajar, fazer companhia. Mas a pessoa não vai querer só isso, não é? E para o resto não estou mais disposta. Então é melhor ter só um amigo. A vida tem ciclos e penso que já fechei o amoroso. No entanto, se amanhã ou depois você me encontrar acompanhada por aí, vai ver como a vida pode ser misteriosa. Digo que não tive sorte no amor, mas devo ter tido meu príncipe encantado. Sou geminiana, então também não sou muito fácil neste quesito – Arlete Salles
Uma vida dedicada ao ofício
São 70 anos de carreira e a atriz revisita sua trajetória: “Comecei fazendo locução aos 16 anos na Rádio Jornal do Comércio, depois fui para a Rádio Tamandaré, uma associada, no Recife. Mais adiante, já casada com o Lúcio Mauro (1927-2019) – a atriz teve dois filhos com ele, o ator Alexandre Barbalho e o cineasta Gilberto Salles – viemos para a TV Tupi, no Rio de Janeiro. Nesta época, a Tupi fazia mais humor, e lá no Recife, eu já havia ganhado prêmios como atriz, feito teatro. Gosto do humor, mas queria viver personagens mais profundos, eu tinha me preparado para isso. Foi quando o Boni teve uma passagem rápida pela Tupi e o Walter Clark (1937-1997) o chamou para a Globo. Procurei o Boni e eu e o Lúcio fomos contratados pela TV Globo. Sigo contratada até hoje”.
Atualmente Arlete pode ser vista em ‘Tieta‘, que chega à sua reta final no Vale a Pena Ver de Novo, na Globo. “É um trabalho que gosto muito, singelo. Uma história de Jorge Amado (1912-2001). No romance, minha personagem, a Carmosina, não aparece tanto, diferente da novela”.
Não acho que o mercado das novelas está saturado. O que existe hoje são mais opções para o público, têm os streamings. Na Globo, por exemplo, existe um super crivo com as sinopses que são aprovadas, mas hoje o espectador tem um cardápio maior. As novelas continuam boas, estão se renovando, o público talvez sinta falta de mais equilíbrio, da novidade com os atores velhos conhecidos. Mas somos perecíveis, é natural o movimento de renovação – Arlete Salles

Arlete Salles viveu suas primeiras protagonistas em ‘Família é Tudo’: “O protagonismo veio com gêmeas. Era uma carga grande de trabalho, mas foi prazeroso demais” (Foto: Divulgação/Globo)
Mesmo tendo uma carreira tão longeva, Arlete experimentou o protagonismo em novelas somente aos 85 anos, em ‘Família é Tudo‘, e comenta a experiência: “Foi um momento realmente especial no meu trabalho em televisão. Fazer duas personagens ao mesmo tempo não é brincadeira! Um desafio e tanto. Às vezes era extremamente cansativo. Mas eu estava apaixonada pelas personagens, pelo desafio, então foi prazeroso”. E acrescenta:
Nesta novela pegamos um horário que não estava muito bom na época (a trama anterior foi ‘Fuzuê’) e trabalhamos como os náufragos, querendo chegar na praia. Fomos dando ‘braçadas’ até chegar. Com Fred Mayrink capitaneando, com muita sensibilidade. Como diretor, ele é o sonho de qualquer ator. E entregamos a novela bonita em audiência. Desafio aceito e desafio realizado. Trabalhar é bom para manter a gente de pé, faz vivermos mais. Tenho muita felicidade de continuar na ativa. Mas hoje já me permito escolher o que faço. Vivo um dos melhores momentos profissionais aos 86 anos – Arlete Salles

Arlete Salles em cena de ‘Família é Tudo’ (Foto: Divulgação/Globo)
Artigos relacionados
Existe uma hora certa para viver? A gravidez de Sabrina Sato reacende o debate sobre o tempo da realização dos sonhos
Dia do Orgulho LGBTQIA+ e o ano eleitoral: após a visibilidade, chegou a hora da representação nos espaços de poder
Maria Flor fala sobre maternidade, saúde mental e, nos palcos, vive a dor de uma mãe que vê o filho com depressão